segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PIB mostra vácuo entre produção e demanda interna

Dados apontam uma indústria estagnada, enquanto o consumo, que tem sustentado a economia desde 2008, continua aquecido

O forte crescimento da demanda interna, que desde a crise de 2008 vem sustentando a economia nacional, se distanciou perigosamente da produção. A taxa anualizada da chamada "absorção doméstica" (consumo das famílias + gastos do governo + investimentos e estoques) está em 5,6%, enquanto o crescimento anualizado do Produto Interno Bruto (PIB) até o segundo trimestre do ano foi de apenas 3,2%.

Traduzindo: a produção brasileira enfraqueceu e corre risco de perder competitividade; a demanda interna ganhou mais força e mantém pressionada a inflação.

Paulo Levy
"O repique do segundo trimestre pode refletir um comportamento indesejado da demanda", diz Paulo Levy, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre os dados do PIB divulgados na sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ele lembra que o efeito do câmbio sobrevalorizado está norteando o desempenho da economia, desestimulando a produção de bens comercializáveis e incentivando o setor de serviços, que cria menos valor agregado do que a indústria e a agricultura. "A demanda não é exatamente o problema, mas sim as condições para ampliação da oferta com produtividade e competitividade", diz ele.

Os dados coletados pelo IBGE mostraram que os produtos importados estão suprindo o aumento do consumo. A indústria de transformação nacional parou. E a estagnação desse segmento amplo - que transforma matéria-prima em bens, sejam eles máquinas, bens de consumo ou intermediários, como aço - foi classificado como "preocupante" pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

"Isso confirma que o principal setor da indústria brasileira (composta ainda pela extrativa, construção e distribuição de eletricidade, gás e água) está sendo fortemente afetado pelo menor ritmo da economia brasileira e pelo avanço das importações de manufaturados", diz o relatório do instituto, que prevê que esse desempenho pode afetar os demais setores da economia.

Menos otimismo. Leonardo Mello de Carvalho, também pesquisador do Ipea, lembra que o fato de o PIB a preços correntes ter mantido a mesma relação entre o primeiro e o segundo trimestres do ano mostra que os preços dos bens de capital estão caindo. A alta do preço internacional das commodities permitiu que a demanda continuasse crescendo. "Foi o choque do preço de troca", disse o economista, lembrando que há oito meses consecutivos os levantamentos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) constatam a queda de confiança do empresariado brasileiro.

O economista Regis Bonelli, da FGV, se disse bastante impressionado com alguns dados do PIB, embora o crescimento no segundo trimestre tenha alcançado exatamente o nível previsto de 0,8%.

"A economia brasileira tem mostrado sinais ambíguos e até, de certa forma, contraditórios. O emprego em alta é um deles. O consumo do governo veio muito forte e a alta do investimento, que pensávamos estagnado ou em queda, também surpreendeu", comentou.
 
Autor(es): Irany Tereza
O Estado de S. Paulo - 05/09/2011 www.estadao.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário