quinta-feira, 14 de abril de 2011

Inflação assusta e BC abre diálogo com Ministérios

Inflação dos alimentos coloca BC em estado de alerta

 A persistência da inflação dos alimentos colocou o Banco Central em alerta e o levou a criar um grupo especial para monitorar de perto a variação dos preços das commodities e dos alimentos básicos. O Valor apurou que o presidente do BC, Alexandre Tombini, mobilizou, na quinta-feira passada, um grupo de especialistas do governo para aprofundar o debate e avaliar as tendências da inflação dos alimentos. Ele já recebeu no BC o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, e sua equipe para discutir o tema. E mantém conversas com técnicos da Fazenda e do Desenvolvimento Agrário.

Na reunião no BC, a primeira de uma série programada, a avaliação geral indicou uma "forte pressão de demanda" sem a devida resposta na elevação da oferta de alimentos. Houve consenso de que os preços devem ceder em maio, mas tendem a voltar a subir bastante no segundo semestre. O que mais assustou o BC foi a constatação de que há uma alta disseminada nos alimentos, com vários produtos subindo ao mesmo tempo. Estão no radar do BC o monitoramento de commodities como soja, milho, café e algodão, além de produtos básicos como arroz, feijão e hortigranjeiros. O "sinal vermelho" acendeu, segundo as avaliações, porque os preços já estão em alta desde 2010 e a expectativa de que recuariam em fevereiro não se confirmou.

O mundo está consumindo cada vez mais alimentos e, por isso, os preços das commodities mudaram de padrão e não devem mais voltar aos níveis anteriores, concluiu-se na reunião.

A piora das expectativas de inflação leva o mercado a prever que o Banco Central fará novo aumento da taxa básica de juros na próxima semana. De 31 instituições consultadas pelo Valor, oito acreditam que o Comitê de Política Monetária (Copom) elevará a Selic em apenas 0,25 ponto percentual - estão nesse grupo as maiores instituições financeiras do país. Outras 23 acreditam que haverá uma repetição da dose mais forte de março, com aumento de 0,50 ponto na taxa.

Essa divisão de opiniões, que reflete a dúvida sobre a atual política monetária do BC, está estampada também na curva de juros futuros. No fechamento do pregão de ontem da BM&F, os contratos mostravam 30% de probabilidade de alta da Selic em 0,25 ponto e 70% de 0,50 ponto.

A persistência da inflação dos alimentos colocou o Banco Central em alerta. O cenário de pressão de demanda, estoques mundiais reduzidos e incertezas no mercado internacional levaram a instituição a criar um grupo especial para monitorar de perto a variação dos preços das commodities e dos alimentos básicos.

O presidente do BC, Alexandre Tombini, mobilizou, na quinta-feira passada, um grupo de especialistas do governo para aprofundar o debate e avaliar as tendências da inflação dos alimentos, apurou o Valor. Na sede do BC, ele recebeu o ministro Wagner Rossi e sua equipe para discutir os fundamentos desse fenômeno. E vem mantendo conversas com técnicos dos ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento Agrário, responsável pela agricultura familiar.

Na reunião, que durou uma hora e meia, avaliou-se que há uma "forte pressão de demanda" sem a devida resposta imediata da elevação da oferta de alimentos. Os preços devem ceder em maio, segundo o consenso dos participantes do encontro no BC. Mas tendem a voltar com força no segundo semestre do ano, a partir de agosto ou setembro.

O que mais assustou o BC - responsável pelo cumprimento da meta de inflação - foi a constatação de que há alta disseminada dos preços dos alimentos. Vários produtos agropecuários subiram ao mesmo tempo, com impacto substancial no índice de inflação, já que 22% do IPCA é composto por esse grupo. Estão no radar do BC o monitoramento de commodities, como soja, milho, café e algodão, além de produtos básicos, como arroz, feijão e hortigranjeiros.

No encontro, primeiro de uma série programada, o grupo avaliou que a demanda segue em alta, a oferta bateu no "teto" e um equilíbrio entre ambos deve demorar. Além disso, os estoques são reduzidos em todo o mundo. Por isso, o recuo dos preços no médio prazo não será substancial. As cotações devem ceder, mas voltarão a subir em seguida. O "sinal vermelho" acendeu, segundo as avaliações, porque os preços estão em alta desde 2010 e a esperança de que recuariam em fevereiro não se materializou.

Produtos como milho, café, soja e algodão estão com preços acima da média histórica. O trigo subiu menos, mas ainda assim encareceu bastante, e a produção interna será insuficiente neste inverno. No caso do arroz, mesmo com as cotações em baixa, há tendência de carestia no segundo semestre. O feijão continua muito instável, volátil, dependendo do impacto das chuvas nas lavouras. Em 2010, ficou caro, porque as chuvas atrapalharam o fluxo das três safras.

Os hortigranjeiros também sofreram com as chuvas. As principais regiões produtoras tiveram perdas sensíveis. Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, região serrana do Rio e Santa Catarina tiveram precipitações bem acima da média, o que reduziu a oferta e encareceu a produção.
No etanol, cuja cotação disparou nas usinas e ao consumidor, há uma tendência de recuo imediato. Mas o problema voltará a aparecer quando vier a entressafra, em novembro ou dezembro.

Os preços internacionais estão em picos históricos, embalados pela demanda, enquanto a oferta não acompanhou. A situação é considerada delicada em razão de várias incertezas no mercado externo, como, por exemplo, o tamanho e a destinação da safra de milho nos EUA. Os americanos devem despejar a safra na produção de etanol. Além disso, a China passou a ser grande importador de milho e o Brasil é dos poucos que podem atender à demanda. A pressão sobre as cotações do grão impacta os preços das carnes, sobretudo de frango e suínos, alimentados com a ração de milho.

Outra incerteza é a alteração no fluxo de investimentos dos "hedge funds", que têm aumentado as aplicações em commodities. Há uma "irrigação especulativa" que aumenta preços. A guerra na Líbia pressiona as cotações do petróleo. Não menos importante é o desastre nuclear no Japão, que contaminou águas e lavouras. Isso pode elevar a demanda externa por arroz, ameaçando a importação da Argentino ou do Uruguai a preços baixos.

O mundo está consumindo cada vez mais alimentos e, por isso, os preços das commodities mudaram de padrão, concluiu-se na reunião do BC, e não devem mais voltar aos níveis anteriores. Assim como a produção brasileira de grãos, fibras e cereais deve permanecer acima das 150 milhões de toneladas. Uma solução seria um "choque de crédito" para incentivar mais a produção interna.

A venda dos estoques públicos e desonerações da importação de milho e trigo também seriam alternativas. Além disso, pode-se formar estoques públicos em regiões mais consumidoras, como o Nordeste, e baratear capital de giro para estocagem privada e industrialização da produção via cooperativas da agricultura familiar.

Autor(es): Mauro Zanatta

De Brasília
Valor Econômico - 14/04/2011 http://www.valoronline.com.br/

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