sexta-feira, 29 de julho de 2011

BC interrompe alta dos Juros. Dólar sobe de novo

Inflação na meta só em 2013

CONJUNTURA

Ata do Copom leva analistas a preverem que o BC interrompeu a alta dos juros e abriu mão de pôr o IPCA próximo de 4,5% no ano que vem. Governo contesta o mercado

Apesar dos compromissos públicos assumidos pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de levar a inflação para o centro da meta (4,5%) até o fim de 2012, boa parte do mercado financeiro está convencida de que a autoridade monetária abriu mão desse objetivo. Essa visão se consolidou depois da divulgação da ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada, na qual a taxa básica de juros (Selic) saltou de 12,25% para 12,50% ao ano. No documento, o BC retirou o trecho no qual reforçava a sua determinação em pôr a inflação na meta no ano que vem e indicou que o processo de aumento da Selic — foram cinco aumentos seguidos neste ano — chegou ao fim.

A interpretação dos analistas provocou reações dentro do governo. Para integrantes da equipe econômica, o mercado está cometendo um equívoco ao descartar os compromissos do BC. "Nada mudou. A determinação continua sendo a de levar a inflação para o centro da meta em 2012", disse um dos auxiliares mais próximos da presidente Dilma Rousseff. Segundo ele, o aperto monetário promovido até agora, somado às medidas para a contenção do crédito, levará a atividade a crescer a um ritmo de 4% no segundo semestre, o que empurrará a inflação para o centro da meta nos próximos meses.

Dentro do governo, há indicadores mostrando que, de outubro a abril do próximo ano, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses cairá sistematicamente, encostando nos 4,5% e subindo até os 4,8% no fim de 2012, portanto, muito próximo do objetivo definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A equipe econômica prevê ainda que os preços das commodities (produtos básicos com cotação internacional) se manterão comportados, pois a economia global, que enfrenta incertezas crescentes, terá expansão menor. "Mesmo com a grande sobra de recursos no mundo, não há sinais de altas fortes nem de quedas expressivas nas cotações das commodities", disse um técnico.

Os assessores de Dilma lembraram que, até a próxima reunião do Copom, em 30 e 31 de agosto, nenhum indicador econômico relevante será divulgado. Assim, nada impede que o BC mantenha os juros inalterados e avalie o horizonte para se certificar de que tudo está sob controle. Paradas técnicas são comuns entre Bancos Centrais de todo o mundo. Valem tanto para retomar o processo de alta dos juros quanto para iniciar um processo de baixa. "Não temos dúvida: a inflação convergirá para as metas antes do previsto pelo mercado, sem que seja necessário empurrar o país para uma recessão, mesmo que breve", ressaltou um dos assessores.

Perda de fôlego

Diante do que leu na ata, o economista-chefe do Banco BES Investimento, Jankiel Santos, foi enfático: "O Banco Central só elevará os juros se for forçado". Na sua avaliação o Copom vai pagar para ver, ou seja, interromperá as cinco altas consecutivas dadas até então para observar melhor o resultado das políticas já adotadas e também do impacto do deteriorado cenário internacional na inflação interna. Mas, para o economista, o atual patamar da taxa Selic não é suficiente para fazer a inflação convergir para a meta em 2012.

Também o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC),Carlos Thadeu de Freitas Gomes, aposta no fim do aperto monetário. Para ele, que já foi diretor do BC, a ata foi neutra. No documento o Copom considerou favoráveis as perspectivas para a inflação, classificou o cenário externo como incerto, deixando a dúvida para o cenário interno, onde a economia ainda está aquecida. "Na dúvida, é bom parar e observar. Na atual circunstância, considero correta a condução da política monetária, " disse.

Na avaliação do economista da CNC, se o Banco Central puxar muito a taxa de juros agora, a valorização do real será ainda maior, com muito mais atratividade para o capital externo. "A economia está perdendo o fôlego. O mercado de trabalho tende a se enfraquecer", observou. Freitas não vê, na atual circunstância, grande problema se o BC estiver mesmo mirando o centro da meta de 4,5% para a inflação apenas em 2013.

Para a consultoria Tendências, um aumento ou não na taxa Selic na próxima reunião não está fechado. "A ata do Copom não trouxe sinalizações sobre o que deve ser a política monetária nos próximos meses", disse a economista Alessandra Ribeiro. Ela ressaltou que, do jeito que o documento foi escrito, deixou espaço para múltiplas interpretações. "A elevação para 12,50% já pode ter sido a última, como também podemos ter mais uma alta para 12,75%, encerrando o ciclo." A expectativa da Tendências é de mais uma alta em agosto. "Avaliamos que os riscos, principalmente advindos do cenário doméstico, são muito mais relevantes do que os vistos pelo BC. Daí o nosso viés de alta para a inflação de 2012, que se encontra em 5,2%", disse a economista.

Riscos domésticos

Na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central continuou avaliando que o cenário prospectivo para a inflação segue mais favorável. Embora aponte que as projeções de inflação pioraram tanto no cenário de referência (da instituição) quanto no de mercado, o BC vê uma trajetória mais favorável para os preços das commodities. Para a autoridade monetária, os riscos do mercado doméstico estão marcadamente menores.

Autor(es): Vânia Cristino e Vicente Nunes

Correio Braziliense - 29/07/2011 http://www.correioweb.com.br/

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