quarta-feira, 19 de outubro de 2011

China cresce menos e pode afetar o Brasil

Locomotiva mais lenta

Autor(es): agência o globo:Henrique Gomes Batista, Martha Beck e Roberto Maltchik
O Globo - 19/10/2011
China registra menor crescimento trimestral desde 2009. Brasil pode ser afetado
O principal motor econômico do mundo na atualidade desacelerou: a China cresceu 9,1% no terceiro trimestre do ano sobre igual período de 2010. É o terceiro trimestre seguido em que o crescimento da economia do gigante asiático desacelera, após expansão de 9,7% (primeiro trimestre) e 9,5% (no segundo trimestre). E mais: essa expansão, embora altíssima para a maior parte dos países do mundo, é a menor desde o início de 2009, quando a crise global de 2008 estava no auge.

Analistas acreditam que a freada chinesa ocorre em parte por vontade do governo - que quer conter a inflação e evitar bolhas internas em sua economia, como no mercado imobiliário - mas parte disso já é impacto da piora econômica de Europa e EUA. Já esperada, uma acomodação da atividade chinesa pode afetar o Brasil, uma vez que a China é o maior comprador de produtos nacionais e o saldo comercial com o país representa 41% do superávit total brasileiro nos nove primeiros meses do ano.

Com estes dados divulgados ontem, a economia chinesa - a segunda maior do mundo, com PIB de US$5,878 trilhões - parece abandonar o crescimento na casa dos 10% que se acostumou na última década. Mas os números chineses trazem dados domésticos saudáveis, que sugerem que há pouco espaço para relaxar a política monetária no curto prazo.

Indústria brasileira também pode sofrer

O crescimento da formação bruta de capital fixo - uma medida dos investimentos - foi de 24,9% entre janeiro e setembro, ante expectativa de 24,8%. As vendas no varejo subiram 17,7% em setembro ante igual mês de 2010, acima das previsões de 17%. A produção industrial de setembro cresceu 13,8%, superando o prognóstico do mercado de 13,3% e sugerindo que o terceiro trimestre foi encerrado em ritmo um pouco mais forte. Essa força doméstica e a inflação de mais de 6% dão espaço para o banco central manter a batalha contra os preços.

- O Brasil pode perder, além do óbvio impacto na queda dos preços e da demanda das commodities (produtos básicos, como soja, minério de ferro e petróleo), nas exportações da indústria, pois atinge outros países que estão crescendo no embalo chinês e que compram nossos produtos industrializados, como os vizinhos sul-americanos - disse Júlio Gomes de Almeida, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Almeida acredita que, com o atual cenário mundial, o crescimento sustentável da China é na casa dos 7%:

- Eles ainda dependem de exportação e União Europeia (UE), EUA e Japão, que representam 40% da economia global, estão crescendo muito pouco ou tangenciando a recessão. Mas tenho que lembrar que os economistas estão se acostumando a errar projeções sobre a China.

Marcelo Nonnenberg, economista do Ipea, acha que a situação não é tão preocupante. Para ele, grande parte do desaquecimento chinês é programado. O economista crê que o avanço chinês deve se reduzir para cerca de 8%, e um problema maior ocorreria se a queda for abrupta, para algo entre 5% e 6%:

- Se a China crescer 9% neste ano, apenas 0,5 ponto percentual será pelo saldo comercial e 8,5 ponto percentual virão dos investimentos e do consumo interno.

Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap e ex-ministro do Planejamento, lembra que a desaceleração já era prevista e que, pelo que tudo indica, ela deve ser suave - isso se a China não surpreender mais uma vez e voltar a acelerar sua economia:

- O atual plano plurianual da China já fala em desaceleração. O anterior também dizia e houve momentos que a economia cresceu mais - disse ele, alegando que um avanço do PIB um pouco menor, na casa dos 8% piora um o cenário mundial - mas não de maneira decisiva, o que só ocorreria se a queda for rápida.

A desaceleração da China ainda é moderada e não representa um risco grave para o Brasil, avalia a equipe econômica. O maior impacto que a queda do PIB chinês traz para a economia nacional é nos preços das commodities. Menos aquecida, a China reduz a demanda por produtos primários e afeta as cotações dessas mercadorias no mercado internacional.

Mesmo assim, os dados mostram que a atividade na China ainda está forte. O PIB do país continua crescendo forte. Um técnico lembrou que, para manter a economia equilibrada, a China precisa crescer perto de 7%, ou seja, a situação ainda é confortável:

- A situação não é grave.

Outro impacto da desaceleração chinesa está na taxa de câmbio. O real poderia acabar se enfraquecendo muito, com a aversão ao risco com a crise internacional, com a tributação na entrada de capitais, com possível deterioração de termos de troca com a redução nos preços das commodities, além da queda dos juros aqui. Tudo isso atrai menos dólares, forçando a cotação para cima.

Em Pretória, na África do Sul, na abertura da 5ª Cúpula do Ibas - grupo de países formado por Brasil, Índia e África do Sul - a presidente Dilma Rousseff mandou um duro recado aos países europeus para que encontrem soluções urgentes para a crise. Em coro com o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, a presidente foi enfática ao pedir que o Ibas esteja unido na próxima reunião de chefes de Estado do G-20, marcada para novembro, na França, para pressionar a Europa a impedir a estagnação mundial.

---- Na cúpula do G-20 precisamos transmitir uma forte mensagem de coesão política e de coordenação macroeconômica. Não podemos ficar reféns de visões ultrapassadas ou dos paradigmas vazios de preocupação social em relação ao emprego e em relação à riqueza dos povos. Como vivemos em um mundo globalizado e sofremos as consequências das turbulências do mundo desenvolvido, temos também o direito e o dever de participar da busca de soluções para essa situação de crise - disse Dilma.

A presidente brasileira reforçou o pleito do Ibas para oferecer novos aportes de recursos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que, em última análise, aumentariam o poder do grupo no processo decisório da entidade. Ela disse que é inadiável a regulamentação do sistema financeiro e acabar com a guerra cambial. Dilma lembrou ainda que provocar uma recessão não é saída para a crise:

- Sabemos que processos recessivos jamais conduziram país algum a sair das crises e do desemprego. Temos credenciais sólidas para exigir novos fundamentos para a arquitetura financeira mundial. Esse legado deve se refletir no processo de reforma em curso no Fundo Monetário e no Banco Mundial. As reformas acertadas em 2009 têm de ser levadas a cabo.

A presidente acrescentou que o Ibas tem condições de dobrar o comércio trilateral nos próximos quatro anos. Em 2010, o comércio entre Brasil, Índia e África do Sul foi de US$16 bilhões.

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