quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ALTA DO DÓLAR JÁ COMPENSA A QUEDA DAS COMMODITIES

A escalada do dólar em setembro, que chegou a 17,07%, já está trazendo mais dinheiro para o bolso dos agricultores que exportam, mesmo com a queda dos preços das commodities no mês. Ontem, a moeda americana teve a maior alta desde 22 de outubro de 2008, em plena crise financeira - subiu 4,25% e fechou a R$ 1,865. A desvalorização diária, consecutiva e rápida do real forçou as empresas com dívidas no exterior a procurar hedge para seus compromissos em condições menos favoráveis. Ele está mais caro e as incertezas sobre as cotações tendem a encarecê-lo ainda mais. Para o Banco Central, a corrida do dólar é apenas um fenômeno transitório.


A valorização do dólar em relação ao real, que ganhou força em setembro, até agora impediu a queda dos preços domésticos das principais commodities agrícolas exportadas pelo Brasil, que perderam sustentação nas bolsas internacionais nas últimas semanas em decorrência das turbulências financeiras em países desenvolvidos.

Mais do que isso: os preços de exportação de produtos como soja, milho, café e açúcar estão até mais elevados do que no fim de agosto, quando as incertezas em relação à economia global tornaram-se ainda maiores, amplificaram as dúvidas sobre o futuro da demanda e abriram espaço para o fortalecimento da moeda americana no mercado externo.

Para os produtores brasileiros que exportam e temiam que a crise no Hemisfério Norte provocasse uma baixa das cotações que reduzisse suas atuais margens de lucro elevadas, trata-se de uma boa notícia, que inclusive já acelerou as vendas antecipadas da colheita da safra que começou agora a ser plantada (2011/12). Do ponto de vista do combate à inflação, porém, ainda não há refresco à vista nesse fronte. Com a disparada de ontem, o dólar passou a acumular alta superior a 15% em relação ao real neste mês.

Produto com maior peso nas exportações agrícolas do Brasil, a soja fechou a quarta-feira em queda de 1,3% na bolsa de Chicago, cotada a US$ 13,32 por bushel (medida equivalente a 27,2 quilos). Com mais esse recuo, os futuros de segunda posição de entrega do grão (normalmente os de maior liquidez) passaram a acumular baixa de 8,6% em setembro. Apesar disso, o preço da oleaginosa convertido em reais ficou 5,2% mais alto no período. "Os preços praticados no Brasil estão acima dos picos de agosto", diz Antonio Sartori, da corretora gaúcha Brasoja.

Atraídos pelos preços favoráveis, os agricultores aceleram a comercialização da próxima safra. De acordo com Sartori, os gaúchos já comprometeram aproximadamente 20% da produção que será entregue em maio de 2012, um resultado excepcional em um Estado onde as negociações antecipadas de soja são uma prática pouco comum. "Mais da metade desse volume foi comercializado nas últimas semanas. A alta do câmbio compensou até mesmo a queda dos prêmios pagos nos portos", observa. Segundo ele, há um ano nem 10% da safra do Estado havia sido negociada.

Fenômeno semelhante é observado em Mato Grosso, onde a cultura das vendas antecipadas é arraigada. Glauber Silveira, presidente da Aprosoja, associação que representa os produtores do Estado, calcula que metade da safra 2011/12 do Estado já foi comercializada, ante pouco mais de 30% em igual período do ano passado. Mais de um terço desse volume foi negociado neste mês.

O milho é outra commodity cujos preços resistem a cair, mesmo com a colheita da safrinha no Paraná. Em setembro, os futuros do grão recuaram 8,9% em Chicago, mas acumulam alta de 4,8% no mês na conversão para a moeda brasileira. Ontem, a commodity caiu 0,56% na bolsa americana, para US$ 6,99 por bushel (27,2 quilos), menor preço de fechamento desde 10 de agosto. Em compensação, o indicador Cepea/Esalq para o milho no mercado físico está no maior nível desde fevereiro, a R$ 31,65 por saca, alta de 3,94% no mês.

Historicamente, os preços domésticos do milho são pouco influenciados pelo comportamento do câmbio e do mercado externo, já que o Brasil sempre teve uma participação tímida no mercado internacional do grão. Mas o rápido aumento dos embarques nos últimos anos fez com que o cenário interno fosse cada vez mais influenciado pelo sobe-e-desde do preço oferecido aos exportadores. Sintoma dessa mudança, as vendas antecipadas de milho no Mato Grosso, que praticamente inexistiam até o ano passado, somavam 33% até o fim de agosto. Estima-se que, três semanas depois, estejam próximas de 50%. "É muito possível que, a essa altura, tenhamos vendido mais milho do que soja em Mato Grosso", afirma um trader.

O efeito cambial também é sentido nos mercados de café e açúcar, que desde o início do mês acumulam queda de 11,5% e 10,3%, respectivamente, em Nova York. Em moeda local, o café acumula alta de 1,9% e o açúcar, 3,3%, no mesmo período. Gil Barabach, analista da consultoria Safras & Mercados, pondera que a alta do real é um dos fatores que ajudam a pressionar os preços das commodities agrícolas lá fora, devido à posição do Brasil no tabuleiro. "A alta do dólar estimula as exportações, e os preços internacionais se ajustam a esse aumento de oferta".

No entanto, o ritmo da queda nos preços internacionais é insuficiente para fazer frente à erosão do câmbio, diz Fábio Silveira, da RC Consultores. Para ele, o resultado "inevitável" dessa equação será um aumento da inflação no Brasil. "O recuo dos preços internacionais ainda é muito tímido perto desse salto do dólar."

Autor(es): Por Gerson Freitas Jr.

Valor Econômico - 22/09/2011

Um comentário:

  1. Professor o senhor viu isso:

    HÁ 16 HORAS
    0 OCDE clama pela redução dos subsídios
    Por Assis Moreira | De Genebra

    Os governos dos países desenvolvidos, fortemente endividados, estão sendo forçados a planos de austeridade. Mas algo não mudou até agora: a concessão de subsídios bilionários a seus produtores agrícolas. Mas a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) colocou ontem a pressão nessa frente, conclamando os países ricos a aproveitarem a situação atual, de orçamentos apertados e altos preços das commodities, para deflagrar reformas em suas politicas agrícolas nacionais.

    "Chegou o momento de reformar o apoio a agricultura", enfatizou a entidade. A ajuda do setor público aos agricultores nos países da OCDE caiu para 18% das receitas agrícolas totais em 2010, ante 22% em 2009. A queda aconteceu em razão dos preços elevados das commodities, que reduziram a necessidade de liberação de apoios oficiais aos produtores.

    Para a OCDE, a alta da demanda mundial de produtos agrícolas, o aumento dos preços, a volatilidade crescente dos mercados e as pressões cada vez mais fortes sobre os recursos levam ao questionamento do status quo e à revisão dos subsídios concedidos.

    O apoio aos produtores nos países ricos alcançou US$ 227 bilhões em 2010. A maior parte da ajuda falseia a produção e o comércio, e contribui muito pouco para melhorar produtividade e competitividade, assegurar a utilização sustentável dos recursos ou socorrer os agricultores que enfrentam riscos.

    Como o Valor antecipou em junho, China e Rússia já concedem subsídios que se aproximam do nível oferecido pelos países desenvolvidos, comparado ao valor da produção. O apoio dado por Pequim aumentou 40,1% em 2010 e totalizou US$ 147 bilhões. A tendência é que os chineses continuem aumentando os gastos na agricultura para ampliar sua capacidade de produção de grãos em 50 milhões de toneladas até 2020 e garantir 95% de autossuficiência no setor.

    Na União Europeia, a ajuda representou 22% do valor da produção, somando US$ 101,3 bilhões. Nos Estados Unidos, baixou para 9%, ou US$ 25,5 bilhões. O Japão é um dos campeões mundiais com 49% de um total de US$ 52 bilhões. Os subsídios batem recorde na Noruega (60% do valor total da produção agrícola) e na Suíça (56%).

    Já nos países emergentes, o volume é geralmente bem menor, mas com variações. Na Rússia, representou 22%, com US$ 15,5 bilhões, superando os países ricos. No Brasil, o volume de US$ 7,1 bilhões representou apenas 5% do valor total da produção.

    A OCDE utiliza uma metodologia própria para medir a proteção ao setor agrícola. É a Estimativa de Apoio ao Produtor (PSE, ou Producer Support Estimate), um indicador do valor monetário bruto anual transferido por consumidores e contribuintes como apoio aos agricultores.

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