segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A classe C vai ao resort

Sonolento balneário do sul da Bahia, Santo André vive do turismo. São duas ruas apenas: a da praia é dominada por pousadas e restaurantes cujos donos falam português com sotaque. Os cardápios dão a volta ao mundo, mas é preciso rodar para encontrar uma moqueca.

O vilarejo tinha tudo para ser um destino privilegiado e exclusivo de VIPs internacionais. Privilegiado ainda é. Exclusivo, nem tanto. Quem tem movimentado a economia local são os turistas de outra sigla, a CVC.

Os "barões", como os nativos chamam os viajantes endinheirados, só passeiam por lá durante os meses de verão. No resto do ano, grande parte dos estabelecimentos fecha as portas, seus donos voltam para a Europa, seus chefs vão destrinchar peitos de pato em outras cozinhas.

Vista aérea do Resort Costa Brasilis
Um dos poucos abertos 365 dias é o maior empreendimento turístico da praia, o Costa Brasilis. Resort com arquitetura e decoração para agradar ao baronato, passou a oferecer pacotes de uma semana por dez parcelas de R$ 130 ("aéreo" incluído). O preço mal paga duas faxinas em São Paulo.

Os comerciantes locais descobriram que, ao contrário do turista nobre, vale a pena investir no ex-pobre. Enquanto os primeiros ficavam entocados e intocados no resort, os novos viajantes se dispõem a explorar pratos além do buffet - desde que se ofereça táxi grátis na ida e volta do restaurante.

O neoturista desce no aeroporto de Porto Seguro, sobe em um ônibus amarelo ovo de janelas panorâmicas e 38 quilômetros, 29 quebra-molas, duas aldeias indígenas e uma balsa depois desembarca no seu hotel de luxo. Piscinas, jacuzzis e praias semi-virgens (sic) o aguardam, promete a propaganda.

O trecho menos glamouroso é entre o avião e o ônibus. O aeródromo de Porto Seguro é o único no Brasil que recebe voos internacionais a ser administrado por uma empresa privada. O feito é anunciado com orgulho no site da Sinart. A propósito, a sigla vem de Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário Turístico. Seu forte são as rodoviárias.

A convivência no veraneio é pacífica entre descolados e deslocados. A praia é grande e demarcada. Na ponta de areia formada pelo encontro das águas doce e salgada há uma pororoca diária. Nada a ver com as marés. A onda é humana e corre do rio para o mar.

Uma vez por dia, outra parte da "família CVC" desce desde Cabrália a bordo de duas chalanas. Centenas de alegres turistas vão passar algumas horas nos guarda-sóis e barracas que os esperam na barra. Muitas caipirinhas e águas de coco depois, voltam ao seu porto seguro.

À distância, a cena da prancha caindo sobre a praia, seguida do aglomerado deixando a chalana em ordem unida, poderia lembrar o movimento das balsas que povoaram as fazendas de pecuária da região do Araguaia, no sul do Pará, nos anos 70. Mas boi não dança axé.

A rotina silenciosa de Santo André é quebrada momentaneamente por uma terceira vaga diária. São as escunas que descem o rio e passam ao largo da costa até Coroa Grande. A cada rajada de vento ouvem-se, na praia, trechos entrecortados da música de bordo: "muito assanhada (...) lapada (...) rachada".

Na maré baixa, o horizonte divisa um ilhote de areia avermelhada e o que parecem centenas de gravetos espetados n"água. São, na verdade, os passageiros das escunas, passeando pelas faces descobertas de uma extensa barreira de coral, a quilômetros da costa. Na volta, eles param para almoçar em um restaurante à beira-rio.

Nenhum morador dá pistas de estar ficando milionário, mas o dinheiro circula. E assim, graças cada vez mais ao turismo de massa e cada vez menos ao exclusivismo da classe A gargalhada (A-A-A...), Santo André vai passando seus verões, sem perder a tranquilidade.

Não foi preciso reivindicar um policial permanente para a vila. Se alguém rouba algo, dizem os andreenses, avisa-se os operadores da balsa, e a cana aguarda o imprevidente larápio do outro lado da travessia.

Para muitos. O Costa Brasilis em Santo André está longe de ser único. Dezenas de milhares de brasileiros têm, cada vez mais, comprado seu lugar ao sol em resorts, sempre em módicas prestações.

Autor(es): José Roberto de Toledo

O Estado de S. Paulo - 31/01/2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Lula virou história

O governo mal acabou, mas uma simples consulta a livrarias virtuais indica, até o momento, aproximadamente 50 livros lançados com o nome "Lula" no título - fora os demais, sem a menção direta. O número é significativo se comparado, por exemplo, aos cerca de 15 disponíveis on-line, a partir da mesma ferramenta, com "Fernando Henrique Cardoso" ou "FHC". Enquanto o ex-presidente tucano é o principal autor de suas obras - nesse caso, há mais de duas dezenas delas sendo oferecidas -, Lula não assina livro algum, mas sua história tem potencial para inspirar uma bibliografia jornalística e acadêmica ainda maior, especialmente a partir de agora, nesta fase de balanços e análises (talvez) menos polarizadas.

Um dos biógrafos mais ativos do Brasil, Fernando Morais não tem dúvida: "Lulinha dá um livraço". Autor de clássicos como "Chatô, o Rei do Brasil" e "Olga", Morais gostaria de escrever um livro com o mesmo fôlego desses sobre o ex-presidente. E ele não é o único com planos editoriais a respeito de Lula. O jornalista Kennedy Alencar prepara um dos livros mais aguardados sobre os oito anos do governo, a ser lançado pela Publifolha, no qual vai contar mais sobre os bastidores da vida palaciana. A pesquisadora Denise Paraná, autora de "Lula, o Filho do Brasil" (editora Fundação Perseu Abramo) - base do filme homônimo de Fábio Barreto -, também reuniu material para um novo livro, desta vez sobre a simbologia em torno do líder político.

O sociólogo Francisco de Oliveira planeja publicar no ano que vem "A Formação do Avesso: Predação de Classe e Trabalhos de Sísifo", pela Boitempo. "Sempre começo pelo título", diz. Seu objetivo é revisar a história brasileira, mostrando como o "lulismo" se encontraria na culminância de uma nova estratégia de dominação, iniciada há meio século, que se daria pelo avesso, ou seja, com a participação das próprias classes dominadas.

O fenômeno do lulismo é controverso, até por causa de seu ineditismo, aspecto com o qual concordam Oliveira e um dos seus principais interlocutores - e opositores - nesse debate, seu colega André Singer, porta-voz da Presidência até 2007. Também em 2012, Singer vai lançar um livro sobre o lulismo, que se baseará na tese de livre-docência que defenderá neste ano na Universidade de São Paulo (USP). "Quando comecei a fazer essa análise, estabeleci um diálogo com as hipóteses do professor Francisco de Oliveira", afirma Singer. "Concordo com ele no sentido de que temos algo novo, mas não acho que seja às avessas, até porque a política que continua a ser executada contempla aspectos do programa original do Partido dos Trabalhadores [PT], como a inclusão social, apesar da incorporação de elementos que não estavam presentes inicialmente, de extração neoliberal."

Fernando Morais
Toda a polêmica, de acordo com Fernando Morais, só faz apimentar uma virtual biografia. "É uma figura que merece algo mais exaustivo, acho que alguém vai fazer. Lula é adorado pela população, mas tem uma oposição dura. O Lula demonizado dá um sabor especial ao livro. Além disso, ele não é casmurro, o que ajuda o biógrafo. Este é um trabalho no qual eu tenho muito interesse e convivi bastante com o Lula."

No momento, entretanto, Morais prefere deixar o projeto amadurecer: "Pedi, por meio de amigos comuns, para gravar com Lula uma meia dúzia de depoimentos longos, sobre passagens importantes do governo, mas ele disse para desistir, porque ou sairia abobrinha ou perderia amigos. A poeira na alma dele ainda não baixou. Um dia, se topar, torço para que chute a bola para o meu lado."

Já o coordenador editorial da editora Fundação Perseu Abramo, Rogério Chaves, está mais otimista quanto à possibilidade de obter depoimentos do ex-presidente. A fundação tem entre seus propósitos contar a história do PT, e a ideia é preparar uma continuação do livro "Lula, o Filho do Brasil", que tem apresentação de Antonio Candido e se concentra no período de formação do filho de dona Lindu. A editora negocia a contratação de um novo autor. "Queremos amadurecer a ideia com o próprio Lula", conta Chaves. "A ideia é discutir menos o Lula como mito e sim como agente de um momento de grande mudança. Será necessário ter nessa edição a participação de uma pessoa com leitura política, que vá pegar também a fase do governo. Pensamos em aproveitar este ano, quando as informações estão mais recentes."

Além disso, a editora da fundação iniciou, no ano passado, a publicação de coleções técnicas sobre os dois mandatos. Uma delas é "2003-2010: o Brasil em Transformação", na qual serão lançados mais quatro volumes neste ano - sobre políticas sociais, direitos humanos, estatais e saúde.

Denise Paraná
A dificuldade de escrever sobre a trajetória do ex-presidente, segundo Denise Paraná, deve-se ao fato de Lula raramente dar depoimentos. "Até hoje, ele só deu depoimentos longos sobre a sua vida para a pesquisa que eu realizei. Foram muitos meses de entrevista, horas de conversa, no início dos anos 1990." Ao longo desses anos, Denise travou amizade com a família de Lula e frequenta casamentos e festas de Natal dos irmãos e dos sobrinhos dele. Já coletou amplo material sobre a construção simbólica do personagem, no Brasil e no exterior.

"Não me interessam tanto o lado político partidário, as disputas ou o balanço do governo. Quero escrever sobre a visão de mundo dele, destacando os aspectos subjetivos, ideológicos, culturais. Há muitos anos, eu tenho conversado com a família toda, observado como enfrentam as situações etc. Em "Lula, o Filho do Brasil", eu já trabalhava por meio dessa corrente da psico-história", diz.

No novo livro, vai analisar como Lula estaria contribuindo para o país se livrar do chamado "complexo de vira-lata", termo cunhado por Nelson Rodrigues quando observava a seleção nacional jogando futebol com potências estrangeiras. Segundo Denise, o brasileiro está entre os cinco povos mais otimistas do mundo quanto à mobilidade social, e Lula seria um símbolo importante desse ânimo.

"Existem pessoas que conseguem ascender socialmente. Em geral, saem da classe social baixa e se adaptam à nova classe. Deixam um lugar para ocupar outro. Mas com o Lula foi diferente: ele ocupa os dois lugares. Ele tem orgulho de ser o incluído e ao mesmo tempo o orgulho de ser o superexcluído. Isso dá um nó na cabeça da elite. Lula constrói espaço novo, a partir da comunicação direta com a população. Do ponto de vista simbólico, ele quebra paradigmas e modelos o tempo todo."

Em suas pesquisas no exterior, Denise chegou a se impressionar com a força do personagem, que chegaria a substituir Pelé como principal referência a respeito do país. "Muita gente que antes nem sabia onde fica o Brasil agora fala do país através da figura do Lula. É como se ele tivesse posto o Brasil no mapa-múndi."
Mas Denise reconhece que se trata de figura controversa: "Há quem diga que ele pratica populismo de direita, enquanto outras pessoas afirmam que é completamente revolucionário. Eu ouvi isso na França. Mas não estou dizendo que tudo deu certo no governo. O fato é que há muita coisa para estudar a respeito desses últimos oito anos: foram infinitas e profundas as transformações."

Boa parte do que diz poderia servir de subsídio a uma explicação do "lulismo". De acordo com André Singer, a base do fenômeno, que se configurou claramente a partir da reeleição de 2006, se encontra nos estratos de mais baixa renda da população - sendo o Bolsa Família um ingrediente não desprezível nesse conjunto. "É uma camada da população com perspectiva de mudança de renda, mas pode ser considerada conservadora por querer essas mudanças sem ameaça à ordem estabelecida. O lulismo tem elementos carismáticos, sobretudo no Nordeste, mas é um movimento real da sociedade, democrático. Embora não formalizado, tem fôlego para durar muitos anos", afirma.

Chico de Oliveira
Para Oliveira, sem entender o lulismo dificilmente se entende o Brasil de hoje: "Mesmo porque o lulismo nos devora". Em sua opinião, Lula é um ilusionista: "Ele tira coelho da cartola o tempo todo. Não é o escravismo ou o patrimonialismo que explicam o atraso atual. Não se trata de uma herança de 500 anos. No livro, vou fazer a revisão da história para mostrar como essa formação do avesso se refere aos últimos 50 anos, a uma escolha das camadas dominantes. Houve uma opção pelo atraso. Cria-se a pobreza, que não é brasileira, como forma de controle e dominação. Lula tira benefício disso. Seu governo foi a culminância desse processo. Não houve avanço institucional nestes oito anos. Assim como as classes dominantes, Lula dança sobre a miséria para construir a sua popularidade."

O Brasil vive uma "falsa euforia", diz Oliveira. "Sobraram para o país os produtos baratos. É a euforia de quem chegou atrasado ao baile, a celebração da derrota da vitória. Todos estão contentes, mas sobre cultura e cidadania não temos nada. Chegou-se aos bens de consumo, mas não à civilidade", comenta. "Estamos vivendo um fascismo do consumo. As pessoas se detestam, desapareceu qualquer traço de solidariedade pessoal e social. Os valores que a sociedade deveria cultivar, ela não cultiva. Há uma tensão fascista no ar. Sempre que um materialista começa a relacionar feitos sociais, pode desconfiar que atrás existe um cheiro de fascismo." O sociólogo, que é ex-petista, reitera: "Fizeram do Lula a imagem idealizada do anjo operário, o que ele não é. Faz muitas décadas que ele deixou de ser operário. A tragédia brasileira é imensa."

Como observa Morais, "herói de bronze só tem em praça pública" e a figura de Lula, como se vê, está longe do consenso. Por enquanto, na imprensa e em seminários, o momento é dos primeiros balanços. Especula-se qual seria sua participação na gestão da sucessora, Dilma Rousseff, e se voltaria a se candidatar à Presidência, embora Denise Paraná, até o momento a maior especialista na biografia lulista, aposte que não há volta: "Lula nunca andou para trás. Quando saiu da presidência do sindicato, disseram o mesmo, que ele voltaria, mas não foi o caso. Sempre foi assim na trajetória dele. O Brasil agora já fica pequeno para Lula, que tem a possibilidade de fazer muita coisa pelo mundo. Duvido que se candidate novamente, até porque entrou para a história como o presidente mais popular do país".

Kennedy Alencar, que cobriu os dois mandatos pela "Folha de S. Paulo", em Brasília, fez questão de esperar que Lula deixasse o Planalto para terminar seu livro sobre o governo só agora. "Achei melhor assim, para ter uma perspectiva mais ampla", afirma Alencar, que começou a redigi-lo de maneira mais intensa no ano passado. Já publicou algo do que saiu na própria "Folha", em dezembro. "Desde a eleição do Lula em 2002, pensava em escrever algo, com material apurado que eu não tinha como usar no dia a dia. Reuni muitos bloquinhos de anotação ao longo dos anos. Eu sempre escrevia um pouco e guardava."

Sua intenção é identificar os piores e melhores momentos, contar sobre a sucessão de escândalos enfrentados, como o caso Waldomiro Diniz e o mensalão, falar da crise econômica, das políticas sociais etc. "Vou detalhar um pouco mais. Ainda vou ter algumas conversas. A gente nunca para de apurar. Estou com todo o material arquivado, mas quero tempo para fazer com mais calma." Haveria ainda alguma revelação importante? "Eu acho que sim, porque jornalista nunca consegue mostrar tudo. A relação entre imprensa e governo é naturalmente tensa, sempre vai ter algo para descobrir." Além disso, o próprio Lula gostaria de voltar ao assunto do mensalão este ano, como lembra o jornalista: "É muita história para contar".

Autor(es): Por Rachel Bertol

Valor Econômico - 28/01/2011  http://www.valoronline.com.br/

Alerta fiscal para o Brasil


BC e FMI alertam governo para gastos


BC diz que controle de gastos é fundamental para alívio monetário. FMI vê "deterioração acentuada" nas contas

Asituação fiscal do Brasil está em estado de alerta, apontaram documentos divulgados ontem tanto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como pelo próprio Banco Central (BC). A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada na semana passada, que deu início a um ciclo de aumento de juros ao elevar a Taxa Selic de 10,75% para 11,25% ao ano, afirmou que o cumprimento - sem manobras - das metas fiscais acordadas para este ano e o próximo, com controle efetivo de gastos, e a moderação na expansão do mercado de crédito serão fundamentais para que a política monetária do BC não seja mais restritiva que o esperado atualmente pelo mercado. Já o FMI alertou, na atualização de seu relatório "Monitor Fiscal", para uma deterioração "particularmente acentuada" nas contas fiscais. E ressaltou que as metas fiscais não devem ser cumpridas "por ampla margem".

Na ata do Copom, o BC também reforçou sua preocupação com o avanço da inflação por causa dos preços elevados das commodities em geral e dos alimentos em particular, além da atividade econômica ainda forte, com a demanda por bens e serviços crescendo acima da capacidade de oferta do setor produtivo.

- O BC trabalha com o cumprimento da meta fiscal cheia (economia para pagamento de juros equivalente a 3% do Produto Interno Bruto, PIB, em 2011) e jogou um pouco da responsabilidade de cumprir a meta de inflação para o governo todo - afirmou o sócio da consultoria Tendências Juan Jensen, para quem a Selic será elevada a 12,25% até abril, em linha com a mediana do mercado mostrada pela pesquisa Focus, do BC.

BC espera superávit de 3%, FMI não

Desde o fim de 2009, o BC tem indicado a necessidade de o setor público aumentar o controle fiscal para evitar pressões adicionais sobre a inflação. Quanto mais o governo gasta, mais a demanda cresce, consequentemente estimulando o reajuste de preços. Na ata de ontem, no entanto, o BC foi bem mais enfático que o normal, usando um parágrafo inteiro para defender sua ideia.

"O Copom reafirma que seu cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais. Importa destacar que a geração de superávits primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação, além de contribuir para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta, solidificará a tendência de redução da razão dívida pública sobre produto (PIB)".

O BC informou que, dentro do seu quadro de expectativas, trabalha com a projeção de o governo fazer um superávit primário de 3% do PIB neste ano e de 3,1%, como "hipótese", em 2012. Este é o compromisso firmado pelo setor público no Orçamento deste ano. Mas boa parte dos analistas - e o FMI - não acredita nisso e projeta superávit inferior a 3% neste ano, devido ao elevado gasto público.

No "Monitor Fiscal", o Fundo observou que "o aumento da arrecadação foi usado, de maneira geral, para financiar gastos maiores", principalmente no Brasil, na China e na Índia. O FMI apontou ainda como problemas os elevados déficits fiscais de Estados Unidos e Japão.

Apesar de ser mais otimista que a média do mercado nesse campo, o BC piorou suas expectativas sobre inflação. Sem citar números, disse que suas contas para o IPCA estão "acima do centro da meta" em 2011, tanto no cenário de mercado (com previsões de analistas) quanto no de referência (com indicadores confirmados até uma determinada data).

Para 2012, o BC também passou a enxergar um índice maior que o centro da meta no cenário de referência, mas ainda com a Selic a 10,75% ao ano. Ou seja, sem levar em conta a elevação nos juros já feita. A meta de inflação para 2011 e 2012 é de 4,5% pelo IPCA, com margem de oscilação de dois pontos percentuais para mais ou menos.

O BC destacou a importância, para o controle da inflação, das medidas macroprudenciais tomadas em dezembro, que limitaram o acesso ao crédito de consumo de longo prazo. Os efeitos já foram sentidos em janeiro, com a queda de 3,5% das concessões de empréstimos às famílias e a forte elevação nas taxas de juro.

No cenário externo, o BC avaliou que pode estar começando uma recuperação econômica nos Estados Unidos, mas que esta ainda é uma incerteza. Não voltou, no entanto, a defender que o cenário internacional possa ajudar a segurar a inflação.

Mercado teme novas medidas e inflação

A ata de ontem foi a primeira com Alexandre Tombini como presidente do BC e, para os analistas, apesar de a forma ainda estar bastante parecida com as demais, as questões inflacionárias foram tratadas de maneira mais clara. Para o economista do banco Santander Cristiano Souza, a ata do BC não traz indicações, pelo menos a priori, de que o Copom vai acelerar o ciclo de aperto de juros.

- Essa ata dá mais cores à discussão sobre a inflação, mas não parece que vai acelerar o passo no aperto monetário - afirmou Souza, que mantém a perspectiva de que a Selic será elevada para 13% ao ano até julho.

A preocupação com a inflação e com a possibilidade de mais medidas macroprudenciais do governo, além da saída de investidores estrangeiros, fizeram a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrar em queda ontem. O Ibovespa, seu principal índice, caiu 0,96%, aos 68.050 pontos. Companhias de construção e varejo tiveram as maiores quedas, devido ao temor sobre o impacto da alta da Selic.

- O mercado está com muito medo da inflação e percebe que os juros estão fortes não apenas aqui, mas também nos emergentes. E vão continuar fortes - afirma o gestor de renda variável da Vetorial Asset Management, Fernando Belaciano.

Já o gerente de renda variável da Corretora Futura, Renato Bandeira de Mello, destacou o movimento de saída dos estrangeiros da Bolsa:

- A ata do Copom citou mais medidas macroprudenciais, e o mercado não sabe qual será o alcance dessas medidas.

Autor(es): A gência o globo : Patrícia Duarte*

O Globo - 28/01/2011 http://www.oglobo.com.br/

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Rio de Janeiro será um "estado falido" em 2017 ?


Olhos de lince nos custos de 2014 e 2016

Seguramente, a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 serão eventos marcantes do próximo septênio. Haverá necessidade de imensos investimentos, que competirão com recursos públicos escassos, que teriam usos alternativos e retornos muito altos calculados objetivamente, como são, por exemplo, os projetos de portos e ferrovias, de rodovias, de aeroportos, das usinas de energia elétrica, de saneamento, de controle das catástrofes climáticas etc.

Eles geram emprego não apenas na sua construção: aumentam, depois de prontos, a produtividade de todo o sistema econômico, acelerando o desenvolvimento e beneficiando toda a sociedade.

Por outro lado, as taxas de retorno dos investimentos da Copa-2014 e da Olimpíada-2016 são difíceis de estimar objetivamente. Depois dos empregos gerados durante a sua realização, a utilização - a não ser quando cuidadosamente pensada para seu uso não festivo - terá efeito relativamente pequeno sobre o desenvolvimento e o emprego. Parte dos seus benefícios refere-se a fenômenos subjetivos, como a "melhoria da imagem" do país.

O Brasil teve uma experiência recente. A desastrosa herança dos Jogos Pan-Americanos foi a negação mais absoluta do uso correto dos recursos públicos extraídos de todos os brasileiros. Houve talvez alguma vantagem "esportiva". Nada indica, entretanto, que ela não poderia ter sido alcançada sem o desastre financeiro, sem os trágicos indícios de superfaturamento e sem o triste legado dos "elefantes brancos", que nem a mais furiosa imaginação dos administradores públicos consegue aproveitar.

É difícil estimar a taxa de retorno dos investimentos

Nada mais importante para o governo, portanto, do que atentar para a honestidade e franqueza do conselho do presidente da Comissão Olímpica Internacional (COI), Jacques Rogge, na sua visita ao Brasil. Ele chamou a atenção para a necessidade de realismo na dimensão das estruturas construídas para tais eventos: evitar a megalomania, atentar para o controle rigoroso da execução dos orçamentos e pensar - com antecipação e máximo cuidado - qual o uso que lhes será dado posteriormente em benefício do desenvolvimento social e econômico. Em uma palavra, tirar o maior efeito "imagem" possível de tais eventos, mas não deixar como herança "elefantes brancos".

É um fato conhecido que os economistas (porque são treinados em pensar no melhor uso alternativo para os sempre escassos recursos de que se dispõe) não têm muita simpatia com eventos "pirotécnicos" para a compra da "imagem" dos países. E têm alguma razão. Fala-se que apenas na cerimônia de instalação da Olimpíada de Pequim foram gastos (em fogos e outras piruetas) mais de US$ 100 milhões, enquanto 100 milhões de chineses ainda viviam com menos de um US$ 1 por dia.

No Rio de Janeiro (Rose, A.K e Spiegel, M.M., "The Olympic Trade Effect, Finance & Development"), estima-se que (sem superfaturamento!) serão gastos US$ 15 bilhões. Mais ou menos US$ 80 de impostos para cada brasileiro, inclusive os que estão sofrendo a tragédia da região serrana...

Há, obviamente, alguns efeitos positivos desses projetos: a melhoria da infraestrutura que desafoga o transporte urbano, os gastos dos turistas que, em geral, permanecem depois dos jogos, uma publicidade internacional capaz de atrair mais turistas e, eventualmente, alguns investidores, um melhor conhecimento universal da geografia, da história e da cultura do país, um aumento da auto-estima nacional, um aumento da solidariedade da comunidade etc. O problema é evitar o que até aqui a experiência mundial mostra que é difícil: libertar-se da herança de elefantes brancos!

De 1976 a 2016, foram ou serão realizadas 22 Olimpíadas (11 de verão e 11 de inverno). A primeira, realizada em Montreal, no Canadá, orçada em US$ 124 milhões, deixou uma dívida de US$ 2,8 bilhões (mais ou menos US$ 10 bilhões de hoje) e levou 30 anos para ser paga! A única que produziu um quase equilíbrio foi a de Los Angeles (1984), aceita pela COI porque a tragédia de Montreal assustara outros candidatos e ela pode impor suas próprias condições. Além do mais, houve colaboração do setor privado.

A verdade é que os gastos de nenhuma Olimpíada ficaram dentro do orçamento. A de Atenas, Grécia (2004), foi estimada em US$ 1,6 bilhão e terminou em US$ 16 bilhões! Segundo as más línguas, foi uma das razões da desintegração das finanças do país! A última, a de Pequim (2008) começou com um projeto de US$ 1,6 bilhão e terminou, gloriosamente, com um gasto de US$ 40 bilhões, incluindo (como em todos os outros casos), os custos da infraestrutura.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A armadilha do Salário Mínimo

Se regra não mudar, SM terá 44,2% na gestão Dilma

A presidente Dilma Rousseff herdou do antecessor uma armadilha: a política de reajuste do salário mínimo (SM). Por essa política, o SM é corrigido pela inflação do ano anterior, acrescida da variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. A regra traz desafios tanto para o combate à inflação quanto para o equilíbrio das contas públicas nos próximos anos e, por isso, pode impor limites ao crescimento da economia brasileira.

Na recente aceleração inflacionária ocorrida no país, os preços dos serviços têm sido o item que mais pressiona o IPCA, depois de alimentação e bebidas. Em 2010, tiveram peso de 24% no índice e subiram 7,4%. Os serviços atrelados ao salário mínimo responderam, por sua vez, a quase 70% do aumento desses preços.

No lado fiscal, cada 1% de reajuste do SM gera impacto de R$ 1,4 bilhão no orçamento federal. Cada real adicional aumenta a despesa com previdência social, Loas/RMV, abono salarial e seguro-desemprego em R$ 286,4 milhões. Como o governo anterior teve dificuldade para cumprir a meta de superávit fiscal primário em 2009 e 2010 - só o fez mediante malabarismos contábeis -, a nova gestão se comprometeu com uma meta cheia, sem artifícios.

A presidente Dilma pode sair bem-sucedida do embate político em torno do SM de 2011, mas não terá resolvido o problema a médio prazo. Se a regra de correção não mudar, o mínimo terá reajuste de cerca de 13,5% em janeiro de 2012. É um percentual que, novamente, ajudará a inflar os preços dos serviços, dificultando a tarefa do Banco Central de acomodar a inflação, que chegou a 5,9% em 2010 e cujas expectativas para este e o próximo ano seguem se deteriorando. Isto, sem falar no impacto fiscal...

Aplicando-se a regra para o mandato inteiro de Dilma e considerando as projeções de PIB do Ministério da Fazenda, além das estimativas de inflação (INPC) do Boletim Focus, o SM deverá ter correção nominal de 44,2% entre 2011 e 2014, 19,8% em termos reais (ver gráfico). A questão a se avaliar é: faz sentido continuar corrigindo o mínimo nessa velocidade e intensidade?

Havia uma justificativa plausível para a recuperação do SM no período recente. Até o início do Plano Real, o mínimo pago no Brasil era, de fato, muito baixo - não se deve esquecer que 18,6 milhões de aposentados recebem um SM por mês do INSS. Hoje, equivale a quase US$ 320.

A regra de correção criada pelo governo anterior encerra, no entanto, vários problemas. Um deles é introduzir um indesejável mecanismo de indexação na economia, que dificulta a redução dos índices de preços abaixo de determinados níveis. Outro é assegurar reajustes, acima da inflação, a uma parcela enorme da população que vive na inatividade - aumentos reais fazem mais sentido se concedidos a trabalhadores da ativa, como um estímulo à elevação da produtividade.

Há efeitos colaterais do SM dos quais poucos se fala. Por exemplo: nas regiões mais pobres do país, milhares de jovens deixam de estudar ou procurar emprego para viver às custas da aposentadoria dos pais; nas cidades, um seguro-desemprego polpudo (por causa do SM) estimula trabalhadores a mudar permanentemente de emprego, o que leva as empresas a investir pouco em capacitação profissional.

Especialistas sustentam que programas de transferência de renda são mais efetivos para combater a pobreza e a desigualdade do que o salário mínimo. O governo, portanto, deveria concentrar esforços em programas como o Bolsa Família - o impacto fiscal é muito menor e não precisa ser permanente, uma vez que é possível criar regras de saída.

Lula adotou a atual regra de correção do mínimo no fim de 2006, como uma retribuição ao apoio que as centrais sindicais lhe deram durante a crise do mensalão. Fez isso depois de desistir da reforma sindical, que defendera ardentemente no passado, e de estender a repartição do imposto sindical às centrais. Realizou, dessa forma, uma proeza inédita na recente história política brasileira: a unificação do movimento sindical em torno do seu governo. Curiosamente, as centrais, que representam a elite dos trabalhadores, justamente aqueles que não ganham o mínimo, transformaram o SM na sua principal bandeira.

O desafio de Dilma é não só conter o reajuste deste ano, mas também encontrar uma forma de correção do SM que não ponha em risco a estabilidade econômica do país. O custo político é previsível, o que torna a tarefa assaz difícil.

Autor(es): Cristiano Romero

Valor Econômico - 26/01/2011 http://www.valoronline.com.br/

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Corrida para salvar o bolso

Reduzir dívida vira prioridade

Crédito farto e parcelas a perder de vista estimulam o brasileiro a consumir. Efeito colateral são as dívidas, que precisam ser renegociadas.

A farra do crédito fácil em 2010 despejou R$ 726,3 bilhões nas mãos de brasileiros ávidos por compras. Muitos, sem o hábito de organizar as contas, fizeram mais prestações do que o bolso consegue suportar e, agora, correm para negociar as dívidas. Prova desse descompasso no orçamento das famílias é a comparação entre o avanço de concessões de crédito e o volume de ações no Judiciário pedindo revisões de contratos e abatimentos. Enquanto a oferta de dinheiro cresceu 28,2% entre 2007 e 2010, o Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor (Brasilcon) estima que a briga jurídica avançou 30%.

O técnico em refrigeração Robledo Oliveira, 38 anos, parcelou o carro em 60 vezes sem entrada e ainda está endividado. “Os juros são altíssimos. Meu carro sairia R$ 15 mil à vista, mas no fim das contas, vou pagar R$ 24 mil”, explica. No ano passado, comprou ainda uma estante e um sofá também parcelados — o salário não conseguiu acompanhar tantas prestações e os juros abusivos dos financiamentos. “As contas ficam no limite do meu orçamento. Se acontece um imprevisto, tenho que arrumar dinheiro porque não tenho de imediato”, justifica.

Robledo é um entre tantos exemplos de brasileiros que se beneficiaram nos últimos anos da mobilidade social que levou 30 milhões de pessoas à classe média e abriu para esse público as portas do consumo. Uma população inteira que não aprendeu como gastar o que ganha e que, segundo especialistas, deverá fazer a inadimplência avançar mais fortemente em 2011. Em resposta a esse movimento, o Banco Central — na tentativa de antecipar-se ao caos — limitou o alongamento dos prazos e enxugou o crediário, tendo como referência os exageros no volume de financiamentos oferecidos no mercado. Nos empréstimos com prazo que variava de 5 a 10 anos, apenas nos primeiros 12 meses a instituição observou uma inadimplência de 8%.

Parcelar em várias vezes tornou-se tão comum que, conforme dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), 80% de todas as compras no varejo são financiadas. “O brasileiro tem necessidade de crédito para realizar seus desejos. Por isso, ele se preocupa em limpar o nome e equilibrar o orçamento”, avalia Roberto Alfeu Pena Gomes, presidente do SPC. Em contraponto, Walter Moura, diretor-secretário do Brasilcon, alerta que falta no país a cultura de controle orçamentário. Uma das renegociações mais comuns é a do cartão de crédito. “Em função dos juros pesados é mais vantajoso pegar um empréstimo, quitar a dívida do cartão e, depois, com uma prestação fixa, pagar a dívida”, reforça Gomes. A medida é a mais indicada para consumidores que entraram no rotativo do dinheiro de plástico, o popular pagamento mínimo, que em algumas situações chega a cobrar 300% ao ano.

Descontrole

A estudante Karine Barbosa, 26 anos, tem dificuldades para controlar as contas. Ela iniciou 2011 com muitas dívidas — cinco produtos parcelados, adquiridos no ano passado em seu cartão de crédito, ainda serão pagos ao longo dos próximos meses. “Às vezes, me enrolo. Esqueço que comprei algo e acabo com uma conta maior do que o meu salário”, adverte. Os itens que mais consomem a renda da jovem são roupas, manutenção do carro e viagens. “Em compras acima de R$ 70, sempre opto por dividir no máximo permitido de prestações sem juros”, admite. “No geral, acho que é bom parcelar. Não poderia ter muitas coisas sem o financiamento”, justifica-se.

Para Carlos Henrique de Almeida, assessor econômico da Serasa Experian, o dinheiro fácil é um fenômeno que chegou ao limite. “Não há mais fôlego para o consumidor continuar a se endividar”, lembra. Com tantas prestações acumuladas, quase todas feitas ainda em 2010, as pessoas devem botar o pé no freio e renegociar as dívidas. “O brasileiro vai se segurar quando começar a ver que o crédito está mais caro e que a renda não vai crescer acima da inflação”, resume o analista da Serasa Experian.

Autor(es): Victor Martins

Correio Braziliense - 25/01/2011 www.correioweb.com.br

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Economia, verso e reverso

O momento atual da economia brasileira mostra bem como a política econômica precisa ser sempre um jogo de verso e reverso.
Comecemos pelo último lance importante, a decisão do Banco Central (BC) de iniciar um ciclo de alta da taxa básica de juros, mais outras medidas de contenção do crédito, para combater o surto inflacionário.
O BC agiu corretamente, tal é o entendimento dominante. Inflação é um inimigo principal. Mas por que houve esse surto de inflação?
Primeiro, a alta de preços de alimentos, uma consequência de problemas climáticos mundo afora e do forte aumento da demanda, também mundo afora, especialmente na China, e especulação no mercado financeiro global. Como os alimentos estão em alta, e devem continuar assim por um bom tempo, pois as pessoas dos países emergentes estão ganhando renda e, logo, comendo mais, é um bom negócio tomar dinheiro emprestado a juro zero (nos EUA ou no Japão) e comprar commodities agrícolas em valorização.
Mas, acredite, isso é muito bom para o Brasil. Grande exportador de alimentos, o País se beneficia diretamente desses preços em alta. E tanto se beneficia que a diplomacia brasileira torce o nariz quando o presidente da França, Nicolas Sarkozy, sustenta que o G-20 precisa montar uma política de estocagem de alimentos e controle de cotações para derrubar preços.
Nisso o Brasil está com os EUA, também grande produtor agrícola. Ambos são contra controles internacionais, dizem que não funcionam. Entendem que cada país deve cuidar individualmente de seu fornecimento de alimentos - e da eventual inflação que isso acarreta.
Mas, por falar em inflação, o fenômeno brasileiro não se restringe a alimentos. É, também, e muito fortemente, uma consequência do aquecimento excessivo da economia brasileira.
Crescimento é bom - e todos por aqui celebram os bons números do PIB, da geração de emprego, do crescimento dos salários e do crédito em alta, tudo turbinando o consumo. Compramos em 2010 nada menos que 3,5 milhões de veículos!
Mas, quando o consumo em geral vai mais depressa que a produção local, isso dá em duas consequências: aumentam as importações e... os preços. Serviços, por exemplo, como cortar o cabelo, engraxar um sapato ou contratar um pedreiro para reformar o banheiro, itens que não podem ser importados, vão logo subindo de preço.
Aí já não é bom. Muita importação custa dólares, gera déficits nas contas externas. Inflação come o poder aquisitivo dos salários.
Logo, vem o BC e aumenta juros e reduz o crédito, para esfriar o consumo geral.
Mas juros altos tornam as aplicações em reais ainda mais atraentes. De novo, é negócio tomar dinheiro emprestado a juro zero no mercado internacional e comprar títulos do governo brasileiro, que chegam a pagar a inflação mais 6% de ganho real.
Além disso, se a economia está crescendo, se as empresas avançam com exportações de commodities e com o mercado interno, incluindo obras na exploração de petróleo, então é promissor fazer negócios no Brasil.
Resultado, mais dólares entram no País. E aí, sabe como é, com muito dólar na praça, cai o preço da moeda americana e valoriza-se o real. Além disso, o governo tem de gastar reais para comprar os dólares excedentes, evitando mais valorização da moeda nacional. E aplica esses dólares nos mercados internacionais, a juros de mixaria.
Ou seja, sai caro para o governo essa operação toda. Paga 12% em reais e ganha 2% em dólares.
É, mas se não comprar os dólares, a moeda americana fica muito barata. "Qual o problema?", pode-se dizer. É até bom. Um fatores de controle da inflação tem sido justamente o dólar barato, que barateia tudo que é importado e tudo que tem componente importado, como computadores ou celulares. Também facilita as viagens internacionais que têm feito a primeira festa de muitos brasileiros. E, com esses produtos mais baratos, aumenta o poder de compra das famílias, o que dá aquela sensação de bem-estar econômico que elegeu Dilma Rousseff.
No reverso, o real muito valorizado, muito forte, encarece os produtos brasileiros de exportação. Com isso, os produtores locais de qualquer coisa sofrem com a concorrência estrangeira nos mercados locais e internacionais.
Por exemplo: o aço brasileiro fica mais caro que o aço chinês importado; a geladeira brasileira fica mais cara na Argentina e perde espaço para o eletrodoméstico de Cingapura. Ou seja, podem faltar empregos por aqui.
Vai daí, o governo toma medidas para dificultar a entrada de dólares e tentar até uma desvalorização do real. Mas a exportação, que é boa, continua trazendo dólares, assim como a taxa de juros, elevada para conter uma inflação provocada pelo preço de alimentos, que por sua vez causa mais entrada de dólares.
Mas, para combater o excesso de demanda que causa a inflação, o governo tem outro instrumento: a redução dos gastos públicos. Isso funciona, com certeza. Mas essa política se opõe a tantas promessas de campanha, inclusive de um PAC returbinado.
Não raro, uma medida anula a outra, se as doses não forem bem definidas. E, sobretudo, se não forem definidos os objetivos principais.
Em tempo: exceto em seu último ano, o governo Lula sempre privilegiou o tiro na inflação. Em 2010, tomado de soberba e com o objetivo de eleger Dilma, Lula conseguiu que a Fazenda desandasse a gastar e que o BC segurasse os juros.
A ver como a sucessora se vira com essa herança inflacionária.

O Estado de S. Paulo - 24/01/2011 www.estadao.com.br 
Autor(es): Carlos Alberto Sardenberg

A China já é a maior potência econômica?
Com a chegada ontem a Washington do presidente chinês, Hu Jintao, e um jantar agendado na Casa Branca com o presidente americano, Barack Obama, começa de fato o tão esperado encontro entre os líderes das duas maiores economias do planeta. O que não está absolutamente certo, porém, é qual dos dois países é a maior potência econômica do mundo.
Há alguns dias, o economista Arvind Subramanian, do Instituto Peterson para Economia Internacional, publicou um texto que desafia a noção corrente de que os Estados Unidos são maiores. Segundo os seus cálculos, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês chegou a US$ 14,8 trilhões em 2010, ultrapassando o PIB americano, calculado em US$ 14,6 trilhões.
As estimativas de Subramanian são um tanto controversas porque, entre outros motivos, usam números que não são totalmente públicos. Mas elas corroboram uma sensação cada vez mais comum entre os americanos: que a China já assumiu o papel, antes detido pelos Estados Unidos, de principal protagonista na economia mundial.
Subramanian questiona a metodologia usada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu Panorama Econômico Mundial, a principal referência em comparaçôes econômicas mundiais, que aponta um PIB chinês de US$ 10,1 trilhão em 2010, ainda cerca de 31% menor do que o PIB americano. O FMI faz projeções para o crescimento mundial até 2015 e, até lá, os Estados Unidos seguem como os maiores, embora a diferença entre os dois países, segundo esses exercícios, vá se reduzir para apenas 5%.
O economista do Instituto Peterson, um dos mais respeitados de Washington, sustenta que o FMI usa como ponto de partida nos seus cálculos uma estimativa de PIB de 2005, que, segundo ele, estaria subestimada. O FMI também teria superdimensionado a inflação chinesa entre 2005 e 2010. Já Subramanian usa nas suas estimativas os dados compilados pelo Centro de Comparações Internacionais da Universidade da Pennsylvania, que devem ser divulgados em fevereiro.
Tanto os cálculos do FMI quanto de Subramanian são feitos pelo conceito de paridade de poder de compra (PPP). Essa metodologia procura medir o quanto de fato os cidadãos de diferentes países conseguem produzir e consumir em termos de bens e serviços. Serviços geralmente são mais baratos em países pobres - e acabam sendo subestimados na outra metodologia mais comum de medida do PIB, a que usa dólares em valores de mercado. Por esse critério, o PIB chinês soma US$ 5,745 trilhões.
Mesmo quando o PIB é medido em dólares a preços de mercado, porém, a China caminha para ultrapassar os Estados Unidos. "Talvez isso não seja provável no futuro mais imediato, mas após 2020 é bastante possível", disse ao "Valor" o economista David Mann, chefe de pesquisa do banco Standard Chartered, que divulgou um estudo recentemente que aponta que a fatia da China no PIB mundial irá subir de 9% para 24% entre 2010 e 2030. Na direção contrária, a participação dos Estados Unidos no PIB mundial irá encolher de 24% para 12%.
Nos seus cálculos, o Standard Chartered usa premissas relativamente conservadoras, como uma tendência de crescimento pouco menor de 7% para a China no período, ante 2,5% para os Estados Unidos e para a Europa. Também pressupõe que a moeda chinesa, o yuan, continuará na atual trajetória de valorização. Tudo isso considerado, a virada ocorreria até 2020, quando o PIB chinês terá chegado a US$ 24,6 trilhões, e o americano, a US$ 23,3 bilhões, usando o conceito de PIB em dólares em valores de mercado.
Mesmo que a China se torne a maior economia do mundo, entretanto, ainda estará longe de ser a mais rica. Hoje, o seu PIB per capita é calculado em US$ 4 mil, pelo conceito de dólares a valores de mercado, o que equivale a cerca de 9% do PIB americano. Se as projeções do Standard Chartered se confirmarem, a China será apenas uma economia de renda média em 2030, com um PIB per capita de US$ 21,4 mil. Seu peso econômico será determinado sobretudo pela sua grande população, projetada pelo banco em 1,5 bilhão de habitantes em 2030, ante estimados 370 milhões nos Estados Unidos.
Embora a China ainda seja um país relativamente pobre, a sensação corrente entre os americanos, em meio a uma grave estagnação econômica, é que a China já se tornou um gigante. As trocas comerciais entre a China e os Estados Unidos chegaram a US$ 459 bilhões em 2010, segundo relatório recente do serviço de pesquisa do Congresso americano. A China é o país de quem os EUA mais importam, e o terceiro mais importante mercado para as exportações americanas, atrás de Canadá e México. O déficit dos EUA com a China subiu de US$ 10 bilhões para US$ 273 bilhões entre 1990 e 2010.
Há também a crescente sensação de que a China, que antes produzia basicamente produtos de baixo valor agregado, se tornou um competidor em áreas de maior tecnologia. A fatia dos produtos de alta tecnologia entre as exportações chinesas aos EUA subiu de 19% para 30% entre 2003 e 2009.

Alex Ribeiro De Washington 
www.valoronline.com.br

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Começou o arrocho


Contra a inflação, juros nas alturas

Juros sobem para 11,25% ao ano. Os bancos e o comércio devem reajustar suas taxas a partir de hoje.

Comitê de Política Monetária (Copom) sobe a taxa básica (Selic) em 0,5 ponto percentual, para 11,25% ao ano. Banco Central sinaliza que a escalada terá continuidade.

A primeira reunião do governo Dilma Rousseff, o Comitê de Política Monetária (Copom) deu início a um ciclo de arrocho que promete ser longo. Marcando a estreia do novo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, o colegiado de diretores decidiu ontem elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto percentual, para 11,25% ao ano. A medida, já esperada por grande parte dos analistas, visa conter a inflação, que no ano passado fechou em 5,91%, e que, em 2011, mantém fôlego total, ameaçando o poder de compra dos brasileiros.

Depois de permanecer por mais de seis meses em 10,75%, a Selic retorna ao mesmo nível de março de 2009. O remédio é amargo, porém, necessário, justificou o BC em nota oficial: “O Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 11,25% ao ano, sem viés, dando início a um processo de ajuste da taxa básica de juros, cujos efeitos, somados aos de ações macroprudenciais, contribuirão para que a inflação convirja para a trajetória de metas”. O aperto não deverá avançar muito além daquilo que o mercado projeta para as três primeiras reuniões do ano — um avanço de 1,5 ponto percentual. O principal recado do BC será dado na próxima semana, com a publicação da ata da reunião de ontem.

Roberto Padovani, estrategista-chefe do Banco West LB, disse que o movimento do Copom pode ser traduzido com facilidade. “Entendo que ele quis dizer exatamente isso: que não passará muito do 1,5 ponto e que será cauteloso no ciclo de elevação. Podemos tirar a conclusão ainda de que ele manterá nas próximas reuniões o ritmo de 0,5 p.p”, explicou.

Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, no entanto, o cenário de inflação em alta pode obrigar a autoridade monetária a pesar ainda mais a mão nas próximas decisões. “Dados os fatores como estão, com alimentos influenciando negativamente e sem muitas esperanças de que os choques diminuam em horizonte mais curto de tempo, pode ser que 1,5 ponto no primeiro semestre seja insuficiente e force novas altas”, avaliou. No ano passado, os preços de itens alimentícios sofreram reajuste médio de 10,39% e representaram nada menos do que 68% de toda a inflação do país.

Apesar de significativa, a alta da Selic, sozinha, tende a não ser suficiente para frear o consumo. Se quiser inibir o ímpeto das famílias em comprar, o governo terá de lançar mão de mais ferramentas macroeconômicas. A Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou expansão de 9,9% no volume de vendas em novembro do ano passado, em relação ao mesmo período anterior. Na mesma comparação, o montante de crédito concedido a pessoas físicas avançou 20,8%, enquanto para as empresas o bolo cresceu 20,9%, conforme registrou o Banco Central.

Expectativa

Com tantos sinais nebulosos pela frente, alguns economistas advertem que ainda é cedo, mesmo para o Banco Central, para determinar o ajuste total da Selic. Durante o primeiro trimestre do ano, a postura do colegiado deve ser observada com lupa. “O avanço provável de 1,5 ponto percentual que esperamos nas três primeiras reuniões do ano é uma conta sujeita a chuvas e trovoadas. Ainda há muita incerteza em relação a quanto o cenário internacional aumenta as pressões e também no que diz respeito ao mercado doméstico. Essa dúvida vai permanecer, de certa forma, até o primeiro relatório trimestral de inflação”, disse o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. Parte dos analistas acredita que a Selic encerre o ano em 13,75%, antes de estacionar novamente.

Além das incertezas em relação ao repique de preços, pesam sobre a decisão tomada pelo Copom os instrumentos de política monetária aplicados pelo Banco Central no fim do ano passado — como a retirada de R$ 61 bilhões do mercado. A drenagem foi feita por meio da ampliação do recolhimento compulsório exigido dos bancos. Fora de circulação, o dinheiro retido contribui para a elevação de juros por parte das instituições financeiras, que cobram mais para emprestar, uma vez que estão com menos disponibilidade de recursos. As taxas mais altas desestimulam o consumidor a tomar novos financiamentos, suavizando as pressões sobre os preços.

Autor(es): Gabriel Caprioli
Correio Braziliense - 20/01/2011 - http://www.correioweb.com.br/