quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A dança das moedas


Os fundos multimercados com aplicações em ativos no exterior têm aproveitado a volatilidade no mercado de moedas para obter retornos diferenciados. Diante do aumento das incertezas em relação à crise da dívida soberana na Europa e o receio de um eventual calote do governo da Grécia, muitos gestores passaram a apostar, por exemplo, na queda do euro. E como o dólar também subiu bastante, alguns passaram a acreditar na alta de moedas de emergentes.
Na Grau Gestão de Ativos, cerca de um terço da rentabilidade de 1,50% do fundo África - um multimercado que pode aplicar até 20% lá fora - em setembro veio de posições que apostavam na queda do euro em relação ao dólar, conta o gestor Jorge Dib. Em setembro, a queda da moeda europeia foi de quase 7% ante a divisa americana. "Como o mercado está muito difícil, temos mantido posições de curto prazo, embora ainda acredite numa queda do euro ante todas as moedas", afirma Dib. Ele vê também vê oportunidades de ganho com o dólar canadense. "A desaceleração da China, assim como da economia mundial, traz um ambiente ruim para as commodities", explica.

Desde setembro, o Dollar Index - que mede o desempenho da moeda americana ante uma cesta de divisas - apresenta valorização de 6,51%. O aumento da aversão a risco, aliado a uma perspectiva de crescimento menor da economia mundial, mudou o cenário no mercado de moedas em setembro, com os investidores diminuindo as posições nas divisas de países emergentes, depois de um longo período de alta desses ativos.

O real acumulava desde agosto queda de 13,05% em relação ao dólar, uma das maiores desvalorizações entre as principais moedas. Só perde para o peso chileno. Por aqui, o dólar chegou a bater R$ 1,95 em 22 de setembro, maior nível desde setembro de 2009. A alta foi acentuada principalmente pela adoção de medidas de tributação pelo governo, como a incidência do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para derivativos cambiais anunciada em julho. "A falta de previsibilidade sobre as regras do jogo é muito negativo para o Brasil", afirma Eduardo Camara Lopes, da Ashmore Brasil.

O multimercado Ashmore Brasil 30, por exemplo, que pode investir em cotas de fundos que aplicam no exterior, apresentava ganho de 9,30% no ano, até 4 de outubro, ante 8,79% do CDI no período.

Apesar do fluxo cambial encerrar o mês passado positivo em US$ 8,484 bilhões, ajudado pelo superávit da balança comercial, a conta financeira brasileira ficou negativa em US$ 274 milhões.

Outras moedas como o peso chileno e mexicano, além do rand sul-africano, também sofreram desvalorização, com os investidores buscando refúgio em ativos considerados como proteção em momentos de aversão a risco como o dólar, iene e franco suíço. Mas, a partir de agora, a expectativa é de que as moedas dos mercados emergentes devem se valorizar, mas não será um movimento linear, diz Lopes, da Ashmore.

O gestor destaca potencial de ganho com moedas como o won, da Coreia, e o yuan, da China. "Esses países têm conta corrente positiva e, no caso da China, o aumento da inflação é mais um fator para o governo acelerar a apreciação da moeda", diz Lopes.

A Quest Investimentos também tem buscado oportunidades de ganhos com a arbitragem de moedas, apostando na valorização de divisas de mercados emergentes em relação ao dólar e ao euro. "Vemos oportunidades em moedas de países com consumo doméstico forte como o dólar canadense, o dólar australiano e o won da Coreia", diz Walter Maciel, sócio da Quest. O gestor destaca, no entanto, que, se a crise da dívida soberana na Europa piorar, poderá haver uma deterioração do sistema financeiro europeu, levando a uma procura por proteção, fortalecendo o dólar.

Já Claritas Investimentos tem apostado na valorização do franco suíço - considerado um refúgio para os investidores em momentos de crise - em relação ao euro. A gestora também chegou a ganhar com a queda do euro em relação ao dólar.

Desde agosto, a moeda da Suíça acumula valorização de 6,42% ante o euro, o que levou o Banco Nacional Suíço (BNS, o banco central do país) a fixar uma cotação mínima de € 1,00 para 1,20 franco suíço para frear a valorização da moeda. Fabiano Rios, gestor da Claritas acredita, no entanto, que, no caso de um eventual calote da Grécia ou de uma piora da situação da dívida soberana dos países europeus, o BNS não terá como conter a valorização da divisa.

Em relatório do mês de agosto do fundo Verde, da Credit Suisse Hedging-Griffo - um dos maiores do mercado e que acumula ganho de 9,14% no ano até setembro -, o gestor da carteira Luis Stuhlberger destacou que a próxima operação será a de se posicionar contra o euro. No dia 4 de outubro, a moeda comum europeia atingiu o menor nível em oito meses ante o dólar.
Para os gestores, a valorização do dólar não deve se sustentar no longo prazo, uma vez que são esperada novas medidas de afrouxamento monetário por parte dos BCs dos países desenvolvidos para estimular a recuperação da economia. "A compra de dólar no longo prazo não é uma boa opção; o Fed [Federal Reserve, banco central americano] tem feito um grande esforço para desvalorizar a moeda americana", diz Rios, da Claritas. O presidente do Fed, Ben Bernanke, anunciou nessa semana que está pronto para tomar medidas adicionais de estímulo econômico.

A Claritas também desmontou as posições compradas (apostando na alta) no real contra o dólar, depois que o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, sinalizando o início do ciclo de afrouxamento monetário. "Com o juro real mais baixo, diminui o incentivo para a realização das operações de "carry trade" (que consiste em tomar o dinheiro emprestado em moeda em mercados onde a taxa de juros é baixa, ou até negativa, e aplicar em países com taxas elevadas, como o Brasil)", afirma Rios, da Claritas.

A moeda americana, na opinião de Rios, deve se estabilizar entre R$ 1,70 e R$ 1,80, refletindo uma nova postura do BC de trabalhar com juros mais baixos, diante da expectativa de um crescimento menor da economia global.

Mesmo com a queda da taxa Selic para 12% ao ano, o Brasil ainda apresenta a maior taxa real de juros do mundo, e deve segundo Maciel, continuar atraindo capital. "As taxas de juros reais no exterior continuam negativas", lembra o gestor.

Além disso, Rios, da Claritas, acredita que a recente desvalorização do preço das commodities é uma apenas um movimento de correção. O índice CRB - composto por uma cesta diversificada de commodities - acumula queda de 11,62% nos últimos 30 dias. (Colaborou Luciana Monteiro)

Autor(es): Silvia Rosa
Valor Econômico - 06/10/2011

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