terça-feira, 1 de junho de 2010

Oito séculos de crises financeiras
Autor(es): Paulo R. Haddad
O Estado de S. Paulo - 01/06/2010

O mundo ainda vivia o trauma resultante da primeira crise econômico-financeira global após a 2.ª Grande Guerra, quando essa crise se espraiou por diversos países da Europa. Uma crise global está associada a dois fatores abrangentes: os seus efeitos adversos sobre o nível e a volatilidade dos agregados macroeconômicos mais significativos (PIB, produção industrial, correntes de comércio, etc.) em escala mundial e sua relativa sincronização entre países. Por mais que se tente comparar esta crise com a Grande Depressão dos anos 1930, ela tem apresentado eventos circunstanciais que estão desafiando a capacidade de análise e de interpretação de historiadores, economistas, executivos públicos e privados. A perplexidade intelectual diante desses eventos tem trazido à tona intensas controvérsias ideológicas e, ao mesmo tempo, a síndrome de que "desta vez é diferente". Uma situação na qual a sociedade está convencida cada vez mais de que o seu ciclo de prosperidade, diferentemente de muitos ciclos anteriores que precederam colapsos catastróficos, está baseado em sólidos fundamentos, reformas estruturais, instrumentos criativos, inovações tecnológicas e políticas de melhor qualidade e consistência técnica.

Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff realizaram recentemente a mais ampla e melhor pesquisa sobre crises financeiras em escala global. A pesquisa cobre uma amostra de 66 países em cinco continentes, durante oito séculos, que se estendem desde os tempos da Idade Média (moratórias de dívidas ou práticas de adulteração pelos soberanos do conteúdo de metais preciosos das moedas em circulação) até a atual crise global iniciada em 2008. Utilizam não apenas trabalhos de outros pesquisadores como referência bibliográfica, mas produzem vários indicadores originais além de séries históricas macroeconômicas inéditas. Neste sentido, as 100 páginas do seu livro (Oito séculos de delírios financeiros: desta vez é diferente), que contém quatro apêndices, assim como as suas notas bibliográficas, passam a ser uma poderosa plataforma de apoio para novas e complementares pesquisas sobre as crises financeiras em nível global.

Percorrem cinco "variedades" de crises: a insolvência soberana doméstica e a externa, crises bancárias, colapsos monetários e explosões inflacionárias. Essas cinco variedades não são tratadas de forma isolada, pois tendem a se "clusterizar" em diferentes conjunturas num mesmo país e entre países por contágio ou por fatores comuns.

Como o livro foi escrito após "a crise do subprime" e publicado no segundo semestre de 2009, é possível destacar brevemente algumas reflexões (e não previsões) dos autores sobre o futuro da atual crise mirando as experiências do passado não como imagens estáticas em um espelho, uma vez que agora dispõem de noções evidentes sobre os processos da cadência, da intensidade e do sequenciamento dessas experiências, com destaque para os processos da Grande Depressão de 1929.

Assim os autores buscam, na sua jornada em torno de oito séculos de história das crises financeiras no mundo, lições que possam contribuir para mitigar crises futuras. Algumas delas merecem destaque. O perigo maior está nas crises financeiras globais uma vez que os países perdem seus eventuais estabilizadores ou amortecedores dos ciclos recessivos através dos fluxos de comércio e de capitais. Da mesma forma, essas crises globais (de qualquer variedade) são mais dramáticas em termos de duração, amplitude e volatilidade do que os ciclos de negócios típicos do período pós-2.ª Guerra, tanto nas economias avançadas quanto nas emergentes. É possível, analisando indicadores macroeconômicos antecedentes (em termos de preços de ativos, de atividade econômica, de fluxos externos, etc.), observar padrões que aparecem no sequenciamento (ordem temporal) através dos quais as crises se desdobram. Contudo, a natureza recorrente das crises financeiras em suas diversas versões leva os autores a um ceticismo quanto à possibilidade de fornecer respostas sobre qual a melhor forma de evitá-las. Por outro lado, há um imenso escopo para fortalecer a supervisão macroeconômica prudencial melhorando a divulgação de dados e desenvolvendo séries históricas mais extensas a fim de obter perspectiva maior sobre os padrões e as regularidades estatísticas.

Além de ricas reflexões, o livro de Reinhart e Rogoff traz também muitas advertências, tais como: em ciclos passados, crises bancárias internacionais muitas vezes resultaram em ondas de moratórias nacionais poucos anos mais tarde; ou, os governos que se convenceram de que fizeram as coisas muito melhor que seus predecessores deveriam ser os primeiros a despertar, porque nada é diferente desta vez.

Extraído de http://www.estadao.com.br/ em 01 de junho de 2010.

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