terça-feira, 9 de novembro de 2010

Desunião mundial

EUA montam estratégia para rachar a aliança entre países emergentes e União Europeia contra o derretimento do dólar

O presidente Lula e a presidente eleita, Dilma Rousseff, vão pisar em terreno minado quando desembarcarem na Coreia do Sul para a esperada reunião do G-20, grupo que reúne as 20 nações mais ricas do mundo. Os Estados Unidos deram início a um claro movimento na tentativa de rachar a aliança estratégia entre os países emergentes, especialmente Brasil, Rússia, Índia e China — que formam o Bric — e a União Europeia contra a decisão do Banco Central norte-americano, o Federal Reserve (Fed), de inundar a economia local com mais US$ 600 bilhões. O receio generalizado é de que a cotação do dólar caia ainda mais, valorizando as demais moedas e prejudicando as exportações de todos, exceto dos produtos made in USA.

A ação norte-americana está sendo coordenada pessoalmente pelo presidente Barack Obama, que não só defendeu a decisão do Fed como rebateu as duras críticas recebidas, principalmente, da China, da Rússia, da Alemanha e do Brasil. De Nova Delhi, onde está em visita à Índia, Obama afirmou: “Eu digo que a ordem do Fed, que é a minha ordem, é fazer a nossa economia crescer. E isso não é bom somente para os Estados Unidos, é bom para o mundo como um todo. A pior coisa que poderia acontecer à economia mundial, não apenas à nossa, é ficarmos travados sem crescimento ou com crescimento limitado”.

Na estratégia de dividir os emergentes, Obama anunciou apoio à pretensão da Índia de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, posição que também é cobiçada pelo Brasil. O anúncio provocou a ira em Brasília. Mas, para não demonstrar a irritação do governo Lula, a diplomacia brasileira disseminou a visão de que o apoio dos EUA à Índia não é contrário à aspiração do país, que não disputaria um lugar com o parceiro de Bric por estarem em regiões diferentes.

O fato, porém, é que o Brasil está em uma posição contrária à dos EUA e não se furtará de fazer críticas à constante e intensa desvalorização do dólar. Para o governo Lula, os EUA e a China — que mantém a sua moeda, o iuan, artificialmente desvalorizada para garantir as suas exportações — estão provocando uma guerra cambial que deixará mortos e feridos mundo afora. Essa posição foi endossada ontem pelo representante dos ministros das Finanças da Zona do Euro, Jean-Claude Juncker, classificando as recentes medidas de estímulo dadas pelo Fed como um “risco”.

“O dólar, em relação ao euro, não está no nível em que deveria estar”, afirmou Juncker, em Bruxelas. Segundo ele, as taxas de câmbio “devem, primeiro, refletir os fundamentos econômicos, não dando lugar a comportamentos nacionais que se inspiram mais em reflexos egoístas do que no sentimento de que a comunidade internacional deve se ocupar das preocupações globais”. E acrescentou: “Vejo mais riscos e mais possibilidades de deslizes globais nas decisões tomadas pelo Fed do que benefícios”.

Panos quentes

Na tentativa de acalmar os ânimos, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, tentou explicar a decisão do Fed, dizendo que ela reagia a expectativas de inflação futura e não era um mecanismo para enfraquecer o dólar. Da Basileia, na Suíça, Trichet, que se reuniu com outros representantes de bancos centrais, assegurou que todos os participantes negaram “estar buscando políticas para enfraquecer suas moedas”.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, afirmou esperar um amplo consenso na cúpula dos líderes do G-20 e assegurou que a China estaria apoiando um rebalanceamento da economia global. “O que nós propusemos é uma estrutura que incorpora indicadores de alerta inicial para grandes superavits ou de deficits comerciais, que podem ser monitorados”, disse. Segundo ele, já existe “um bom consenso” sobre a estrutura para verificar o excesso de volatilidade e de protecionismo nos mercados internacionais.

PARA SABER MAIS

O que é o G-20?

Um grupo constituído pelas 19 maiores economias do mundo — países desenvolvidos e emergentes — mais a União Europeia.

Quando será o encontro do G-20?

Será nos dias 11 e 12, em Seul, na Coreia do Sul.

Que temas serão tratados na reunião?

Os líderes dos países se reúnem para avaliar a situação da economia mundial depois da crise. Mas o assunto que deve dominar os debates é a intensa desvalorização do dólar. Também devem ser discutidas normas mais rígidas para o sistema financeiro mundial.

Como o G-20 foi criado?

O grupo surgiu logo depois da crise asiática, em 1999. As reuniões anuais são oportunidades para discutir sobre cooperação internacional entre ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais.

Quais países compõem o grupo?

Participam do G-20 os oito países do G-8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Japão e Rússia), além de África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, México e Turquia. A União Europeia também integra o grupo.

Qual é o peso do grupo?

Juntos, os países membros representam cerca de 90% do Produto Nacional Bruto mundial, 80% do comércio internacional e cerca de dois terços da população do planeta.

Barreiras comerciais assustam

A maior preocupação do governo brasileiro com a guerra cambial é que o país volte a registrar deficit na balança comercial no ano que vem, devido à enxurrada de importações, favorecidas pelo dólar barato, e ao recuo das exportações, fruto de barreiras protecionistas. Para o presidente Lula, que participará da reunião de cúpula do G-20, é hora de os líderes globais se unirem e encontrarem uma solução definitiva para a crise financeira de 2008, que continua provocando desequilíbrios no planeta.

No entender de Lula, é mais do que necessário retomar o crescimento econômico, especialmente dos países mais ricos (Estados Unidos e Europa), que permanecem mergulhados na estagnação. “É preciso dinamizar a economia. E dinamizar a economia significa aquecer o comércio. Aquecer o comércio significa a gente não impor barreiras para o livre comércio”, afirmou.

Durante o programa de rádio Café com o Presidente, suspenso devido ao período eleitoral, Lula disse que a desvalorização das moedas chinesa (iuan) e norte-americana está causando um desequilíbrio no comércio mundial. “Nós precisamos voltar a ter equilíbrio. Portanto, nós queremos discutir o compromisso de todos os países com a política cambial, que deixe o mundo confortável e todo mundo em igualdade de condições na disputa comercial”, frisou. Segundo técnicos do Ministério da Fazenda, ao citar a China e os EUA como os principais atores na questão do câmbio, o presidente foi no ponto em que alguns especialistas vem batendo.

Para analistas e técnicos da Fazenda, as duas maiores potências mundiais vêm fingindo uma guerra cambial. A China financia os Estados Unidos em troca de exportar seus produtos para os norte-americanos. Com os dólares que recebe dos EUA, os chineses compram ativos reais em todo o mundo, inundando, principalmente os países emergentes, entre eles o Brasil, da moeda norte-americana.

Lula também defendeu a criação de um instrumento de controle do sistema financeiro, para evitar a especulação, que levou à crise. “O sistema financeiro, depois da irresponsabilidade de 2008, não pode continuar sem controle”, frisou. Para ela, “é preciso, no mínimo, que haja um instrumento multilateral que possa fiscalizar a alavancagem do sistema financeiro, para evitar a especulação, sobretudo como aconteceu no mercado imobiliário norte-americano, ou no mercado futuro, sobretudo de commodities”.

Autor(es): Liana Verdini
Correio Braziliense - 09/11/2010 http://www.correioweb.com.br/

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