segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A pequena empresa como fonte de desenvolvimento


Apenas para incorporar o contingente de jovens que vai entrar no mercado de trabalho nos próximos cinco anos será necessário gerar 50 milhões de novos empregos. E isso acontecerá em um momento em que a grande maioria das empresas estará preocupada em reduzir custos e eliminar mão de obra. Uma forma inteligente para se resolver esse dilema é estimular a capacidade empreendedora do brasileiro dando-lhe condições de criar e manter o seu próprio negócio, evitando que ele vá tentar se colocar como empregado nas grandes ou médias empresas. Mas para isso muita coisa precisa mudar no mundo das pequenas e microempresas.

A começar pelo fato de que hoje nada menos que 75% dos novos empreendimentos brasileiros sucumbem em menos de cinco anos. Algo errado está acontecendo com o universo de 5,8 milhões de micro e pequenas empresas que são 99,1% do total de empresas registradas no Brasil. Pois, apesar delas gerarem 53 milhões de empregos, são responsáveis por menos de 20% do nosso Produto Interno Bruto (PIB). Esse índice é um dos mais baixos do mundo. Na grande maioria dos países elas têm uma participação muito maior e, na Itália e na Espanha, por exemplo, respondem por mais da metade dos respectivos PIBs.

Mesmo na América Latina a média é de 35%. Se olharmos para sua participação nas nossas exportações os números são ainda piores: Enquanto na Itália as micro e pequenas empresas respondem por 43% das mesmas, no Brasil elas são responsáveis por apenas 1,2%.

Onde está o problema? Uma pesquisa da FEA/USP, concluída recentemente, constatou que a principal razão é a baixa produtividade. Isso é consequência de vários aspectos que afetam não apenas as pequenas, mas também a totalidade das empresas. Bons exemplos de causas para essa baixa produtividade são a taxa de juros ou a alta carga tributária, mas essas são causas que afetam todos os tipos de empresas. No entanto, a pesquisa apontou que existem três fatores que são específicos e que afetam primordialmente a micro e a pequena.

O primeiro destes fatores é que os brasileiros, em sua maioria, optam por estabelecer atividades em negócios já testados e com baixo nível de inovação tecnológica. Em outros países, é comum, o empreendedor, quando abre seu negócio, tentar introduzir uma inovação tecnológica no mercado enquanto no Brasil isso é raro acontecer. A grande maioria do empreendedor brasileiro abre seu negócio não porque teve uma ideia inovadora, mas por que precisa sobreviver.

O segundo fator importante é de ordem cultural e está relacionado ao fato do pequeno empresário brasileiro enxergar no seu concorrente um inimigo que deva ser abatido, mas nunca um possível aliado para, por exemplo, em conjunto, realizarem exportações que seriam muito difíceis para quem atua sozinho. A união é a razão do sucesso da microempresa italiana, mas isso não existe no Brasil. Na Espanha, com frequência, as micros de um determinado setor se unem e criam um centro de pesquisas que as atenda e beneficie a todas. Finalmente, o terceiro fator é a falta de informação do pequeno empresário. A pesquisa constatou que a grande maioria desconhece desde a existência de linhas de financiamento especiais até os cursos de capacitação gratuitos.

Esses três fatores estão ligados ao fato de se ser pequeno. Como superar isso? Temos um bom modelo baseado em se ajudar quem é pequeno e que funciona muito bem em nossa agricultura que é o modelo da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Nossa agricultura é uma das mais eficientes do mundo, em boa parte graças a essa empresa que foi criada há 38 anos. O modelo ali adotado se baseia na própria Embrapa fazer a pesquisa necessária, desenvolver a tecnologia e disseminar esse conhecimento para os agricultores. Mas não é justamente isso que está faltando alguém fazer para as micro e pequenas empresas? Evidentemente não seria necessário criar uma nova estatal, basta identificar qual das inúmeras instituições que já atuam ligadas à micro e pequena empresa poderia melhor desempenhar esse papel.

Durante a campanha eleitoral a presidente Dilma Rousseff por diversas vezes externou a necessidade de se apoiar muito mais vigorosamente a micro e a pequena empresa brasileira. Ao assumir o governo tem reiterado que sua meta mais importante é extirpar a miséria em nosso país e há poucos dias reafirmou que vai criar o Ministério da Micro e da Pequena Empresa. Os dois temas estão totalmente interligados ou alguém ainda acredita que seria possível gerar empregos para todos os excluídos que queremos incorporar à nossa economia? A saída está em desenvolver o empreendedorismo. Isso significa eliminar a burocracia, facilitar o acesso á credito, reduzir taxas de juros mas principalmente educar e capacitar essa imensa massa de brasileiros desvalidos para que possam ter e administrar o seu próprio empreendimento.

Ajudar a pequena empresa brasileira a ser inovadora, facilitar a realização de consórcios entre elas e disseminar informações importantes que melhorem sua gestão são os fatores que vão criar as condições fundamentais para que elas tenham condições de superar sua crônica baixa produtividade. Só com um segmento de pequenas e micro empresas produtivo e competitivo poderemos atingir o almejado desenvolvimento sustentado.

Autor(es): Paulo Feldmann

Valor Econômico - 28/02/2011 http://www.valoronline.com/

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O pesadelo do cheque especial

Presos ao cheque especial


Com o orçamento estourado, trabalhadores já começam o ano devendo R$ 18,2 bilhões nessa modalidade de crédito

Com o encarecimento do crédito e o aumento das exigências para os financiamentos, o brasileiro começou o ano atolado no cheque especial. Pelos dados do Banco Central (BC), o endividamento nessa modalidade atingiu R$ 18,2 bilhões em janeiro — o maior saldo dos últimos 15 anos. Apenas no primeiro mês de 2011, esse montante cresceu 12,2% em comparação com dezembro do ano passado. Altamente comprometidos com as parcelas de 2010, os trabalhadores estouraram o orçamento por causa dos impostos locais e de mensalidades escolares mais caras. A saída foi recorrer ao cheque especial.

Das linhas disponíveis ao consumo, apenas as destinadas à compra de bens duráveis, como geladeiras, fogões e televisores, tiveram redução nas taxas de juros (-3,5%). Todas as outras subiram. Até o empréstimo com desconto em folha, o mais barato do mercado, encareceu 0,8%. “O enxugamento promovido pelo BC na economia, somado às exigências maiores para a tomada de crédito, levou a isso”, explicou Roque Pellizzaro, economista e presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). “O consumidor, então, foi em busca da facilidade do cheque especial.”

O próprio cheque especial sofreu aumento de juros, numa alta de 1,9 ponto percentual, atingindo 172,6% ao ano. O crédito pessoal também foi elevado. Esse tipo de financiamento teve aumento de 4,2 pontos percentuais, com a taxa chegando a 43,8% ao ano. A consequência direta desse encarecimento, segundo analistas, foi a queda das concessões de empréstimos. Para pessoas físicas, entre dezembro e janeiro, o tombo foi de 9,3%.

Da mesma forma, o recuo também atingiu as empresas, segmento no qual a tomada de recursos diminuiu 19,1%. “A queda para pessoas jurídicas é normal no início do ano. Para as famílias, também tem um pouco disso. Mas, no mês passado, essa tendência foi intensificada em função das medidas prudenciais”, explicou Túlio Maciel, chefe-adjunto do Departamento Econômico (Depec) do BC, em referência às iniciativas do governo para conter o crédito e a inflação.

Expectativas

Na visão de Nicola Tingas, economista-chefe da Associação

Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), esse cenário também é reflexo do humor do consumidor. “Quando se tem uma inflação crescente pela frente e o governo anunciando subida de juros, mexe-se com as expectativas, leva-se um tomador de crédito a adiar sua decisão de consumo”, argumentou Tingas. “O modelo de metas de inflação busca esse efeito.”

O freio no mercado de crédito, segundo Maciel, veio exatamente como o esperado pela autoridade monetária. Mas, a partir de fevereiro, deve começar a perder força. “As medidas têm efeito mais significativo nos primeiros meses. Não esperamos, por exemplo, elevações nos juros tão intensas daqui para a frente”, disse Maciel. Essa tendência citada pelo chefe-adjunto do Depec ficou evidenciada nos dados parciais até 11 de fevereiro, nos quais a concessão diária para as famílias avançou 3,6%.

Confiança em alta

A confiança do consumidor brasileiro cresceu em fevereiro, refletindo o maior apetite para compra de bens duráveis nos próximos meses, mostrou pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV). O índice de confiança subiu 0,8%, passando de 121,6 pontos em janeiro para 122,6 em fevereiro. É o melhor resultado em 33 meses. Entre os 2 mil entrevistados, a parcela de consumidores com intenção de adquirir mercadorias mais caras nos próximos seis meses subiu de 17,4% para 17,9%. No mesmo período, a fatia dos que pretendem reduzir essas compras caiu de 33% para 28%.

Autor(es): Victor Martins

Correio Braziliense - 25/02/2011 http://www.correioweb.com.br/

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

BC pode subir Selic em 0,75 ponto em março

Governo já admite alta de 0,75 na Selic

Para recuperar a credibilidade perdida na política de combate à inflação, o governo já admite, em conversas internas, a possibilidade de o Banco Central aumentar a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual na reunião da próxima semana. Segundo informações obtidas pelo Valor, o governo reconhece que está perdendo a batalha das expectativas inflacionárias e, por isso, trabalha agora contra o relógio para ganhar credibilidade e

Para recuperar a credibilidade perdida na política de combate à inflação, o governo já admite, em conversas internas, a possibilidade de o Banco Central (BC) aumentar a taxa básica de juros (Selic), na próxima semana, em 0,75 ponto percentual. Segundo informações obtidas pelo Valor, o governo reconhece que está perdendo a batalha das expectativas inflacionárias e, por isso, trabalha agora contra o relógio para ganhar credibilidade e reverter o momento ruim.

Avalia-se, em Brasília, que o BC não conseguirá trazer a inflação em 2011 para a meta oficial, de 4,5%. O objetivo agora é evitar que o IPCA fique acima de 6,5%, o limite máximo do intervalo de tolerância do regime de metas, e que caia abaixo de 5,5% ou 5% em 2012. O plano é chegar a dezembro deste ano com os agentes econômicos acreditando que, no próximo ano, a inflação cederá a níveis próximos da meta.

O IPCA, segundo estimativa média do mercado captada pelo Boletim Focus, chegará a 5,79% em 2011 e 4,78% em 2012. Quando se consideram as projeções das cinco instituições financeiras que mais acertam as previsões, a inflação atingirá 6,45% e 5,21%, respectivamente. As expectativas têm piorado de forma consecutiva há 11 semanas. No ano passado, o IPCA foi a 5,9%.

Diante desse quadro, o governo quer dar um choque de credibilidade à sua política econômica. Depois de anunciar corte de R$ 50 bilhões no Orçamento Geral da União deste ano e de aprovar na Câmara dos Deputados salário mínimo de R$ 545 (até o fechamento desta edição, o projeto ainda não tinha sido votado no Senado), o governo decidiu divulgar, antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que começa terça-feira e termina na quarta, o detalhamento dos cortes.

O Palácio do Planalto admite que o mero anúncio do corte orçamentário, feito há duas semanas, não ajudou a melhorar as expectativas do mercado. Os agentes econômicos duvidam da capacidade do governo de efetivamente realizar o ajuste. Por isso, assegurou ontem ao Valor um assessor graduado do governo, o corte a ser divulgado será "crível".

Nesse tratamento de choque contra a inflação, o governo avalia que o Copom pode elevar a taxa Selic em 0,75 ponto percentual, e não em 0,5 ponto, como se previa antes, inclusive no mercado. A decisão depende da diretoria do Banco Central e o Palácio do Planalto nada fará para interferir, mas já se sabe que, diante do quadro adverso, o Copom pode acelerar a alta dos juros agora e, mais adiante, se obtiver resultados positivos no front inflacionário, encurtar o ciclo de aperto monetário.

Armínio Fraga Filho
Ex Presidente
 do Banco Central
Na semana passada, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga defendeu publicamente um aumento maior da Selic neste momento - de 11,25% para 12% ao ano. Armínio é um dos poucos integrantes do mercado que acreditam que o governo não dará trégua ao combate à inflação em 2011. Ele aposta, inclusive, que as medidas fiscais terão o rigor necessário.

O que o governo pretende deixar claro agora é que a presidente Dilma Rousseff dará prioridade total, em seu primeiro ano de gestão, ao combate à inflação. Para atingir o objetivo, usará todos os instrumentos possíveis, inclusive, a adoção de novas medidas macroprudenciais, com reflexos na contenção da demanda agregada.

A área econômica oficial acredita que as expectativas do mercado são muito reativas à inflação corrente, que está alta. Por isso, já sabe que será intensa a batalha das expectativas até meados do ano, uma vez que a inflação acumulada em 12 meses poderá superar os 6,5% até julho.

São duas as razões para acreditar nisso. A primeira é que o IPCA subirá entre janeiro e março por razões sazonais (os aumentos dos preços administrados, como transporte urbano, aluguel e educação) e por causa do efeito das chuvas sobre os preços dos alimentos. A segunda razão decorre de um efeito estatístico. Como a inflação mensal entre junho e agosto do ano passado caiu a zero, no mesmo período deste ano ela parecerá mais alta.

Autor(es): Cristiano Romero

De Brasília
Valor Econômico - 24/02/2011 http://www.valoronline.com.br/

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Oferta e demanda


Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Armando Castelar Pinheiro
Um dos desafios das autoridades econômicas é garantir uma expansão equilibrada entre a capacidade doméstica de oferta e a demanda agregada. Se a primeira anda mais rápido que a segunda, há uma alta do desemprego e da ociosidade das instalações produtivas. Se o oposto ocorre, aumenta a inflação e o déficit externo, com menos exportações e mais importações, para poder suprir o mercado doméstico.

O mundo rico vive há três anos na primeira situação: nos EUA, a taxa de desemprego está há 21 meses acima de 9%, contra 4,9% em média em 1998-2007; na Espanha essa taxa atinge 20,1%, contra 8,3% antes da crise. As autoridades vêm tentando combater esse quadro, mas esbarram nos limites impostos pela necessidade de garantir a solvência da dívida pública – meta que em alguns casos já corre riscos, em função de fatores estruturais, como o envelhecimento populacional – e na impossibilidade de o juro nominal cair abaixo de zero. De fato, chegou-se a temer em 2010 que EUA e Europa entrassem em deflação, o que faria os juros básicos, mesmo em zero, contracionistas, desestimulando ainda mais a atividade econômica.

Os EUA sempre foram ousados nas medidas de estímulo, em parte pelo dólar ser moeda de reserva internacional e pela grande demanda internacional por ativos financeiros americanos, mas também pela intolerância da sociedade americana com elevadas taxas de desemprego. Desta vez não foi diferente: o Fed, o Banco Central americano, expandiu fortemente a quantidade de dólares na economia, tentando gerar inflação, competitividade externa e valorização dos ativos reais. A primeira faz os juros reais ficarem negativos, a segunda aumenta a demanda externa por produtos americanos e a terceira dá às famílias a percepção de maior riqueza, elevando a disposição a consumir.

Em certa medida, essa política tem sido bem-sucedida: não apenas se evitou, pelo menos até aqui, a japanização da economia americana, como há sinais de aquecimento econômico e melhoras no mercado de trabalho. Mas os impactos ainda são modestos, exceto pela valorização das ações, e não há certeza sobre sua sustentabilidade. Em especial, a situação do mercado imobiliário continua ruim e a inflação se concentra nas commodities.

Mais importante, de nossa perspectiva, é que o dinheiro impresso nos EUA, com poucas oportunidades de investimento financeiro rentáveis no país, acaba inflacionando o preço das commodities e fluindo para os emergentes com maiores e mais abertos mercados financeiros, como o Brasil. O resultado é a valorização do real e a expansão do crédito, que alimentam o consumo e o investimento privado. A isso se somam a política fiscal expansionista e algumas reformas institucionais importantes, como a criação do crédito consignado, para produzir um aumento da demanda doméstica superior ao da oferta.

Assim, o Brasil está claramente na segunda situação descrita no primeiro parágrafo. A inflação em doze meses até fevereiro bateu em 6,1%, pelo IPCA-15. A alta em alimentação e bebidas (10,1%) é parte da história, mas não a história completa. Por exemplo, nesse período o aluguel e a entrada de cinema subiram 7,1%, os preços de vestuário e ônibus urbano aumentaram 7,4%, os médicos ficaram 11,2% mais caros e os serviços pessoais 9,9% mais onerosos.

O desequilíbrio entre demanda e oferta também é evidente nas contas externas. Assim, apesar da alta no preço das commodities, atingindo patamares não experimentados há décadas – em dezembro de 2010 o preço das exportações brasileiras em US$ estava 138% acima da média de 2002 – o déficit em conta corrente do ano passado foi 0,8% do PIB maior que o de 2009, em que pese o PIB em dólares de 2010 ter sido inflado pela valorização do real.

Há dois problemas com esse quadro. O primeiro é que o Brasil não tem como se contrapor adequadamente aos efeitos da política econômica dos países ricos, em especial dos EUA. Isso é bem exemplificado pelo que ocorre com a taxa de câmbio, que deve apreciar outra vez este ano, apesar da massiva intervenção do Banco Central na ponta compradora de dólares, a um custo fiscal cada vez mais alto (algo entre 30 e 50 bilhões de reais ao ano).

O segundo problema é que a atual política nos países ricos não vai durar para sempre e quando voltar ao normal vai ter efeitos igualmente fortes, podendo pegar o Brasil mergulhado em desajustes importantes, de uma expansão talvez excessiva do crédito ao consumo à perda de competitividade na indústria. É hora de começar a se preocupar para isso.

Autor(es): Armando Castelar

Correio Braziliense - 23/02/2011 http://www.correioweb.com.br/

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Onde estão as reformas?

Após quase dois meses de governo Dilma, o que podemos dizer sobre sua gestão? Muitos parecem satisfeitos, mas não é fácil entender os motivos. Talvez o relativo silêncio da presidente explique a maior benevolência com a atual ocupante do cargo. Mas esta parece uma razão muito frágil para postura tão obsequiosa.

Até aqui, a imagem de uma gerente eficiente que atua nos bastidores sem muito barulho tem sobrevivido. Mas o que está sendo feito de verdade? Fala-se do enorme corte de R$50 bilhões nos gastos públicos. Mas uma análise mais minuciosa levanta questões importantes.

Para começo de conversa, o ministro responsável pela medida é o mesmo da gestão anterior, o "ilusionista" Guido Mantega, responsável por truques contábeis para atingir a meta de superávit fiscal em 2010. Qual a sua credibilidade para assumir a tesoura agora?

Em segundo lugar, o propagado corte se dará em cima de um Orçamento inflado. Cortar expectativa de aumento de gasto não é o mesmo que reduzir efetivamente a despesa, algo que o setor público deveria fazer urgentemente. Os gastos em 2011 serão maiores do que foram em 2010. Isso sem falar dos malabarismos para expandir o crédito público subsidiado por meio do BNDES.

O inchaço da máquina estatal foi responsabilidade do governo Lula, do qual Dilma foi importante figura. A "herança maldita" vem daquele presidente que garantiu aos eleitores que Dilma era apenas outro nome para Lula. Durante a campanha, a própria Dilma afirmou que não faria ajuste fiscal. Seria um caso de "estelionato eleitoral" então?

Claro que as medidas de maior austeridade fiscal são necessárias. A inflação está em patamares elevados. O Banco Central já iniciou um ciclo de aumento dos juros para conter o dragão, e seria um erro utilizar somente a política monetária nesta batalha. O principal instrumento deve ser justamente a política fiscal, uma vez que os gastos públicos são a causa número um do problema. Mas o corte é tímido, se é que será colocado em prática na íntegra.

O que mais deveria ser feito então? A resposta está na ponta da língua de qualquer economista sério: as reformas estruturais. Enquanto estas mudanças mais profundas não forem realizadas, o governo ficará apenas apagando incêndio com copos d"água, empurrando o problema com a barriga. A presidente Dilma não esboça nenhuma intenção de enfrentar este desafio com coragem e determinação. Ao contrário, ela já deixou claro que não deverá pressionar o Congresso em relação a isso.

Conter o aumento do salário mínimo, passando por cima dos sindicalistas de sua base tradicional de apoio, foi uma conquista. Mas ainda é muito pouco. O rombo previdenciário é uma bomba-relógio, e o "bônus demográfico" cada vez ajuda menos. A população brasileira está envelhecendo, e as contas não fecham. Fingir que o problema não existe somente porque sua explosão não é iminente beira a total irresponsabilidade. Onde está o projeto da reforma previdenciária? Se depender do PT, o modelo de aposentadoria muda, mas para pior.

As leis trabalhistas de nosso país datam da Era Vargas, sob a visível influência do fascismo. As máfias sindicais concentram poder abusivo, e não há flexibilidade alguma entre patrão e empregado. A Justiça do Trabalho adota viés marxista em suas decisões, quase sempre penalizando as empresas. A burocracia é asfixiante e a carga tributária é absurda. Leva-se 120 dias para abrir uma empresa no Brasil, contra 14 dias nos países mais desenvolvidos. Consome-se cerca de 2.600 horas por ano apenas para atender as demandas de nosso manicômio tributário. Empreender num país desses é tarefa heróica. Onde está a reforma trabalhista? Onde está a reforma tributária?

A infraestrutura do país está em péssimo estado. O governo não investe direito porque gasta muito, e ainda prejudica a iniciativa privada com elevados impostos, juros altos e burocracia insana. Enquanto estas questões básicas forem ignoradas, não dá para ficar elogiando a "gerência eficiente" da presidente. É preciso cobrar mudanças concretas.

Entretanto, parece que nossa sonolenta oposição prefere se digladiar entre si, enquanto muitos empresários míopes surfam as ondas criadas pelos ventos externos favoráveis, que em qualquer momento podem mudar de direção. Trata-se de um equilíbrio instável, que pode levar a um cenário de rápida deterioração da economia. Este modelo não é de crescimento sustentável.

Em vez de elogiar a "eficiência" da presidente na gestão, todos deveriam, com um brado retumbante, perguntar: onde estão as reformas?

Autor(es): Agência O globo:Rodrigo Constantino

O Globo - 22/02/2011 http://www.oglobo.com.br/

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Alta do açúcar já provoca retração nas compras


Com a persistente alta do açúcar no mercado internacional, o consumo da commodity começa a perder fôlego, também à espera da chegada da safra brasileira, a partir de abril. Alguns agentes do mercado acreditam que em razão dessa retração nas compras, os preços podem passar por um temporário arrefecimento nos próximos meses.

A confirmação desse cenário dependerá sobretudo de quando começará a safra brasileira. A largada para a temporada 2011/12 no Centro-Sul do país ainda é incerta por alguns fatores, afirma Michael McDougall, da consultoria Newedge. Entre eles está o fato de praticamente não haver cana "bisada" nesta temporada, ou seja, que ficou em pé da safra passada para esta. Assim, as usinas do Centro-Sul passam a depender em grande parte do desenvolvimento da cana que foi cortada no ano passado.

"Além disso, o efeito deste fim do La Niña pode significar a chegada de mais chuva nos próximos meses, o que pode postergar o começo da safra", diz McDougall, que participou, ao lado de representantes da indústria de açúcar da 7ª Conferência de Açúcar em Dubai.

De qualquer forma, refinarias começam a reagir aos preços altos e freiam suas importações. A Companhia Nacional de Açúcar da Síria, a maior do país, reduziu fortemente suas aquisições. De acordo com o presidente da companhia, Najib Assab, a retração está ocorrendo como efeito da menor demanda do consumidor final. "Nos últimos dois meses, vimos uma retração de mais de 50%", diz Assab.

Sem citar volumes, o presidente da Al Khallej Sugar, a maior refinaria do mundo com sede nos Emirados Árabes, Jamal Al Ghurair, confirma o movimento. "As refinarias estão, sim, reduzindo a demanda por causa desses altos preços", diz Al Ghurair.

A diferença entre as cotações do açúcar branco, na bolsa de Londres, e as do bruto, em Nova York, tornam evidente a menor atratividade do refino. "Se o prêmio pago pelo açúcar branco não é suficiente para justificar a compra do bruto, as refinarias reduzem suas importações", afirma McDougall.

Independentemente de quanto vai durar o movimento de retenção das compras, apesar de maiores, os estoques mundiais ainda não se recuperarão em 2011/12 dos últimos três anos de déficit na produção da commodity. A previsão da consultoria Kingsman, que encerra amanhã sua 7ª Conferência de Açúcar em Dubai, é de um superávit mundial da commodity da ordem de 6 milhões de toneladas, o que traria o mercado mundial mais perto de um equilíbrio, segundo Jonathan Kingsman, presidente da consultoria.

A produção total está projetada em 173,2 milhões de toneladas para um consumo de 163,6 milhões de toneladas. A projeção já considera as perdas registradas em vários países produtores de açúcar, como Austrália, Rússia e China, além de uma moagem estável para o Brasil. "Alguns analistas estão prevendo um cenário mais apertado. Mas é o clima que vai definir a condição real da safra", afirma o presidente da Kingsman.

O cenário que parece se desenhar remete ao ocorrido em igual época do ano passado. Os preços estavam altos nos primeiros meses do ano, os países postergaram suas importações e consumiram seus já apertados estoques. Quando as cotações caíram fortemente com a entrada da safra brasileira, o consumo de açúcar voltou abruptamente, provocando grandes filas, superiores a 120 navios, nos portos do Brasil, naquele momento o único fornecedor de açúcar para o mundo.

McDougall destaca que esse movimento de queima de estoques já começou entre os grandes importadores, também como forma de pressão para que os preços baixem. A China anunciou a liberação de 1,5 milhão de toneladas de suas reservas e a Rússia sinaliza que tomará o mesmo caminho, provavelmente com o consumo de 300 mil toneladas de seus estoques, diz McDougall. "Estão todos esperando a safra brasileira começar. Mas ela pode atrasar", pondera o especialista da Newedge.

A jornalista viajou a convite da Shree Renuka

Autor(es): Fabiana Batista

De Dubai
Valor Econômico - 21/02/2011 http://www.valoronline.com.br/

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os cinco desafios do SUS

A consolidação nos últimos 22 anos do Sistema Único de Saúde, com sua generosa proposta de acesso universal e integral de qualidade, é das mais importantes heranças da Constituição de 88. Avançamos, mas estamos a léguas de distância do sistema público de saúde dos sonhos. A saúde no Brasil é melhor que há 20 anos, mas são inúmeros os pontos de estrangulamento.

Nesse ciclo que se abre com a posse da nova presidente da República, do Congresso, de governadores e assembleias legislativas, é preciso colocar como tarefa central o ataque aos obstáculos que inviabilizam avanços nas políticas públicas de saúde. Cinco são os desafios, adiante indentificados.

1) Mudança do modelo de atenção: somos presididos pela lógica hospitalocêntrica. A oferta dos serviços se apresenta à população de forma desarticulada. O objetivo deve ser a construção de redes de assistência integral coordenadas por uma atenção primária à saúde extremamente qualificada. É fundamental que hospitais, UPAs, centros de especialidades, centros de diagnóstico, formem um todo articulado, orquestrado pela estratégia de saúde da família cada vez mais fortalecida. Experiências implementadas em Minas Gerais, como o Canal Minas Saúde, o Programa de Educação Permanente, o Plano Diretor da Atenção Primária e a Rede de Urgência e Emergência oferecem boa pista sobre os caminhos a serem percorridos. Sem investirmos na prevenção, promoção da saúde e atenção primária de qualidade para enfrentar o predomínio das doenças crônicas, ficaremos enxugando gelo na porta de hospitais e UPAs.

2) Mudança do modelo de financiamento. Impossível garantir o direito constitucional de acesso integral e universal ao sistema de saúde com pouco mais de R$ 700 para habitantes/ano de investimento. A comparação a outros países com sistemas semelhantes e com saúde complementar (um plano com cobertura próxima ao que propõe o SUS custaria em média R$5 mil/ano) evidencia forte subfinanciamento. Não há mágica. O SUS precisa de muito mais dinheiro. O gargalo é financeiro. Há resistência à criação de impostos. A carga tributária é pesada. Cabe ao governo federal e ao Congresso descobrirem alternativas de rearranjo orçamentário para viabilizar o aumento de investimentos na saúde.

3) Mudança no modelo de gestão. O dinheiro é curto, mas é possível fazer mais e melhor no uso de cada real. Profissionalizar a gestão, incorporar modernas ferramentas de gerenciamento, evitar duplicação de meios, clarear o pacto federativo setorial, inovar nas estruturas, introduzir ganhos de escala, permitirá avanços a partir do aumento da produtividade dos recursos. Construção de modernos sistemas de regulação, introdução do cartão SUS e do prontuário eletrônico, racionalização da estrutura de serviços hospitalares fragmentada em uma rede pulverizada e com ineficiências podem produzir resultados. Também a quebra de preconceitos e a adoção de estruturas gerenciais flexíveis (OSs, OSCIPs, fundações públicas de direito privado) contribuirão para melhorar o desempenho do sistema.

4) Mudança do modelo de incorporação tecnológica. Diariamente são descobertos medicamentos, novas linhas terapêuticas e sofisticados equipamentos hospitalares. São avanços importantes, mas caros. Sem a preocupação de restringir o acesso, mas conscientes de que não podemos ter postura passiva e ingênua diante de tão poderoso mercado, o SUS precisa solidificar forte regulação sobre a introdução de novas tecnologias. O caminho poderia ser a criação de agência específica para tratar do assunto. Teríamos impacto positivo, atenuando a judicialização da saúde.

5) Mudança do modelo de organização do mercado de trabalho. Aspecto complexo, em que a capacidade de indução dos gestores tem limites claros, mas precisa avançar. Como estimular jovens médicos a se especializarem em saúde da família, pediatria, clínica geral e geriatria? Como fixar profissionais na Amazônia, no Nordeste, no Jequitinhonha? Como lidar com a realidade das cidades que, pobres e distantes, pagam altos salários e ainda assim não conseguem atrair médicos? Essa discussão precisa ser aprofundada.

Todas as pesquisas apontam a saúde como prioridade um da população. “O SUS não é um problema sem solução, é uma solução com problemas”. Cabe a todos que têm responsabilidade com a construção da cidadania se debruçar sobre essa agenda de desafios e garantir avanços para que a chama da reforma sanitária de 88 não se apague.

Autor(es): Marcus Pestana

Correio Braziliense - 18/02/2011 http://www.correioweb.com.br/

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Câmara derruba emendas e aprova salário mínimo de R$ 545

Emendas que elevavam mínimo para R$ 560 e R$ 600 são rejeitadas.
Governo Dilma Rousseff enfrentou primeiro teste do ano no Congresso.

 
Com a rejeição de duas emendas que previam reajustar o salário mínimo para R$ 560 (do DEM) e R$ 600 (do PSDB), a Câmara dos Deputados aprovou integralmente, no início da madrugada desta quinta (17), o projeto de valorização do mínimo apresentado pelo governo.

Com isso, o salário mínimo, atualmente em R$ 540, passa a R$ 545. A votação foi o primeiro grande teste da capacidade de coesão da base governista na Câmara.

Para entrar em vigor, a proposta necessita agora de aprovação no Senado, onde a votação deve acontecer na próxima semana. Se os senadores introduzirem modificações, a proposta terá de voltar para a Câmara. Do contrário, será enviada para sanção presidencial.


Deputados se manifestam na sessão de votação do reajuste do salário mínimo (Foto: Celso Jr. / Ag. Estado)

A discussão e votação na Câmara durou quase dez horas - a ordem do dia para votação do reajuste do mínimo começou pouco antes das 15h e terminou à 0h25 desta quinta (17).
Antes da votação das emendas do PSDB e do DEM, o plenário aprovou em votação simbólica (pelos líderes das bancadas) o texto básico do projeto de lei do Executivo que estabelece diretrizes para a valorização do salário mínimo entre 2012 e 2015 e fixa em R$ 545 o valor do novo mínimo. A proposta tem como base para os reajustes o índice da inflação mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) dos dois anos anteriores.

Em seguida, foram votadas, na forma de destaque em separado, as emendas do PSDB e do DEM. A emenda dos tucanos propunha um mínimo de R$ 600. O plenário rejeitou por 376 votos contra 106 a favor da emenda e sete abstenções A emenda do DEM, que estipulava um mínimo de R$ 560, caiu por 361 votos, com 120 votos a favor e 11 abstenções.

Ao final da votação das emendas, o presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS), abriu uma nova sessão extraordinária para votação de um destaque apresentado pelo deputado Roberto Freire (PPS-SP).

Freire questionava a constitucionalidade de um dos artigos do projeto do governo, segundo o qual, com a aprovação da política para o salário mínimo até 2015, o valor do mínimo nos próximos anos passará a ser fixado por decreto pelo governo, com base nos critérios estipulados pelo projeto.

Segundo Freire, com isso o Congresso perderia a prerrogativa de fixar o valor do mínimo ano a ano. Na votação, a proposta do deputado do PPS foi rejeitada por 350 votos contra, 117 a favor e duas abstenções.

Urgência

Na noite de terça (15), o projeto de lei do salário mínimo teve aprovado o regime de urgência, para que pudesse ser votado nesta quarta. Enquanto a matéria não fosse apreciada, nenhum outro projeto poderia ser votado pela Câmara.

A votação do salário mínimo foi o primeiro grande teste do governo da presidente Dilma Rousseff na Câmara. Nesta terça, o governo enviou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para defender a proposta do governo na sessão especial que a Câmara realizou para debater o tema com centrais sindicais, empresários e parlamentares.

Os ministros de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, e da Casa Civil, Antonio Palocci, assistiram juntos à votação do salário mínimo no Palácio do Planalto. A presidente Dilma Rousseff deixou a sede de governo às 22h54, pouco depois de a proposta de R$ 600 do PSDB ser rejeitada.

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, disse que a base aliada mostrou unidade. “A dissidência é tão insignificante que não vale a pena discutir esse assunto. A fidelidade da base aliada está aprovada e foi testada e fortalecida nesse debate político. Não passamos por cima de ninguém. Ganhamos o debate político e ganhamos a votação”, disse.


Bom pessoal, o mais imprescinantede tudo isso é que essa base governista é promíscua, mas é claro que isso não é novidade alguma, pois bem, mas o que mais me chateia é saber que alguns deputados da finada esquerda brasileira e que no ano de 2000 reclamaram do Mínimo aumento do Mínimo como mostra a foto abaixo e o que é pior na discussão atual é que o Líder da UDR deputado Ronaldo Caiado que hojes está na oposição se apresentou como se fosse de esquerda!!!! que horrível, como disse meu amigo Hugo Meza, "coisa da política"



Nao precisamos nos esforçar pra saber quem são os que aparecem na foto, pois bem, é a mesma quadrilha de hoje, mas como uma grande diferença, hoje eles ganham muito mais, pois para reajustar o salário deles não houve muita discussão sobre se podia ou não devido ao orçamento, simplesmente aumentaram.
 
Da esquerda para a direita, vocês vêem os então deputados Aloizio Mercadante, Antonio Palocci, José Dirceu, Babá (hoje no PSOL) e Ricardo Berzoini. Todos eles protestam contra o reajuste do mínimo proposto pelo governo FHC, que passava de R$ 136 para R$ 151 — 11,11% de reajuste. A inflação de 1999 tinha sido de 8,94%. No ano seguinte, 2001, o mínimo foi para R$ 180 (19% de elevação), contra uma inflação, em 2000, de 5,97%. O salário votado para 2002 foi de R$ 200, com reajuste de 11,11%, contra uma inflação, em 2001, de 7,67%.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

PIB cresce 7,8% em 2010, estima Banco Central

Instituição divulgou nesta quarta-feira o IBC-Br, antecedente do PIB.
Valor ficou pouco acima da estimativa do mercado, de 7,6% de expansão.


O nível de atividade econômica do país cresceu pelo sétimo mês consecutivo em dezembro do ano passado, e, no acumulado de 2010, avançou 7,8%, segundo números divulgados nesta quarta-feira (16) pelo Banco Central. O valor estimado pela autoridade monetária ficou um pouco acima da previsão do mercado financeiro, que espera um crescimento de 7,6% para o último ano.

No ano passado, informou a autoridade monetária, o Índice de Atividade Econômica do BC, o IBC-Br, somou 138,68 pontos, pela média, contra 128,64 pontos em 2009. Os dados do PIB de 2010 serão divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) somente em março deste ano.

Desaceleração ao longo do ano

Os números do IBC-Br mostram uma desaceleração do ritmo de crescimento ao longo de 2010. No acumulado de janeiro a novembro deste ano, dados do BC revelam que o crescimento da economia brasileira ficou em 8,17% contra igual período do ano passado.

No acumulado de janeiro a outubro, a taxa de expansão estava em 8,48% sobre o mesmo período de 2009. Até setembro, a expansão somava 8,84%, contra 9,65% até julho e 10,29% nos cinco primeiros meses deste ano (até maio). De janeiro a abril, a expansão somava 10,5%

IBC-Br

O IBC-Br é um indicador criado para tentar antecipar o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) e ajudar a autoridade monetária na definição da taxa básica de juros (Selic). O Banco Central explicou que o IBC-Br "constitui uma medida antecedente da evolução da atividade econômica".

Antes divulgado por estados, e por regiões, desde o início deste ano o indicador passou a ser calculado com abrangência nacional. O índice do BC incorpora estimativas para a agropecuária, da indústria e do setor de serviços, além dos impostos.

"A estimativa do IBC-Br incorpora a produção estimada para os três setores da economia acrescida dos impostos sobre produtos, que são estimados a partir da evolução da oferta total (produção+importações)", explicou o Banco Central, por meio do relatório de inflação de março.

Definição dos juros

O IBC-Br é uma das ferramentas utilizadas pelo Banco Central para definir a taxa básica de juros da economia brasileira. Atualmente, os juros básicos estão em 11,25% ao ano. A taxa foi elevada na reunião do Copom de janeiro em 0,5 ponto percentual para controlar as pressões inflacionárias. A previsão dos economistas dos bancos é de que os juros subirão para até 12,5% ao ano em 2011.

Para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), a previsão do mercado para 2011 está em 5,75%. Deste modo, a estimativa dos analistas ainda está acima da meta central de inflação de 4,5% para este ano, mas dentro do intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo (entre 2,5% e 6,5%).

Alexandro Martello Do G1, em Brasília

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Vendas no varejo fecham 2010 com alta de 10,9%, mostra IBGE

Trata-se do maior resultado acumulado desde 2001. Vendas dos segmentos de hipermercados e eletrodomésticos puxaram alta.


O volume de vendas do comércio varejista brasileiro ficou estável em dezembro, em relação a novembro, mas fechou o ano de 2010 com aumento de 10,9%, segundo informou, nesta terça-feira (15), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se da maior alta acumulada desde 2001.

Vendas no varejo fecham 2010 com alta de 10,9%, mostra IBGE
“Se a economia está melhor, se você se sente com mais dinheiro, você muda seu padrão de consumo e passa a comprar mais, e produtos de mais qualidade. Você deixa de comprar frango e passa a comprar mais carne, ou deixa de comprar margarina e passa a comprar manteiga, melhorando o seu padrão de consumo”, disse Reinaldo Silva Pereira, gerente de Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE.

Em dezembro, a receita nominal registrou aumento de 15,6% na comparação com o mesmo período de 2009 e de 14,5% no ano todo.

“Em 2008, tivemos a crise financeira e a bolha imobiliária nos EUA. Naquele ano, nós não fechamos com dois dígitos. Até iríamos fechar, mas a crise não deixou. No segundo semestre de 2009, a economia brasileira começou a se recuperar. E em 2010, esse crescimento transbordou e cravou nos dois dígitos.”

No acumulado em 2010, entre os setores pesquisados pelo IBGE, o de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo registrou avanço de 9% no volume de vendas sobre 2009. Segundo o instituto, o setor exerceu o principal impacto no resultado anual do setor varejista, representando 39,9% da taxa anual do varejo.

"Este desempenho reflete, principalmente, o aumento do poder de compra da população decorrente do aumento da massa de salário da economia (obtida pela melhora da renda e do emprego) e da expansão do crédito, conforme revelado pelos dados da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE e das Operações de Crédito do Sistema Financeiro registradas pelo Banco Central do Brasil, respectivamente", informou o IBGE, por meio de nota.

Segundo o gerente, conforme a renda vai aumentando, a tendência é de se gastar mais com alimentação. "As classes mais baixas gastam mais com alimentação, mas as classes mais ricas, que já estão bem alimentadas, vão em busca de outros produtos”, afirmou.

As 27 unidades da Federação mostraram aumento nas vendas, com maior expansão vista em Tocantins (71,5%), Rondônia (23,0%), Acre (20,1%), Paraíba (16,1%) e Maranhão (15,8%).

Também tiveram aumentos expressivos as vendas nos segmentos de móveis e eletrodomésticos (alta de 18,3% em relação ao ano anterior), sendo a atividade com o segundo maior impacto (27%) na taxa anual.

“A valorização do câmbio fez com que o preço de eletrodomésticos ficasse mais barato (..) No início do ano, a redução do IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] contribuiu para o aumento da venda dos eletrodomésticos.”

As vendas do ramo outros artigos de uso pessoal e doméstico tiveram a terceira maior influência em 2010 (7,4%) e apresentou alta de 8,8% no ano. Em seguida, em quarto lugar, aparece o segmento de tecidos, vestuário e calçados (alta de 10,7% sobre 2009). "Este resultado é explicado pela recuperação do mercado interno frente à crise financeira iniciada no final de 2008, quando a atividade começou a registrar resultados negativos, devidos principalmente à valorização do real", diz a nota.

Outras influências partiram de atividade de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, com avanço de 11,9%, exercendo a quinta maior contribuição, seguida por combustíveis e lubrificantes, com varição acumulada de 6,6% em 2010. Depois, estão a atividade de equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação, com aumento de 24,1% sobre 2009 e o segmento de livros, jornais, revistas e papelaria, cujas vendas subiram 12%.

Em dezembro

Das oito atividades do comércio pesquisadas pelo IBGE, com ajuste sazonal, seis apresentaram aumentos no volume de vendas: tecidos vestuário e calçados (3,4%); equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (2,8%); livros, jornais, revistas e papelaria (2,3%); artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (1,6%); móveis e eletrodomésticos (1,4%); e combustíveis e lubrificantes (1,1%).

Na contramão, com recuos, estão os segmentos de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,3%) e outros artigos de uso pessoal e doméstico (-1,0%).

Por região

Com ajuste sazonal, o volume de vendas apresentou avanço em 16 dezesseis estados, com destaque para Roraima (3,8%), Acre (3,7%) e Piauí (2,0%). Por outro lado, 11 estados tiveram variações negativas, com as principais baixas partindo de Amapá (-1,9%), Bahia (-1,4%), Alagoas (-1,3) e Paraná (-1,3%).

Já na comparação com o mês de dezembro de 2009, as 27 unidades da Federação mostraram aumento nas vendas, com maior expansão vista em Tocantins (71,5%), Rondônia (23,0%), Acre (20,1%), Paraíba (16,1%) e Maranhão (15,8%).

Do G1, em São Paulo e no Rio
A gestão Dilma e o Governo Lula


Completado já um mês da posse da presidente Dilma Rousseff, torna-se inevitável o surgimento de indagações sobre possíveis similaridades e diferenças entre o seu governo e o do antecessor. Proponho que se faça uma comparação com base em três diferentes aspectos: quanto ao estilo de se relacionar com a sociedade e a imprensa; com relação a alguns problemas e decisões tomadas para enfrentá-los; e aos desafios que se fizeram presentes no início dos dois governos.

Quanto à forma de se relacionar com a sociedade e a imprensa, a diferença é evidente. Lula tinha uma habilidade enorme para se fazer compreendido e, talvez por isso, ultrapassava os limites do bom senso quando resolvia dar pitos públicos na imprensa sempre que se sentia desconfortável por alguma crítica. Aliás, esse foi um dos principais pontos de desgaste no final do seu segundo mandato e que também acabou causando danos à imagem de sua candidata, uma vez que representantes de alguns setores disseminaram a ideia de que o lulismo representava um risco para a liberdade de opinião e que isso se estenderia ao governo seguinte caso o PT permanecesse na Presidência da República. Dilma chegou ao Planalto ainda aprendendo a se relacionar com a sociedade e com a imprensa. No discurso da vitória fez questão de desfazer o mal-estar com os meios de comunicação, ao enfatizar que seu governo teria como princípio a defesa da liberdade de opinião, reafirmando preferir "o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras".

A trajetória política percorrida por ambos pode ser uma das explicações para essa diferença de atitude. Talhado para a atividade política no meio sindical, em que o intenso uso da retórica e a relação direta com os trabalhadores são peças-chave para a sobrevivência do líder, Lula levou para a Presidência tais características. Não era incomum ele se misturar à multidão, para desespero de seus seguranças, a fim de cumprimentar pessoas. Improvisava discursos, além de recorrer a expressões muito comuns ao cotidiano para se fazer compreendido. Além disso, o ex-presidente já havia sido deputado federal, disputado uma eleição para o governo do Estado de São Paulo e três eleições presidenciais consecutivas.

De perfil técnico, Dilma disputou seu primeiro cargo eletivo apenas nas eleições presidenciais de 2010. Até então sua experiência pública se limitava a cargos de primeiro escalão na prefeitura de Porto Alegre, no governo do Rio Grande Sul e no próprio governo Lula. Portanto, ainda não tinha experimentado uma disputa eleitoral que a expusesse publicamente e exigisse dela habilidades de retórica e de relacionamento com os mais diferentes grupos sociais que formam a nossa sociedade. Diferente de Lula, sua trajetória prescindiu de uma relação direta com o grande público e o mais comum no seu cotidiano era conduzir discussões técnicas típicas dos cargos que ocupou. Seu perfil técnico pode explicar por que, em comparação com seu antecessor, suas aparições públicas neste início de governo têm sido muito tímidas.

Alexandre Tombini - Pres. BACEN
Quando a comparação recai sobre decisões de governo, tanto as similaridades quanto algumas diferenças se fazem presentes, dependendo do tema que está sendo posto em questão. Nos campos das políticas econômica e social, até o presente momento não existem diferenças. Quando Dilma indicou Alexandre Tombini para presidir o Banco Central (BC), ela assegurou a autonomia de fato do BC e que a mudança de comando não poria em risco os princípios da política econômica de Lula, que se basearam na manutenção do regime de metas da inflação, no câmbio flutuante e na responsabilidade fiscal. Com relação às políticas sociais, a marca da continuidade é ainda mais evidente: o Programa Bolsa-Família, ações voltadas para o combate à pobreza por meio de diferentes iniciativas, incluindo as do PAC, programas como o ProUni e o Sisu, dentre outros, que são marcas vivas de seu antecessor, permanecem intactos e como vitrines na gestão Dilma Rousseff.

Algumas diferenças surgem de forma mais evidente na política externa. Recentemente, indagada sobre a questão dos direitos humanos, em entrevistas para o jornal The Washington Post e para a imprensa argentina, Dilma não apenas criticou a posição adotada pela diplomacia brasileira, no final do governo Lula, que se absteve de apoiar uma resolução da ONU condenando o Irã por violações aos direitos humanos, como também destacou a necessidade de protestar contra o que chamou de falhas do regime cubano nessa questão. Vale lembrar que Lula desenvolveu boas relações com o Irã e recebeu, mesmo diante de protestos de setores da sociedade brasileira e de parte da comunidade internacional, a visita oficial do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Além disso, criticou prisioneiros políticos de Cuba, comparando-os a delinquentes, no momento em que estes entraram em greve de fome para pressionar por libertação.

Quanto aos desafios de início de governo, as similaridades permanecem. A gestão Dilma vem adotando o aumento da taxa Selic como o principal instrumento de controle da inflação. As reformas política, tributária e da Previdência despontam como prioritárias. Entretanto, com muito mais ênfase que o governo anterior, a presidente da República trouxe algumas questões como bandeiras. No seu discurso da vitória enfatizou que zelaria pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público, assim como também destacou que tratará sempre com transparência metas, resultados e dificuldades de seu governo. Se isso ocorrer, e ela conseguir manter os inegáveis ganhos sociais e econômicos da era Lula, deixará sua marca perante a sociedade brasileira, conseguindo assim se afirmar definitivamente como uma liderança política com projetos próprios.

Autor(es): Marco Antonio Carvalho Teixeira

O Estado de S. Paulo - www.estadao.com.br

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Diesel é o combustível que mais polui no Brasil

Diesel, combustível que mais polui, já responde por 53% das emissões de CO2

O diesel, usado principalmente no transporte de carga, é o combustível que mais tem colaborado para as emissões pelos escapamentos de dióxido de carbono (CO2), o principal gás de efeito estufa, no Brasil. Em 2009, o diesel respondeu por 53% das emissões do transporte rodoviário do País, seguido pela gasolina, com 26%.

O primeiro inventário nacional de emissões veiculares mostra que a grande participação desse derivado do petróleo nas emissões de gases que provocam o aquecimento global tende a se manter: em 2020, deve ser responsável por 49% das emissões de CO2.

Para reverter essa situação, especialistas que participaram da elaboração do relatório afirmam que o País não pode apenas centrar sua preocupação em substituir a gasolina pelo álcool, com os carros flex fuel. "A troca é importante, mas não resolverá o problema", diz André Ferreira, diretor-presidente do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), que integrou o grupo de trabalho criado pelo governo para fazer o inventário.

O álcool também emite gases-estufa, mas a cana-de-açúcar compensa parte importante dessas emissões ao absorver CO2.

O diesel tem outro problema no Brasil: possui alta concentração de enxofre, o que é bastante prejudicial para a saúde da população. Já deveria estar em uso desde 2009 no País um diesel de melhor qualidade e menos poluente, mas houve um adiamento da medida

Segundo Ferreira, para reduzir as emissões é importante investir nos motores e em logística para melhorar a eficiência do transporte rodoviário de carga. Mas, principalmente, é preciso priorizar outros tipos de transporte, como o ferroviário.

Nos EUA, no Canadá, na Austrália e na Rússia, por exemplo, o transporte ferroviário da carga tem uma participação muito maior do que no Brasil. Na Rússia, por exemplo, o transporte de mercadorias sobre trilhos atinge 81%, contra 8% do rodoviário. Já no Brasil, 58% das cargas circulam por rodovias, enquanto 25% por ferrovias.

O inventário, ao identificar as responsabilidades pelas emissões, pode orientar o governo em suas políticas públicas. A secretária nacional de Mudanças Climáticas, Branca Americano, considera a realização do inventário "um grande avanço". Para ela, é preciso investir no biodiesel e repensar o transporte. "O Brasil se desenvolveu muito calcado no transporte rodoviário."

Ainda não há uma definição sobre de quanto em quanto tempo a atualização do inventário poderá ser feita, mas ela diz que "não se pensa em parar por aqui".

Expectativa. A frota do País (carros de passeio, caminhões, ônibus e motocicletas) passou de 9,3 milhões de veículos em 1980 para 38,2 milhões em 2009 - aumento de 310,7%. As emissões de CO2 do transporte rodoviário passaram de 65 milhões de toneladas para 167,1 milhões de toneladas (aumento de 156,6%).

Em 2020, a expectativa é de que a frota chegue a 48,7 milhões de veículos e o setor de transporte rodoviário emita 267,5 milhões de toneladas de CO2.

Por outro lado, é possível notar queda da emissão dos chamados "poluentes locais", como o monóxido de carbono (CO) e material particulado (MP), que pioram a qualidade do ar. Isso ocorreu por causa de decisões do Conama que exigiram inovações tecnológicas nos veículos e melhoria dos combustíveis.

O lançamento para a atmosfera do MP - mistura de poeiras e fumaça - cresceu até 1997, quando foram emitidas 69 mil toneladas do poluente. Em 2009, elas corresponderam a menos da metade do observado naquele ano.

Autor(es): Afra Balazina

O Globo - 11/02/2011 www.oglobo.com.br