quinta-feira, 17 de março de 2011

Crise japonesa pode afetar panorama de inflação no Brasil

O tsunami que atingiu o Japão pode afetar a atividade econômica global por diversos canais que, juntos, devem elevar a incerteza sobre a expansão da atividade global este ano.

De acordo com a equipe de macroeconomia do Itaú, comandada pelo economista-chefe Ilan Goldfajn, um dos efeitos diretos é o menor crescimento da economia japonesa, que hoje responde por 6% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

"No curto prazo, a destruição de capital físico na região atingida e a interrupção da produção de energia nuclear devem reduzir o PIB do Japão, com impacto mais intenso entre o primeiro e o segundo trimestres de 2011", afirma a equipe em relatório.

Esse impacto inicial pode ser intensificado pela dimensão do acidente nuclear, que pode levar ao isolamento de grandes áreas e causar a redução mais duradoura da atividade produtiva.

Por aqui, a crise japonesa pode afetar a perspectiva de inflação e, consequentemente, as decisões de política monetária por dois canais principais: impactos na atividade econômica e movimentos dos preços das commodities.

O impacto sobre a atividade econômica pode acontecer via comércio exterior ou expectativas (fluxos financeiros, aversão ao risco).

"O primeiro parece limitado, desde que não haja uma contaminação da atividade real em outras economias asiáticas, em especial a China, ou uma deterioração das condições econômicas globais. O segundo pode ser maior, como no caso Lehman Brothers", explicam os economistas.

No entanto, há algumas diferenças desta vez. Não há (ou parece haver), por exemplo, risco financeiro sistêmico. O epicentro da crise é menos relevante ao Brasil e a economia brasileira está menos exposta à alavancagem financeira.

Desta forma, ainda que o maremoto gere certo viés negativo também para as projeções de atividade, ele não parece ser, até agora, relevante, segundo os economistas. "A importância relativa do Japão como parceiro comercial brasileiro tem decaído consistentemente nos últimos anos", dizem.

O Japão já chegou a consumir mais de 8% das nossas exportações no início dos anos 90. Atualmente, essa proporção é de apenas 3,6%.

A composição setorial das exportações brasileiras para o Japão está fortemente concentrada no setor de mineração, responsável por 46,4% do total, por conta das exportações de minério de ferro.

"Isoladamente, o Japão está longe de produzir algum estrago relevante sobre o nosso comércio exterior", garantem.

Já o efeito dominó sobre as economias asiáticas pode ser mais danoso, mas os analistas estão confiantes. "Excluindo a China, as demais economias asiáticas consomem apenas 3,6% das nossas exportações — é basicamente um outro Japão. E a capacidade do Japão impactar a economia chinesa nos parece consideravelmente menor do que as demais economias da região".

Para os especialistas, os efeitos adversos que a crise japonesa pode ter sobre as nossas contas externas estão nos impactos indiretos: preço de commodities, aversão à risco global e repatriação de capital japonês.

"Não há dúvidas quanto ao impacto inicial do terremoto japonês sobre preços de commodities: queda generalizada".

Entretanto, o risco de curto prazo para o Brasil é para baixo, por queda de demanda no Japão e por desmonte das posições especulativas. Por outro lado, dependendo da duração da crise e do tempo de reconstrução, poderá haver um movimento mais forte de demanda na direção contrária, voltando a impulsionar os preços.

Neste ponto, os economistas afirmam que é preciso considerar também os efeitos que o tremor terá sobre a oferta de bens industrializados produzidos pelo Japão, que possui relevante mercado internacional em produtos de alta tecnologia.

Quanto ao segundo fator — a aversão a risco global — este deve elevar o custo das captações externas. "A rolagem da dívida externa estava se tornando cada vez mais relevante na liquidez do nosso balanço de pagamentos e este processo pode perder fôlego", afirmam os economistas.

Por fim, a terceira fonte de impacto sobre as contas externas seria a repatriação de capital japonês, através de investimento em carteira, remessas de lucros e dividendos e investimento direto estrangeiro — especificamente pela conta de "empréstimos intercompanhias".

No entanto, os economistas afirmam que essa hipótese de repatriação tem que considerar que a exposição em títulos do governo americano e em dívidas dos tesouros europeus seria, provavelmente, a fonte relevante em um processo desta natureza.

Brasil Econômico (redacao@brasileconomico.com.br)

Um comentário:

  1. Nas rádios saiu a informação que a moeda do Japão subiu depois de uma leve queda, já anunciada no primeiro momento, no entanto repentinamente voltou a subiu, o que não era esperado por conta dos acontecimentos no país.

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