quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O sono leve da inflação

A crise financeira teve esta feliz consequência: o flagelo da inflação tinha desaparecido. Mas a inflação tem sono leve. Basta um mínimo ruído para despertá-la e aí está ela, em plena forma. Na zona do euro, pelo segundo mês consecutivo, ultrapassou o limiar de 2% fixado pelo Banco Central Europeu (BCE). Em janeiro de 2011, os preços aumentaram 2,4%.

Esse movimento inquietante não é exclusivo da zona do euro. A Grã-Bretanha, que faz parte da União Europeia, mas não adotou o euro, também passa por dificuldades. Pressionado pela política de rigor de David Cameron, o crescimento econômico ficou negativo no quarto trimestre de 2010 (menos 0,5%). E a Inglaterra ainda teve a infelicidade de contabilizar inflação de 3,7% em dezembro de 2010. Índia, Brasil, China, África do Norte e os países asiáticos estão com a mesma dificuldade. No momento, os Estados Unidos estão conseguindo escapar da pressão dos preços. Não perdem por esperar: o movimento deverá atingi-los rapidamente.

Conhecemos a mecânica dessas altas de preços. Elas têm por origem a súbita elevação do preço das matérias-primas. O petróleo já começou sua escalada há três meses, mas os sobressaltos no Egito, a ameaça que pesa sobre o Canal de Suez, grande artéria dos hidrocarbonetos, acelerou o aumento do bruto. Na segunda-feira, o barril de petróleo já superava os US$ 100, o que não se via há mais de dois anos.

Os tumultos no Cairo são um fenômeno inesperado e, esperemos, momentâneo. Se a calma retornar ao país, as pressões sobre o petróleo vão amainar. Mas continuará uma evolução perigosa a longo prazo, se assim podemos dizer: a demanda mundial voltou a subir novamente, tendo crescido 3% no último ano. Vale observar que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), não faz nada para pacificar o mercado.

Como se recusa a aumentar suas quotas, o resultado é a escassez. Daí a elevação dos preços.

O mercado de produtos alimentares também atravessou um ano difícil. A colheita de cereais, principalmente de trigo, foi deficitária, às vezes por causa da canícula, como na Rússia, ou outras desordens climáticas.

Os preços de alimentos básicos, por exemplo o pão, subiram vertiginosamente. A situação é crítica. Lembra 2008, ano em que muitos países, da Índia ao Egito, foram assolados por "rebeliões da fome".

Essa inflação tem um caráter singular. Não se trata de um superaquecimento da economia. Mas de uma inflação "importada", cujo quadro clínico é este: um avanço dos preços que não repercute na renda das pessoas. Para os especialistas é "a pior das inflações". E, de fato, ela provoca diminuição no poder de compra das famílias e desaceleração do crescimento, sem contribuir para uma redução da dívida. Essa inflação agrava os efeitos dos planos de austeridade que a maioria dos países europeus (Grécia, Espanha, e mesmo a Grã-Bretanha ou França) adotou. Assim, é de se prever que o crescimento da zona do euro continuará débil.

Diante dessa situação alarmante, o que fará o BCE? Seu patrão, Jean-Claude Trichet, vai decidir um aumento de juros, com o risco de uma estagnação da economia e até de uma estagflação, que já podemos prever? Ele não parece ter mudado de religião. Muitos aguardam um aperto monetário a partir de agora até o fim de 2011. A retomada do crescimento mundial deverá se ressentir disso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Autor(es): Gilles Lapouge

O Estado de S. Paulo - 02/02/2011 http://www.estadao.com.br/

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