sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mundo refém do câmbio

Estados Unidos, China, Japão e Alemanha são vilões da guerra cambial global

Aeconomia global está refém de apenas quatro países - Estados Unidos, Japão, Alemanha e China - para impedir o agravamento ainda maior das distorções cambiais que estão minando a competitividade mundo afora. Porém, sem conseguir superar de uma vez por todas os efeitos da crise financeira global, o quarteto não quer arcar com prejuízos políticos para resolver internamente desequilíbrios que poderiam impedir uma batalha internacional, tanto financeira quanto comercial.

No esforço do pós-crise de 2008, os Estados Unidos derrubaram a taxa de juros para estimular a retomada da economia, provocando a desvalorização forte do dólar frente às demais moedas e inundando o mercado internacional de recursos. Essa situação permanece até hoje. O Japão seguiu a mesma linha. A China também aposta na desvalorização do yuan para manter-se em velocidade de cruzeiro e mantém inalterada a política de controle da taxa de câmbio.

Já a Alemanha, maior exportadora do mundo, tem interesse em desvalorizar o euro. Para isso, porém, deveria colocar em prática um ajuste fiscal politicamente complicado de ser implementado em toda a Europa. Ainda mais após o fiasco, perante os olhos alemães, da ajuda financeira à Grécia.

O estímulo fiscal (desoneração de tributos, por exemplo) também seria a receita desejável para EUA e Japão se recuperarem sem provocarem problemas para as demais nações. No entanto, a decisão tem custo político depois dos desembolsos muito elevados que já foram feitos.

- Os americanos inundam o mundo com dólares e não se preocupam com os estragos que provocam. A China, o novo rico da economia mundial, também tem sua parcela de culpa ao blindar-se no câmbio, neutralizando o valor do yuan e fazendo-se de surda aos reclamos mundiais para flexionar a sua moeda - aponta o diretor-executivo da Corretora NGO Câmbio, Sidnei Nehme.

Brasil foi 3º maior alvo de especulação

Os analistas chamam atenção ainda que, sem medidas efetivas, a tendência para o dólar e o euro permanece a mesma, segundo o comportamento de suas contas correntes (registro de transações com o mundo). Nos EUA, o déficit em conta corrente - que estimula a desvalorização da moeda - ficou em US$431 bilhões (3,3% do Produto Interno Bruto) no período de 12 meses encerrados em setembro. Já na Alemanha, há superávit de 5,2% do PIB.

- Alterar a política fiscal é muito mais penoso politicamente do que mexer na monetária. Esse é o pano de fundo da chamada guerra cambial. O mundo é refém das questões políticas internas de quatro países que, juntos, detêm a maior parcela do PIB do planeta, além de representar o maior volume de comércio - disse o economista Carlos Langoni, ex-diretor do Banco Central (BC).

Esse impasse doméstico e as medidas unilaterais que começam a ser adotadas pelo mundo têm consequências importantes, principalmente para os emergentes. Elas se dão tanto pelo ingresso volumoso de recursos estrangeiros, que derrete o dólar e atrapalha os exportadores, quanto pela imposição de uma competição desleal por mercados no exterior, por exemplo com produtos chineses.

No caso do Brasil, as duas evidências se observam. Por exemplo, o país foi o terceiro alvo de especulação no último ano, numa lista de 16 países, oferecendo ganho médio de 14,5% aos investidores no mercado financeiro (contratos futuros e títulos públicos) em 12 meses, segundo estudo do Ministério da Fazenda.

O documento mostra que o país só perdeu para África do Sul (18,2%) e Austrália (15,8%). Os estrangeiros foram atraídos não apenas pelas elevadas taxas de juros brasileiras, mas pela forte oscilação do câmbio no período. Como consequência, as exportações brasileiras perderam competitividade e estão sendo salvas pela alta do valor dos produtos básicos.

A desvalorização do dólar provoca uma preocupação generalizada. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, discutiu o tema ontem com o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner.

- Para mim, o que desestabiliza o câmbio mundial é a desvalorização do dólar. Ele (Geithner) me garantiu que a política dos EUA não é desvalorizar o dólar. Pelo contrário, é fortalecer. Perguntei sobre as ações do Fed (banco central dos EUA). Ele disse que a política do Fed está sendo superestimada no seu impacto - disse Mantega, que, junto com Geithner, quer o tema como protagonista da reunião de líderes do G-20 no próximo mês.

Segundo Langoni, é dos quatro grandes países com desequilíbrios que se deve esperar um sinal durante o G-20. Por algum tempo, americanos tentaram convencer o resto do mundo de que a China era o grande vilão global. Mas, agora, como o tema ocupa o topo da agenda internacional, abre-se uma janela de negociação. Mas as barreiras ainda são grandes.

Para o economista da Consultoria Tendências Raphael Martello, o mundo se vê diante de uma situação inusitada. A própria literatura da academia foi feita com base em outra lógica. Crises nos emergentes estariam relacionadas à falta de dinheiro e não ao excesso dos fluxos de capitais:

- Por isso, não existe um receituário. Os bancos centrais destes países estão tateando no escuro.

Autor(es): Vivian Oswald e Martha Beck
O Globo - 22/10/2010 disponível em http://www.oglobo.com.br/

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