sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Importação de veículos cresce 150% até agosto

Mercado de carro importado cresce e abre espaço para grupos "emergentes"

Autor(es): Naiana Oscar, Fernando Scheller


Expansão. Vendas de automóveis importados cresceram 150% de janeiro a agosto em relação a 2009, enquanto o número de marcas presentes no País dobrou em um ano; montadoras chinesas já respondem por 12% da comercialização de importados

Dólar baixo e consumo interno em alta fizeram a importação de veículos no Brasil alcançar, de janeiro a agosto, o melhor desempenho desde 1995. O salto foi de 150% em relação ao ano passado, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva).

O crescimento foi impulsionado pela chegada de dezenas de montadoras estrangeiras, especialmente chinesas, que passaram a apostar no mercado brasileiro. Em um ano, o número de empresas que exporta seus modelos para o Brasil dobrou.

Até o início de 2009, eram menos de 16 montadoras. Agora, são 30 - oito delas chinesas. Embora tenham pouco tempo de mercado e uma rede de revendas incipiente, essas empresas, juntas, já representam 12% dos 60,2 mil veículos importados entre janeiro e agosto.

"É um volume bem razoável porque eles têm produtos que brigam com os populares, onde a faixa de consumidores é muito maior", afirma José Luiz Gandini, presidente da Abeiva e da Kia Motors - líder de vendas entre os importados, com 54% de participação. "É mais fácil vermos a expansão das chinesas do que a de uma BMW, que tem uma venda mais restrita."

A chegada de empresas como Chery, Chana, Effa Changhe, Lifan e Jinbei Automobile - todas da China - está mudando também o perfil do consumidor de carros importados no País. Até pouco tempo atrás, a classe AAA dominava esse mercado. "Agora, temos também o público do carro popular, que procura um veículo mais completo por um preço mais acessível", diz.

A primeira dessas chinesas a chegar ao Brasil foi a Chana, em 2006. Mas é a novata Chery, no País desde o ano passado, que tem abocanhado mercado com mais velocidade. A empresa estatal já tem 40 revendas no mercado brasileiro e planeja inaugurar mais 30 pontos até dezembro. A Chery vendeu 2,6 mil veículos este ano.

O modelo mais barato é o Face, que sai por R$ 31,9 mil, com ar condicionado, airbag, freio ABS e outros acessórios. O Tiggo custa R$ 54 mil e o Cielo, R$ 44 mil. Até o início do ano que vem, um quarto modelo deve chegar ao mercado brasileiro - o QQ, que deve custar R$ 20 mil.

Todos os modelos são "completos", mas não têm câmbio automático e são movidos apenas a gasolina. A empresa espera resolver esses dois detalhes com a instalação de uma fábrica no Brasil em 2013.

Para o consultor da ADK Automotive, Paulo Roberto Garbossa, o desafio de marcas como a Chery é conquistar a confiança do consumidor.

Numa das três concessionárias paulistanas da montadora, esse é um obstáculo que muito lentamente começa a ser vencido. "Em agosto do ano passado, quando abrimos a unidade, nosso público era só de curiosos", diz a gerente Ana Maria Gonçalves. Nos primeiros 15 dias de setembro, a loja registrou 30 vendas - um recorde para os últimos meses, com média de 15 carros vendidos por mês.

Público. A maioria dos clientes são das classes B e C, mas ainda há um público classe D que visita a concessionária na esperança de achar uma pechincha. "Só que eles chegam aqui e veem que não é tão barato assim", diz Ana Maria.

Depois de muita pesquisa, a microempresária Stephanie Achcar, de 21 anos, levou para casa, nesta semana, um Cielo. Como trabalha com intercâmbio para adolescentes de famílias de alta renda, queria um carro "mais chique" para fazer os atendimentos, e que não fosse tão caro. Antes de fechar a compra, ligou para proprietários dos veículos e ouviu, críticas e elogios na mesma medida. "Fiquei com medo porque é um carro chinês e ainda não sabemos qual é a desses caras", disse. "Assim que saí da concessionária ele pifou numa rampa. Fiquei assustadíssima, mas não sei se é reflexo da minha desconfiança."

Embora a Chery seja a campeã de vendas entre os chineses no Brasil, é a Effa Motors que oferece os modelos mais barato do mercado: utilitários a partir de R$ 20.480. A companhia, que vende também o carro popular M100, está introduzindo uma nova marca no País, para vender "genéricos" do Mini Cooper e do Corolla, da Toyota. "Nosso objetivo é vender 6 mil carros até o fim deste ano", diz Clairto Acciarto, diretor comercial da Effa Motors no Brasil.

O público para esses automóveis inclui a classe C e até uma parte da D. "As parcelas para compra dos veículos saem a menos de R$ 500." Os utilitários são comprados principalmente por trabalhadores autônomos.

PARA LEMBRAR

Carro russo marcou abertura de mercado

No início da década de 1990, quando o então presidente Fernando Collor de Mello derrubou a barreira para produtos importados, que vigorou durante todo o regime militar e também no governo José Sarney, os primeiros carros fabricados em outros países a ganharem o mercado brasileiro em larga escala foram os russos Lada. Ao custo de aproximadamente US$ 7 mil, disputavam em preço com os veículos populares da época. Entre os modelos vendidos no País estavam o Laika, o Samara (que lembrava um pouco o antigo Gol) e o Niva (espécie de jipe off-road).

O automóvel, fabricado pela empresa estatal russa Avtovaz, tinha o design típico dos veículos que hoje servem apenas de objeto de cena para filmes ambientados na Rússia ou na Alemanha Oriental, antes da queda do Muro de Berlim, em 1989: o design quadrado e pesado, que ressalta o aspecto funcional de um automóvel.

Apesar do relativo sucesso durante os anos de comercialização no Brasil, entre 1990 e 1995, o veículo enfrentou problemas por não estar adaptado à gasolina com mistura de álcool usada no Brasil. O golpe final foi o estabelecimento do imposto de importação sobre veículos, que inviabilizou a concorrência no quesito preço com os similares locais.

Extraído de http://www.estadao.com.br/ em 17/09/2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário