segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Juros derretem. Mas e o lado real da economia?

Há um mês, um operador baseado em Nova York fez o seguinte comentário reproduzido neste mesmo espaço: o mercado local de juros se mostra muito à parte dos acontecimentos externos. Atribuir probabilidade zero a um calote na zona do euro, ou outro evento do gênero, é sinal claro desse "isolamento" dos operadores brasileiros. Por isso, caso a crise na Europa se agrave, não seria estranho ver uma correção de 50 pontos-base na curva de futuros de juros.

Na época, veja só, o assunto em voga era a crise do endividamento na Europa, com foco em Itália e Irlanda, que acabara de ser rebaixada, o euro valia menos de US$ 1,40, e as bolsas caíam.

Ainda assim, nossa curva de juros futuros continuava mostrando duas elevações na Selic, que valia 12,25%. Uma dessas altas se confirmou dia 20 de julho, com a taxa básica indo a 12,50%. A segunda ficou em aberto e cabe lembrar que chegou a se discutir a necessidade de até mais elevações.

No entanto, os acontecimentos externos e o pânico se impuseram e até esse operador deve ter se surpreendido com a reação do mercado de juros futuros. Tomando como base o vencimento janeiro de 2013, que projetava 12,70% no começo de agosto, a queda acumulada em duas semanas ultrapassou 0,80 ponto percentual, com o vértice encerrando a sexta-feira em 11,86%. O mesmo desenho vale para outros pontos da curva como janeiro 2015, 2016 e 2017.

"Pensando bem, somos o mercado onde a ideia de economia forte e inflação bombando mais rápido se desfez no mundo", disse um gerente de operações.

Na primeira semana de agosto, a curva já tinha passado por inversão, ou seja, passou a projetar corte da Selic em 2012. Depois disso, o movimento só tomou corpo, e a probabilidade de corte já no encontro de 31 de agosto do Copom chegou a passar de 50%.

Como nas bolsas ou mesmo no câmbio e outros ativos, a racionalidade ainda não deu as caras no mercado de juros futuros.

Claro que conforme se fala em recessão nos EUA, default e risco sistêmico na Europa é natural que se projetem juros menores adiante. No entanto, a intensidade das quedas e também dos breves repiques de alta observados no intervalo é que causam perplexidade.

Ainda assim, mesmo com toda essa piora de ambiente e destruição de valor nos mercados, não dá para falar que o lado real da economia brasileira foi comprometido a ponto de levar o Banco Central (BC) a começar a reverter um ciclo de alta de juros cujos efeitos nem se manifestaram por completo.

Conforme notou o economista-sênior do Espirito Santo Investment Bank, Flávio Serrano, a parada no ciclo de alta é certa, mas apostar em queda seria um tanto precipitado. "Não vejo o Banco Central obrigado a cortar juros. A dinâmica doméstica é muito robusta", pondera.

Na avaliação de Serrano, essa forte deterioração de perspectivas externas terá desdobramentos locais, mas eles não são imediatos. O quadro aqui seria de desaceleração na margem, não de uma parada brusca como observado em 2008.

Segundo o especialista, a economia deve perder dinamismo, mas, seguimos com descompasso entre oferta e demanda.

Ainda nos juros, o mesmo gerente de operações chama atenção para o noticiário político.

São inúmeras as notícias de que o governo não vai deixar a economia parar. Fora as indicações de "esse é o momento" para cortar a taxa de juros.

As discussões técnicas e políticas sobre o espaço ou não para corte de juros seguem até 31 de agosto, dada da próxima reunião do Copom.

E nesse ínterim, tudo pode acontecer. A semana terminou com a sensação de que o pior passou, mas os riscos na zona do euro são os mesmos, bem como as mazelas econômicas e políticas nos EUA.

Autor(es): Eduardo Campos

Valor Econômico - 15/08/2011  http://www.valoronline.com.br/

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