terça-feira, 2 de novembro de 2010

Aplausos: está eleita a primeira mulher presidente do Brasil

Com o processo de redemocratização do Brasil, na década de 1980, os ideais de liberdade protagonizados e pregados, em especial pelo Partido dos Trabalhadores, eram referência para milhares de brasileiros que buscavam um país mais justo e igualitário. Na juventude vivida naquele tempo, tínhamos exatamente essa noção. Com o passar dos anos, fomos ponderando partidos, candidatos, crises políticas, legendas de aluguel, políticos caricatos, entre outras mazelas, e não participamos de qualquer movimento que contribuísse para a eleição da então candidata Dilma Rousseff. O que nos motiva a comemoração é outra questão histórica: a conquista da representatividade feminina no espaço urbano, nos movimentos sociais e políticos, desde o século 19, e agora enfatizados pela eleição da primeira mulher presidente do Brasil.

Fazendo um recorte de tempo e espaço, rememoramos a maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935), que, em pleno século 19, conseguiu transpor a barreira imposta entre a música erudita e a música popular, além do próprio corte que representava, para aquele contexto social, o fato de uma mulher inserir-se na sociedade como compositora. Além de pioneira no teatro musicado, Chiquinha Gonzaga era engajada com as causas do seu tempo, quando as moças interessavam-se pelos romances, pela moda, pelas receitas. Participou da Revolta do Vintém, das campanhas abolicionista e republicana, ajudou na fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). O nome da maestrina chegou ao fim do século 20 como pioneiro do feminismo no país e, a partir daquele século, muita coisa mudou.

A história da participação efetiva da mulher na política teve início com a conquista do voto, em 1932. No ano seguinte, a médica e pedagoga paulista Carlota Pereira Queiróz (1892-1982) era eleita a primeira deputada federal do Brasil. Carlota deixa, também, como contribuição, vários trabalhos em defesa da mulher brasileira. Como parlamentar, elaborou o primeiro projeto sobre a criação de serviços sociais no Brasil. Carlota representava, então, a colaboração imprescindível da mulher no processo de reconstitucionalização nacional. Com o horário eleitoral gratuito pela televisão, impulsionado nos anos 1980, a política aumentou sua penetração no universo feminino e, ao longo da década de 1990, várias mulheres se destacaram na esfera pública.

As desigualdades de gênero no Brasil, entretanto, são históricas e continuadas. É uma história de avanços e de retrocessos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de setembro de 2010, as mulheres brasileiras têm menores rendimentos que os homens e quase 70% das jovens de 16 a 24 anos trabalham na informalidade, mesmo com carga horária de trabalho superior e maior escolaridade que os homens. Os dados são ainda mais alarmantes, já que a análise por grandes regiões revela, por exemplo, que, na Região Sudeste, 57,2% das mulheres jovens estão inseridas em trabalhos informais.

O período eleitoral desse emblemático ano de 2010 trouxe à tona o passado de militância política da economista mineira Dilma Rousseff, do tempo em que esteve presa e que foi torturada, na década de 1970. Além disso, Dilma tem sua trajetória marcada pela participação na área de administração pública em diferentes setores governamentais, sem muita expressão política. Surge, entretanto, como opção para a continuidade do processo político do Partido dos Trabalhadores, que a colocou como foco para a sucessão do presidente Lula, num corpo e coração de mulher.

A criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, pelo governo Lula, é considerado um marco histórico na luta dos movimentos pelos direitos das mulheres. Esperamos que a primeira mulher eleita presidente do Brasil, Dilma Rousseff, honre o papel que assume na história, representando figuras femininas de alta estirpe e outras tantas anônimas que contribuíram positivamente para o avanço social e político do país.

Autor(es): Maristela Rocha e Sílvio de Almeida Magalhães

Correio Braziliense - 02/11/2010 http://www.correioweb.com.br/

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