quinta-feira, 25 de março de 2010

Tenho falado muito nisso em sala de aula

Cartões garantem consumo das famílias

Autor(es): Soraia Duarte, para o Valor, de São Paulo
Valor Econômico - 25/03/2010

Os cartões de crédito, débito ou emitidos por lojas financiaram mais de R$ 444 bilhões em compras em 2009, de acordo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Tal montante, que equivale a 22% do consumo feito pelas famílias no país no período, é 18% superior ao verificado em 2008, o que demonstra o crescente espaço dos cartões como meio de pagamento. "A praticidade e a capilaridade transformaram os cartões em um efetivo instrumento de crédito", avalia Paulo Rogério Caffarelli, presidente da Abecs.

Entre os três tipos de cartão, a maior base pertence aos emitidos por lojas ou redes de varejo, os chamados private label. Somavam em 2009 quase 200 milhões de unidades. No entanto, responderam por apenas 13% das transações, segundo a Abecs. Já os de crédito, mesmo com uma base menor, de 136 milhões de unidades, têm sido os preferidos como meio de pagamento, utilizados 58 vezes a cada 100 compras feitas com cartão.


Esse movimento tem se refletido na substituição dos cartões de loja pelos de crédito, mesmo para pagar as compras na rede que os emitiu. José Antônio Rodrigues, diretor de crédito e risco da Riachuelo, conta que há cerca de três anos, a participação do private label como meio de pagamento correspondia a 75% das vendas da rede. Em 2009, caiu para 59%.

Na Renner , os cartões próprios foram utilizados em 60,2% das vendas em 2009, participação menor que a do ano anterior, quando responderam por 63,1%.

Essa perda de espaço dos private label, aliada ao interesse das instituições financeiras a oferecer crédito a essas carteiras de clientes, tem estimulado os varejistas a lançar cartões híbridos. Tal formato reúne as vantagens concedidas ao private label, quando utilizado nas lojas que o emitiram, com as funcionalidades de um cartão de crédito, podendo ser utilizado em outros estabelecimentos. "Para a loja, há a vantagem da fidelização. Para o banco emissor, o ganho de escala, atingindo os clientes de determinada rede", diz Caffarelli.

Os private label são emitidos pelo varejista com o intuito de facilitar compras e pagamentos em suas lojas. "São o carro-chefe no relacionamento entre as redes e seus clientes", avalia Boanerges Ramos Freire, presidente da Boanerges&Cia, consultoria em varejo financeiro. Oferecem condições diferenciadas de pagamentos, como um número maior de parcelas, e pouca burocracia para ser emitidos. "Esses cartões têm sido a porta de entrada das pessoas de menor poder aquisitivo no sistema financeiro tradicional", analisa Álvaro Musa, sócio-diretor da consultoria Partner Conhecimento.

Com a estabilização da economia e o aumento do poder de compra das classes C e D, os cartões de loja passaram a ser um nicho cobiçado pelas instituições financeiras. "Os bancos podem se aproximar desse público por meio do varejista", diz Musa.

A aproximação dos bancos a redes como Pão de Açúcar, Magazine Luiza e Leader são alguns exemplos, assim como as Lojas Marisa, que fechou acordo com o Itaú Unibanco há pouco mais de um ano. A rede já contabiliza 815 mil "embandeirados", dentro de uma base de quase 13 milhões de cartões próprios.

Nas Casas Bahia, os cartões híbridos sob administração do Bradesco substituíram os carnês, e já somam 6,7 milhões de unidades. Tais alianças têm se dado por meio de contratos comerciais ou por estruturas societárias.

Enquanto alguns varejistas e instituições financeiras montam estratégias conjuntas, outras redes decidem explorar os private label por conta própria, montando financeiras. É o caso do Carrefour e da Riachuelo, que em 2008 ergueu a Midway Financeira.

Esse braço de negócios responde pela administração dos private label e pela distribuição dos cartões com bandeira, formato que pretende abranger metade dos 16 milhões de plásticos de sua base. Também vem desenvolvendo uma ampla gama de produtos, que inclui crédito consignado e pessoal, seguros de auto, vida e residência, além de assistência odontológica.

As Lojas Renner, dona de uma carteira de 15,5 milhões de cartões, já anunciou a montagem de uma financeira própria, mas aguarda para este ano ainda a autorização do Banco Central. Enquanto isso, lançará em maio o cartão híbrido com bandeiras Visa e Mastercard.

Freire classifica a estratégia da C&A a mais bem sucedida na adoção de cartões híbridos. De sua base de mais de 20 milhões de cartões, 9 milhões podem ser utilizados fora de suas lojas. "A soma do cartão de loja com uma bandeira faz com que a marca do varejista fique mais exposta", explica. Além disso, o cartão, cada vez que é usado, dá pistas sobre perfil e hábitos de consumo dos clientes. "Transforma-se em ferramenta de relacionamento, auxiliando na concepção de ofertas dirigidas."

Ao mesmo tempo, os híbridos permitem que as redes de varejo alavanquem seus resultados, seja no formato de alianças com bancos ou por meio da operação de financeiras próprias. No primeiro caso, os cartões geram receitas à rede por meio da comissão pelos acordos de exclusividade firmados com bancos. Como financeiras, a loja emissora é remunerada a cada uso do cartão fora de suas lojas, com uma taxa de administração de 1,3% a 1,4% do valor de cada transação, de acordo com Freire.

A Abecs estima que, em 2010, os private label apresentem um crescimento de 14% em número de cartões, evolução menor que os 20% esperados para os de crédito. "A maior expansão dos cartões de loja será no valor das transações", prevê Freire, movimento que vai refletir o maior uso estimulado pelos híbridos.

Extraído de http://www.valoronline.com.br/ em 25 de março de 2010

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