segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Poder da China em Cheque!!!


Cinco mitos sobre a economia chinesa
Autor(es): Agência O Globo/ARTHUR KROEBER
O Globo - 18/04/2010

A impressionante ascensão econômica da China é uma das grandes histórias desta geração. Em apenas três décadas, desde que abraçou a economia de mercado, a China deixou para trás sua pobreza desesperadora para se tornar a maior nação exportadora do mundo. A transformação ocorreu tão rapidamente que proliferam mitos e mal-entendidos.

1. A China irá rapidamente ultrapassar os EUA como a economia mais poderosa do mundo.

De acordo com uma pesquisa feita em novembro pela Pew Research Center, 44% dos americanos acreditam que a China já é a maior potência econômica, enquanto 27% põem os EUA nessa posição. Essa percepção está completamente em desacordo com os fatos.

Este ano, a economia da China deverá produzir cerca de US$ 5 trilhões em bens e serviços. Isto irá colocá-la à frente do Japão, como a segunda maior economia, mas ela ainda seria pouco mais de um terço da americana (US$ 14 trilhões), e bem atrás da União Europeia, se tomada como um todo.

Uma razão pela qual a economia chinesa é tão grande é que o país tem 1,3 bilhão de habitantes. Mas o PIB per capita chinês é apenas um sétimo do americano. Em termos de padrão de vida das famílias, a China está ainda mais atrasada. A cada ano, uma família chinesa consome, em média, 1/14 do valor em bens e serviços adquiridos por uma família americana. E, apesar de sua perda crônica de empregos no setor manufatureiro, os EUA ainda são o líder nessa área Em termos de valor dos bens, os EUA respondem por mais de 20% da produção global, cerca de duas vezes mais que a China.

2. O vasto estoque de títulos do Tesouro americano em poder da China significa que Pequim pode tornar Washington refém em negociações econômicas.

A China detém mais títulos do Tesouro americano do que qualquer outro país — cerca de US$ 1 trilhão. Muitos pensam que, com isto, a China é o banqueiro dos EUA e que pode fechar sua linha de crédito a qualquer momento que Washington faça algo que desgoste os líderes chineses.

Mas a posse dos títulos do Tesouro pela China não é o mesmo que um empréstimo regular que um banco concede a uma companhia. Parecem mais com depósitos: seguros, com elevada liquidez e taxas de juro muito baixas.

Como um depositante, a China tem pouca capacidade para dizer a seu banco como ele deve gerir seus negócios.

Ela pode apenas transferir seus depósitos para outro lugar — mas eles são tão grandes que não há outro “banco”.

Os mercados de títulos europeu e japonês não são grandes o bastante para absorver tanto dinheiro da China, nem a China pode comprar campos de petróleo, minas ou imóveis suficientes para aplicar todo seu dinheiro. E o país não pode simplesmente investir todo o dinheiro em sua própria economia, sob pena de ver a inflação disparar. Desta forma, goste-se ou não, Washington e Pequim estão grudados um no outro — e nenhum dos dois tem o poder de tornar o outro refém.

3. Deixar sua moeda apreciar é a coisa mais importante que a China pode fazer para reduzir seu superávit comercial.

Algumas companhias americanas, sindicatos e políticos se queixam que, ao manter uma taxa fixa entre o yuan e o dólar, a China está injustamente tornando seus produtos mais baratos no mercado mundial, ampliando seu superávit às expensas de seus parceiros comerciais.

Certamente, o câmbio é importante, mas é um erro achar que deixar o valor do yuan aumentar magicamente faria o superávit comercial chinês desaparecer. No final dos anos 80, o Japão deixou o iene dobrar de valor, mas seu superávit comercial não cedeu.

De maneira inversa, em 2009 a China manteve o valor do yuan fixo contra o dólar, mas seu superávit comercial caiu em um terço.

De longe, a coisa mais importante que a China poderia fazer para reduzir seu superávit comercial é estimular a demanda interna (inclusive por produtos importados), algo que ela começou a fazer via um maciço programa de investimentos em infraestrutura.

4. A fome da China por recursos está deixando o mundo seco e dando grande contribuição para o aquecimento global.

É verdade que a China é hoje a maior produtora de dióxido de carbono e outros gases-estufa que contribuem para o aquecimento global. E é verdade que a China usa mais energia para produzir cada dólar de seu PIB que a maioria dos outros países, inclusive os EUA. Mas, numa base per capita, o uso de recursos pela China ainda é modesto se comparado aos países ricos. Por exemplo, a despeito do rápido crescimento do uso de automóveis, a China consome cerca de 8 milhões de barris de petróleo por dia. Os EUA consomem cerca de 20 milhões de barris/dia. Os EUA, com apenas 5% da população mundial, respondem por quase um quarto do consumo global de petróleo. De quem é o apetite que causa maior problema? Além disso, ao contrário dos EUA, a China reconheceu que não pode deixar seu apetite por combustível fóssil crescer para sempre e está trabalhando duro para aumentar a eficiência.

5. A economia chinesa cresceu principalmente via cruel exploração de mão de obra barata.

Toda vez que uma economia em desenvolvimento começa a crescer rapidamente, países ricos a acusam de trapacear ao manter os salários e a taxa de câmbio artificialmente desvalorizados.

Mas isto não é trapacear; é um estágio de desenvolvimento natural que caminha para o fim em todo país, como acontecerá na China. Esta cresceu de forma muito similar às outras economias que hoje consideramos maduras e histórias de sucesso responsáveis — incluindo Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Estes países investiram pesadamente em infraestrutura e educação, e rapidamente levaram seus trabalhadores de empregos de baixa produtividade em áreas rurais para outros mais produtivos nas cidades.

A China está atingindo esse estágio agora: o número de jovens com idade de entrada na força de trabalho (15 a 24 anos) deverá cair em um terço nos próximos 12 anos. Com trabalhadores jovens mais escassos, os salários não poderão senão subir. Isto já está acontecendo.

No mês passado, a província de Guangdong (maior centro exportador da China) aumentou o valor do salário mínimo em 20%.

A China ainda tem grande quantidade de trabalhadores se dirigindo do campo para as cidades, mas a era do trabalhador chinês ultrabarato em breve ficará para trás.

ARTHUR KROEBER é diretor-gerente da GaveKal-Dragonomics, empresa de pesquisas em Pequim. © The Washington Post.
Extraído de www.oglobo.com.br

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