terça-feira, 19 de julho de 2011

Jovem gasta quase toda a renda com dívida de financiamento de carro

Valor da dívida é maior que o do automóvel, e ela também deve no cartão.


O pagamento das prestações de um Voyage zero quilômetro comprado em outubro de 2009 compromete quase todo o salário da analista de crédito Kelly Costa, que mora em Santa Maria, cidade a 26 quilômetros de Brasília. Kelly, de 25 anos, recebe R$ 900 líquidos por mês, e a parcela mensal do veículo é de R$ 879,96, ou seja, 97% de sua renda. “Trabalho só para pagar o carro”, reconhece.

Além do salário, Kelly recebe R$ 286 de vale alimentação e outros R$ 126 de vale transporte. As despesas da casa e com roupas são custeadas pelo namorado, com quem já mora. O casal está comprando uma casa financiada em Valparaíso, cidade goiana no entorno de Brasília. Kelly conta que as 300 parcelas de R$ 423 do imóvel serão pagas integralmente pelo namorado.

“Ele é coordenador de uma equipe de segurança e ganha cerca de R$ 2 mil. Não quero vender [o carro] porque ele vai me ajudar a pagar agora”, diz. De acordo com Kelly, o namorado é quem mais usa o veículo. “Com o aperto, eu disse ‘vai ter que ajudar a pagar’”, relata.

A analista diz que está estudando a possibilidade de pedir redução do valor das prestações junto à financeira. “Nunca imaginei que um dia estaria nessa situação. É bem ruim o pessoal te ligar e cobrar.”Kelly ainda tem uma dívida de cerca de R$ 4 mil em dois cartões de crédito. Ela afirma que tem uma indenização trabalhista de R$ 9,4 mil a receber – dinheiro que usaria para quitar o carro e os cartões, mas não tem previsão de quando vai receber a quantia. “A gente tem muita esperança de que esse dinheiro saia logo para que possa resolver isso.”

Mudança de emprego afetou orçamento

As parcelas do carro passaram a não caber no orçamento de Kelly após uma separação e uma mudança de emprego. A analista diz que tinha um salário maior antes e que o ex-marido a ajudava a pagar o veículo. Antes de começar a trabalhar como analista de crédito, ficou seis meses desempregada. “Foi aí que a situação apertou mesmo. Usei um dinheiro que tinha no banco e a ajuda que ele [ex-marido] mandava.”

Segundo Kelly, o valor de venda do veículo era de R$ 32.900, e 15 das 60 prestações foram pagas. “Mas ultimamente eu só pago em atraso. Tem quatro ou cinco prestações mesmo que estão atrasadas.” Com o parcelamento, o valor do veículo subiu para R$ 52.797,60. “São quase dois carros”, diz.

Erros

A regra mais importante – e que não foi seguida por Kelly – , na avaliação do professor Alcides Leite, da Trevisan Escola de Negócios, é evitar o endividamento excessivo sempre. “Não dá para prever situações como divórcio, desemprego. Mas o mais importante é não ter dívidas, porque daí o resto fica mais fácil de resolver”, afirma.

Além disso, ao submeter o contrato de financiamento do carro a uma análise na Associação das Vítimas de Juros Abusivos do DF, Kelly disse ter descoberto irregularidades no contrato. “O vendedor falou que tinha conseguido uma redução de R$ 5 mil, mas no final estou pagando por ela. Além disso, outros encargos, como taxa de assinatura do contrato e comissão, também foram cobrados sem eu saber”, afirmou.

“Ninguém recebe cópia do contrato que assina. O vendedor pega os dados e diz que vai enviar para a financeira”, adverte a presidente da instituição, Eliana Chaves.

E agora?

Segundo o professor Alcides Leite, o caminho para que Kelly recupere a saúde financeira é tentar vender o carro e usar o dinheiro para quitar a dívida de R$ 4 mil dos dois cartões de crédito – modalidade que é ‘vilã’ dos juros altos e transforma pequenos débitos em uma “bola de neve” em pouco tempo. “Ela tem que sair logo da dívida do cartão, que é a mais cara”, recomenda o professor.

De acordo com Leite, a saída é tentar vender o veículo para um interessado na compra de um usado, e calcular o valor para a venda com base no preço dos usados no mercado. “Ela calcula o quanto custaria o carro do modelo e ano do dela financiado pelo período que ainda falta para ela pagar. Daí quem quer comprar um usado pode comprar dela e ela repassa o financiamento”, diz.

O especialista orienta que a analista continue pagando as parcelas do financiamento da casa e tente renegociar em caso de dificuldades no pagamento. “É melhor ficar com a casa do que com o carro, que só dá despesa. Pelo menos ela está colocando dinheiro em uma coisa útil, que vai livrá-la do aluguel”, diz. “Ela deve procurar a construtora para renegociar, pedir alguma carência para pagar as parcelas”.

Depois de controlado o “pico” da crise financeira na vida da analista, Leite recomenda mudanças drásticas. O primeiro passo, ensina, é procurar o banco em que é correntista, cancelar o cheque especial e devolver os dois cartões de crédito. “O cartão é muito perigoso para quem tem dificuldades de se planejar, porque você gasta mais do que pode, entra no financiamento e aquilo vira uma bola de neve”, diz o economista, que acredita que a atitude ajudará Kelly a aprender a depender apenas da renda mensal para pagar as contas. “Por um tempo é bom ter um choque total: não ter cheque especial, cartão nem carro”, diz.

Outra dica do professor é a de que Kelly busque organizar o orçamento em casa, com o namorado. “Tem que conversar com ele e os dos colocarem no papel toda a receita e todas as despesas, e juntos estudarem como eles vão fazer para tocar a vida daqui para frente”. Anotar todas as despesas e montar uma planilha pode fazer muita diferença no fim do mês, diz Leite.

http://g1.globo.com/ em 19/07/2011

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