quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lagarde é escolhida como diretora-gerente do FMI


Lagarde havia obtido o apoio oficial do governo brasileiro, da China, da Rússia e dos Estados Unidos


Christine Lagarde

O conselho executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou nesta terça-feira (28/6) que selecionou a francesa Christine Lagarde para o posto de diretora-gerente da entidade.

Ela disputava com o mexicano Agustín Carstens o posto que foi deixado por Dominique Strauss-Kahn, após envolvimento em escândalo sexual. O conselho do Fundo afirmou que, embora Lagarde tenha sido escolhida, ambos os candidatos eram qualificados para o posto.

Com 55 anos, Lagarde foi ministra das Finanças da França desde junho de 2007. Antes disso, havia atuado como ministra de Comércio Exterior, desde 2005, nomeada por Dominique de Villepin, então primeiro ministro francês.

Lagarde havia obtido o apoio oficial do governo brasileiro, da China, da Rússia e dos Estados Unidos para a presidência da entidade.

O conselho, composto por 24 membros, escolheu Lagarde por unanimidade, como é costume do órgão.

Brasil Econômico (redacao@brasileconomico.com.br) www.brasileconomico.com.br

segunda-feira, 27 de junho de 2011

COMO OS MERCADOS QUEBRAM

Livro faz relação entre crise e pensamentos econômicos
Autor descreve contribuição daqueles que apontaram falhas no mercado

O GRANDE VILÃO DA HISTÓRIA, PARA O AUTOR, FOI ALAN GREENSPAN, QUE PRESIDIU O FED, O BC AMERICANO

Nos últimos 40 anos o pensamento econômico se afastou da realidade e se revestiu de utopia. Autoridades abraçaram a nova ideologia e fecharam os olhos para distorções e abusos que se formavam no mercado financeiro. Isso resultou na crise global de 2007-2008.

Essa é a ideia central de "Quando os Mercados Quebram", do jornalista britânico John Cassidy, que trabalha para a prestigiosa revista "The New Yorker".

O livro explica como surgiu a defesa da tese de que um mercado livre de amarras é eficiente porque "recursos físicos e humanos são dirigidos para onde mais se precisa deles, e os preços estão vinculados a custos".

Cassidy mostra como pensadores que vieram depois do pai da ideia -Adam Smith- avançaram e aprimoraram a teoria do economista britânico.

Para ele, esse grupo de economistas dos séculos 18 e 19 era menos dogmático a respeito da eficiência do livre mercado do que fervorosos defensores mais recentes.

Segundo Cassidy, Smith e outros economistas, como o britânico John Stuart Mill, alertavam para os distúrbios no sistema financeiro e defendiam a necessidade de regulação governamental.

"A noção de que os mercados financeiros são mecanismos racionais e autorreguladores é invenção dos últimos 40 anos", afirma o autor. Essa é a essência do que ele chama economia utópica.

O autor descreve a contribuição dos economistas que apontaram falhas do livre mercado, como incertezas, informação imperfeita e comportamento de manada.

Os economistas americanos Milton Friedman e Robert Lucas são citados como expoentes do pensamento econômico utópico, que ignorou esses problemas. Cassidy mostra distorções desnudadas pela crise, cujos sinais foram ignorados.

"Quando o preço de um patrimônio qualquer sobe de 20% a 30% ao ano, ninguém que o possua ou negocie quer ouvir falar que sua riqueza súbita é ilusória", diz ele.

O grande vilão da história, para o autor, foi Alan Greenspan, que presidiu o Fed (Federal Reserve, banco central americano) entre 1987 e 2006. Cassidy descreve como Greenspan manteve uma visão cega e fervorosa em relação à eficiência dos mercados livres de regulação governamental, mesmo perante sinais claros de uma bolha.

Ben Bernanke, sucessor de Greenspan e atual presidente, seria o culpado coadjuvante já que quando assumiu o bastão, em fevereiro de 2006, "não fez esforço algum para mudar a posição não intervencionista do Fed".

Cassidy diz que Greenspan e Bernanke ignoraram a função do Fed de "retirar a tigela de ponche quando a festa engrena" definido por outro ex-presidente da casa (William McChesney Martin).

A conclusão tem certo tom de ceticismo em relação à reformulação do pensamento econômico "com base na realidade" e aos esforços para criar uma regulação que coíba problemas como os que levaram à crise.

(ÉRICA FRAGA)

AUTOR John Cassidy
EDITORA Intrinseca
390 págs

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Enriquecimento de Sérgio Cabral



Dize-me com quem andas, Sergio Cabral, e todos saberão que tipo de governante você se tornou.

Carlos Newton

Por muito menos, pediram o impeachment de Fernando Collor. Não há comparação entre as trajetórias do então presidente e a do atual governador do Rio de Janeiro. Os “empresários” Marcelo Mattoso de Almeida, que morreu pilotando o helicóptero na Bahia, Fernando Cavendish, Sergio Luiz Côrtes da Silveira e Arthur Cesar Soares de Menezes Filho – são estes os principais parceiros de Sergio Cabral Filho, um jovem suburbano que abraçou a política e daí passou a flertar com a elite e frequentar o eixo Leblon-Angra dos Reis-Miami-Paris.

Parceiro 1Marcelo Mattoso de Almeida era um ex-doleiro, que se autoexilou em Miami, fugido de uma operação da Polícia Federal, onde abriu uma revendedora de carros de luxo (por coincidência, o nome da agência era First Class, o mesmo do empreendimento na Bahia). Voltando ao Rio de Janeiro, passou a frequentar a casa do governador, tornando-se assíduo no Palácio Laranjeiras. Por coincidência, há informações circulando de que na semana passada Cabral voltou de Paris fazendo escala em Miami.




Parceiro 2Fernando Cavendish, dono da Delta Construções, era um empreiteiro de terceiro time e rapidamente se tornou um dos mais ricos do país, depois que se aproximou do governador Sergio Cabral Filho, ganhando as mais importantes licitações do Estado do Rio de Janeiro, inclusive a reforma do Maracanã e a construção das novas lâminas do Tribunal de Justiça.




Sem fotos do Rei Arthur
Parceiro 3Arthur Cesar Soares de Menezes, o “Rei Arthur”, assim chamado porque é o grande artífice e planejador das terceirizações e licitações no governo Sergio Cabral. Em 2008, recebeu 23,5% (R$ 357,2 milhões) de tudo o que o governo estadual pagou. Na verdade, o reinado de Arthur César, do grupo Facility Gestão Ambiental, se iniciou na gestão de Anthony Garotinho e desde então jamais foi destronado. Mas nem Garotinho ousou pagar tanto, em 2003, por exemplo, Arthur César só levou R$ 58,5 milhões.

Parceiro 4Sergio Luiz Cortes da Silveira é o homem de Cabral na área da saúde. O governador tentou emplacá-lo como ministro do governo Dilma Rousseff, que declinou quando viu a lista dos processos que o secretário responde por improbidade administrativa. A corrupção de Côrtes virou manchete dos jornais e ele jamais explicou como comprou o luxuoso apartamento de cobertura na Lagoa, que seu salário de Secretário de Saúde não poderia pagar. A atuação de Cortes rendeu ao governador uma interpelação judicial no STJ (IJ nº 2008/0264179-0), promovida pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro e pela Federação Nacional dos Médicos.

Adriana Ancelmo Cabral
Além dos quatro parceiros, o governador tem forte apoio da própria mulher, Adriana Ancelmo Cabral, que se tornou o maior fenômeno da advocacia nacional. Saiu da função de advogada assistente na Alerj (2001 a 2003) para catapultar sua carreira e fundar, em 2004, o Escritório Coelho, Ancelmo & Dourado Advogados Associados, sociedade que mantém o maior número de causas milionárias em que o Estado do Rio de Janeiro, suas autarquias e fundações funcionam como parte ou contraparte.

***

O ENRIQUECIMENTO DE CABRAL


Sérgio Cabral Filho vem de uma família de classe média baixa, nasceu no Engenho Novo e foi criado no bairro de Cavalcanti, subúrbio do Rio. O pai, conhecido jornalista e crítico musical, se candidatou a vereador e foi eleito em 1982 e reeleito em 1988 e 1992. Cabral Filho se integrou à equipe do pai, acabou nomeado diretor da TurisRio, no governo Moreira Franco.

Em 1990, pegou carona no nome do pai e foi eleito deputado estadual, tornando-se uma espécie de político-modelo. Recusou as mordomias da Alerj, não usava o carro oficial, dirigindo seu modesto Voyage. Defendia duas classes sociais: os jovens e os idosos, organizando os famosos bailes da Terceira Idade, primeiro no Clube Boqueirão do Passeio, depois no Canecão. Fazia uma carreira impecável, trocou o PMDB pelo PSDB e tinha tudo para dar certo na política.

Até que se candidatou a prefeito do Rio, em 1992, e descobriu as famosas “sobras de campanha”. Foi quando começou a enriquecer. Reeleito deputado estadual em 1994, ligou-se a Jorge Picciani, que durante 6 anos foi primeiro-secretário da Alerj, no período em que Cabral presidiu a casa (1995-2007). Em 1994, foi novamente candidato a prefeito, amealhando “mais sobras de campanha”.

Em 1998, tinha declarado um patrimônio de R$ 827,8 mil, mas já dava demonstrações explícitas de enriquecimento ilícito. Ainda estava no PSDB, mas rompeu com o então governador Marcello Alencar, que o denunciou ao Ministério Público Estadual por improbidade administrativa (adquirir bens, no exercício do mandato, incompatíveis com o patrimônio ou a renda de agente público), pela compra de uma mansão no condomínio Portobello em Mangaratiba, e pela aquisição também de um luxuoso apartamento no Leblon.

Mas essa investigação foi arquivada pelo subprocurador-geral de Justiça Elio Fischberg, em 1999, porque Cabral alegou que fazia “consultoria política” para a agência do publicitário Rogério Monteiro, que lhe pagaria R$ 9 mil por mês, quantia insuficiente para justificar os elevados gastos de Cabral, mas o subprocurador parece que não era bom em aritmética.

Em 1999, Cabral volta para o PMDB, e ainda como presidente da Alerj, se aproxima do então governador do estado, Anthony Garotinho, que o ajuda a se eleger senador em 2002, e depois o apóia na campanha para governador em 2006, com mais “sobras de campanha”.

Como governador, estrategicamente Cabral logo rompeu com seu protetor Garotinho, mas manteve o “reinado” de Arthur César Soares de Menezes Filho. E se ligou aos outros três mosqueteiros: Marcelo Mattoso de Almeida, o ex-doleiro que morreu sexta-feira pilotando o helicóptero na Bahia, o empreiteiro Fernando Cavendish, e o secretário Sergio Luiz Côrtes da Silveira. Com isso, foi aumentando desmesuradamente a fortuna, que já não dependia dos serviços de “consultoria” à agência do amigo Rogério Monteiro.

Hoje, o deslumbramento e o exibicionismo novo rico da família Cabral chega a tal ponto que uma foto publicada por O Globo esta terça-feira dia 21/06 diz tudo. O filho de Cabral, Marco Antonio, aparece usando um relógio Rolex Oyster Perpetual Daytona de Ouro Branco, que custa nas melhores lojas do país a bagatela de R$ 50 mil. Não é preciso dizer mais nada.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quantidade e qualidade da educação


As medidas nacionais de matrícula indicam que a escolaridade média da população, no período entre 1990 e 2010, aumentou de 5,6 para 7,2 anos. Sem dúvida, temos de comemorar esse resultado, que coloca o Brasil em posição de vanguarda em relação a outros países. Esse artigo, ainda que superficialmente, pretende levantar questionamentos sobre possíveis peculiaridades que ainda possam estar ocultas nos atuais índices nacionais de melhoria da educação.

Por exemplo, qual seria a porcentagem de alunos matriculados que estão atualmente na escola? As discrepâncias entre a oferta de educação básica entre regiões do país e entre a área urbana e a rural ainda estão presentes? A porcentagem de professores leigos e o analfabetismo continuam mais concentrados no Norte e no Nordeste e nas áreas rurais do país? Essas questões se justificam porque os atuais resultados numéricos também têm a função de legitimar políticas governamentais para a educação.

O bom resultado numérico da permanência na escola também serve para amenizar padrões muito frágeis de autonomia local, isto é, circunstâncias nas quais os estados e municípios têm posição fraca em relação à política educacional do Estado central. Hoje, mais do que nunca, escolas e universidades estão expostas a fatores perversos, tais como crimes, drogas, corrupção, ausência de cultivo de valores para formação dos alunos, salários inadequados, presença de ideologias falidas no ambiente escolar. Além disso, muitos professores se interessam mais pela militância política do que por sua missão de educar. Como consequência, alguns professores e alunos contrários a esse comportamento sentem sua liberdade de pensar manietada pelo pensamento único advindo da ideologia. Esses fatos não têm tido lugar nos debates educacionais.

Portanto, quando a expansão da escolaridade é comemorada, há que se levar em conta a qualidade da expansão. O aumento de vagas nas universidades e escolas é considerado uma benesse do governo para os que sonham entrar nessas instituições públicas e gratuitas. Em vista disso, é lícito perguntar se é justo oferecer vagas na universidade para pessoas que alegam pobreza ou discriminação racial sem levar em conta a qualidade de seu desempenho educacional anterior.

É consensual entre estudiosos que o Brasil tem necessidade premente de formar profissionais competentes em todos os ramos do saber para que venha a ser um país desenvolvido. Já é tempo de os professores em sala de aula e acadêmicos nas universidades se darem as mãos, com a convicção de que quanto melhor for a qualidade da formação dos professores nas universidades, melhor será a educação básica em nosso país. Desse modo, pessoas menos favorecidas, por várias razões, poderão entrar na universidade por mérito e vocação.

Conciliar quantidade e qualidade na educação não é um problema somente brasileiro. É um problema mundial. Alguns países conseguiram realizar a façanha. Hoje, a ciência oferece meios para mudar cenários educacionais que, durante muitas décadas, resistiram à mudança. Recentemente, um grupo de analistas acadêmicos do Canadá, dos Estados Unidos e da Inglaterra conceberam um modelo teórico, fruto de longas observações de sistemas educacionais resistentes à mudança. Assim, eles conseguiram provar que a mudança somente é possível quando os níveis nacional, estadual e municipal do governo têm um foco sistêmico em relação à educação. Países como Coreia do Sul, Singapura e Finlândia devem seu sucesso na educação, em parte, a esse modelo.

Finalmente, é necessário e prazeroso registrar recentes casos no Brasil nos quais o aumento da escolaridade aparece ligado à qualidade da educação em cidades interioranas de regiões pouco dotadas economicamente. São escolas de excelente qualidade no Vale da Ribeira, Nova Horizonte, Sud Menucci e Arealva, no estado de São Paulo. Além disso, escolas de alto nível no interior do Piauí. Segundo recentes pesquisas, o traço comum nessas escolas é a notável competência dos diretores e professores, aliada à clara vocação para a tarefa de educar.

Autor(es): Ignez Martins Tollini

Mestre em educação brasileira (UnB) e em ciências da educação (Universidade de Purdue, Indiana, EUA), Ph. D. em educação (Universidade de Londres, Reino Unido)
Correio Braziliense - 22/06/2011 http://www.correioweb.com.br/

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Consumidor de baixa renda já frequenta academia de ginástica

Depois de encher a geladeira e comprar sua TV de tela grande, o consumidor de baixa renda está frequentando academias de ginástica - o que antes era considerado luxo, já cabe no orçamento. Empresas veteranas estão investindo nesse público. E, em favelas e bairros de periferia, moradores veem na prática da atividade física uma oportunidade de trabalho.

Renato Meireles - Data Popular
"Está crescendo o número de professores de educação física na periferia, que trabalham como instrutores em três ou quatro empregos para conseguirem abrir suas próprias academias", diz Renato Meirelles, diretor da consultoria Data Popular. As classes C, D e E representam 66% dos 4,2 milhões de brasileiros que frequentam academias de ginástica, segundo estudo do instituto realizado no último trimestre de 2010. A fatia das classes D e E é de 14%.

O preço, observa Meirelles, depende do perfil do usuário. "Pode ser entre R$ 40 e R$ 50, mas se for algo muito importante para a pessoa, ela pode pagar até R$ 150, apesar de ficar apertado".


Waldyr Soares
O mercado de academias foi construído no mundo para o público de alta renda. "Sempre foi coisa de rico", diz Waldyr Soares, presidente da Fitness Brasil, que acompanha o setor há 30 anos. "Na cabeça de muita gente não tinha importância e, na crise, a academia era a primeira a ser cortada do orçamento". Nos últimos anos, houve uma mudança cultural e a academia deixou de ser associada somente ao culto ao corpo. Passou a significar bem-estar. Segundo o Conselho Federal de Educação Física (Confef), o Brasil tem hoje 19.681 academias de ginástica registradas - um dos maiores mercados mundiais desse segmento.

Nos últimos anos, a sociedade brasileira começou a perceber, diz Soares, que vai viver mais e quer viver melhor. E essa percepção já chegou à baixa renda, em especial às mulheres, que são maioria nas academias.

Quando se formou em educação física, há 20 anos, Gilson Clemente, morador da favela de Paraisópolis, na zona sul paulistana, se sentia um estranho no bairro. Naquela época, era difícil ter um universitário na comunidade. Um semestre após concluir a graduação, ele construiu um "puxadinho" de 30 m 2 junto ao mercadinho aberto pelo pai. Nascia a Gilson Clemente Academia (GCA). Hoje, funciona em um galpão nos fundos do terreno, tomou o espaço da garagem e ocupa dois andares. São 350 m2.


A comerciante Lidiane Barreto mora e trabalha em Paraisópolis e frequenta a GCA cinco dias por semana

A mensalidade do plano anual custa R$ 59 ou R$ 34, para quem traz mais um aluno. De 2008 para cá, o número de alunos dobrou e atualmente é de 320. No primeiro semestre deste ano, o faturamento foi de R$ 105 mil.

Com o aumento da demanda, Clemente teve que esticar gradualmente os horários. A academia que funcionava somente quatro horas diárias, desde o ano passado abre as portas às 6h e fecha às 22h.

"Eu percebi que essa classe que eu atendo hoje tem um padrão de vida um pouco melhor. A diarista antigamente tinha o dinheiro contado. Hoje consegue comprar uma roupa e um tênis diferentes, pagar cursos de inglês para os filhos", diz Clemente. Ele estima que sua clientela tenha renda a partir de um salário e meio. Entre ela, está Josefa Jesus. Ninguém passa pela GCA sem cumprimentar essa trabalhadora doméstica de 41 anos, que há um ano e meio frequenta o lugar.

"Academias em bairros de baixa renda têm uma atmosfera de clube", diz Clemente. São encaradas como espaços de convívio social. Depois da jornada de trabalho de oito horas diárias, Josefa volta para casa, também em Paraisópolis, troca de roupa e passa cerca de duas horas "malhando". Às vezes também se exercita aos sábados, quando faz bico como manicure. "Fiquei mais jovem e melhorei a autoestima", diz Josefa.

O consultor em gestão de academias de Campinas Rafael Uliani explica que, ao contrário da classe A, que prefere exclusividade, nas academias de bairro o apelo sócio-afetivo é preponderante. Dados do Data Popular indicam que, entre os praticantes de atividades físicas em grupo, 44% estão na base da pirâmide e 14%, no topo.

Fundada há 10 anos, a academia 100% Heliópolis cobra mensalidade de R$ 50. Os clientes têm renda média de R$ 700. Instalada na maior favela de São Paulo, a de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, a academia passou por uma grande transformação há três anos, quando mudou de endereço e ganhou novas instalações de alvenaria. Até então, era um galpão de madeira instalado, de forma ilegal, à beira do córrego, com 100 alunos.

Agora, está instalada na entrada da comunidade, que abriga cerca de 100 mil moradores, e tem 250 alunos. "A inadimplência é praticamente zero. A maioria das pessoas que mora na região tem casa que ganhou da prefeitura, não paga aluguel. Por isso, tem condições para pagar academia", diz Sílvia Gama, mulher de Ezequiel Silva, dono da 100% Heliópolis.

No Rio de Janeiro, vender bem-estar para a baixa renda é um negócio em expansão. O carioca Mário Villas Boas, de 53 anos, já foi proprietário de 16 academias e hoje tem quatro, todas no Rio. Localizadas nos bairros Vista Alegre, Rocha Miranda, Botafogo e na Ilha do Governador, elas cobram mensalidades diferentes. A mais barata fica em Rocha Miranda (R$ 45); e a mais cara, em Botafogo (R$ 165). A próxima, a ser aberta na favela Para-Pedro, em Irajá, no subúrbio carioca, terá um tíquete ainda mais barato, entre R$ 35 e R$ 40.

Kleber Pereira, presidente da Associação Brasileira de Academias (Acad), observa que as academias que conseguem oferecer um preço mais popular, em geral, não oferecem ambiente climatizado, tem equipamentos mais simples e não há aulas em grupo. Pereira, por sua vez, também está investindo numa filial mais em conta. Em sua academia Quality Fitness, a mensalidade é de R$ 130. Para competir com três concorrentes que se instalaram na mesma região (em Vila da Penha, na zona norte do Rio) e cobram a metade desse preço, o novo ponto cobrará R$ 70.

Mas operar uma academia a preços populares está longe de ser um negócio fácil. Quando o empresário paulista Edgar Corona, dono da marca Bio Ritmo, lançou a marca de preços mais econômicos Smart Fit, em 2009, foi apontado como pioneiro na popularização das academias no país. Mas ele diz, agora, que o conceito ainda está em fase de testes e que as classes emergentes não são o foco. A mensalidade da Smart Fit vai de R$ 49 a R$ 99. As 16 unidades em funcionamento estão, principalmente, em redutos das classes A e B e em bairros de classe média do Distrito Federal, do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre.

Corona diz que, com mais unidades (a meta é ter 50 até o fim de 2012) e custos menores, poderá atingir a classe C. Também é em 2012 que a rede Smart Fit, hoje deficitária, pode se tornar lucrativa. Uma unidade acaba de abrir as portas em Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal, com mensalidades de R$ 49 a R$ 69. Segundo o empresário, é a primeira voltada para a classe C. "Estamos fazendo um teste", diz.

O grupo Bodytech, que nasceu para atender o consumidor de renda mais alta, também vai segmentar suas marcas para chegar à classe C. As academias Fórmula, parte da rede Bodytech e agora abertas a franqueados, terão espaço físico médio de 600 m2 e mensalidade entre R$ 89 e R$ 149.

Espaços como o do Shopping Eldorado, em São Paulo, onde se paga quase R$ 600 mensais, estão sendo reformados para virar A!Bodytech, que continua voltada para a classe A. As "novas Fórmula" têm estrutura semelhante, com os mesmos equipamentos e aulas, mas sem sauna ou piscina, diz Mario Esses, presidente da Fórmula. O investimento no plano é estimado em R$ 50 milhões.

Em dois meses da operação, a nova marca já tem duas franquias em Copacabana, no Rio de Janeiro, vai abrir duas na Tijuca, na Zona Norte carioca e em cidades como São Gonçalo e Duque de Caxias. O ABC paulista e capitais como Curitiba, Florianópolis, Fortaleza e São Luiz vêm na sequência. Até o fim deste ano, a meta é ter 16 Fórmula franqueadas, 5 próprias e 34 A!BodyTech. A expectativa, segundo Esses, é chegar em 2015 com 120 franquias e 40 Fórmulas próprias. (Com Beth Koike e Camilla Veras Mota, de São Paulo)

Autor(es): Adriana Meyge
Silvia Costanti/Valor

De São Paulo
Valor Econômico - 20/06/2011 http://www.valoronline.com.br/

quinta-feira, 16 de junho de 2011


Risco Brasil fica menor que o dos EUA


Pela primeira vez na história, os investidores enxergam um maior risco de calote da dívida nos Estados Unidos do que no Brasil


Pela primeira vez na história, os investidores enxergam um maior risco de calote da dívida nos Estados Unidos do que no Brasil. O credit default swap (CDS) do Brasil - um instrumento que mede o risco de não pagamento das obrigações financeiras - caiu ontem para 42 pontos-base no prazo de um ano, enquanto que o custo para proteção da dívida dos EUA ficou em 49 pontos-base em um prazo equivalente.


O acontecimento foi comemorado pelo governo brasileiro. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o indicador mostra a solidez e a confiança do mercado na economia brasileira. "Estamos muito felizes."


Segundo ele, cerca de US$ 70 trilhões estão aplicados no mercado nessa modalidade, que serve como um seguro em caso de não pagamento dos títulos soberanos de um País no mercado externo. "Quem tem medo nessa área, faz um seguro", explicou .


O ministro contou que a presidente Dilma Rousseff ficou "muito satisfeita" com a notícia. "Isso mostra que estamos no caminho certo, que a política econômica está correta, o Brasil está se solidificando e temos respeito do restante do mundo", disse Mantega.


O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, afirmou que a queda no risco Brasil reflete o cumprimento pelo governo brasileiro das metas fiscais. "Consideramos um fato importante, porque mostra que os resultados são reconhecidos pelo mercado. Isso tem a ver com a estratégia de cumprimento de metas fiscais que temos conseguido apresentar para o País", afirmou Augustin.


Seguro. O CDS existe desde o início da década de 90, mas esse mercado aumentou bastante a partir de 2003. Esse tipo de seguro ganhou ainda mais importância depois da crise financeira internacional, iniciada nos Estados Unidos. O mercado ainda olha com preocupação a situação fiscal americana.


A avaliação dos EUA tem piorado. Em abril, a agência de classificação de risco Standard & Poor"s reafirmou o rating de crédito soberano de longo prazo AAA dos EUA (o mais alto), mas anunciou que reduziu a perspectiva da classificação de estável para negativa, indicando que poderia haver um rebaixamento na classificação do país.


Por outro lado, a percepção de solvência do Brasil tem aumentado no mercado, o que elevou as chances de o País ganhar das agências um upgrade no grau de investimento recebido.


Apesar do fato inédito, o CDS dos Estados Unidos ainda está em patamar baixo, o que demonstra, no entendimento do mercado, as poucas chances de um calote da dívida de curto prazo. O CDS de cinco anos da Grécia (país que enfrenta problemas de solvência no pagamento da sua dívida), por exemplo, gira em torno de 1.700.00 pontos-base.

Autor(es): Renata Veríssimo

O Estado de S. Paulo - 16/06/2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Calote esfria consumo da classe C



Classe C começa a atrasar prestações

Inadimplência subiu nas prestações mais baixas. Intenção de compra cai

Passados mais de seis meses desde que o governo começou a adotar medidas para restringir a oferta de crédito, os consumidores das classes C, D e E, que se tornaram o motor das vendas do comércio em todo o país, começam a perder o ímpeto de ir às compras. E o sinal mais visível é a inadimplência. Mais endividados e com os ganhos corroídos pela inflação, começam a atrasar as prestações. Em maio, a inadimplência medida pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) cresceu pelo quarto mês seguido, avançando 8,21% em relação ao mesmo mês de 2010. O maior volume de atrasos está nos financiamentos com prestações baixas: 75,74% dos inadimplentes no mês passado tinham prestações atrasadas de até R$250, sendo que aqueles com parcelas de até R$50 representavam 32,67% do total, um salto em relação aos 24,97% de calote nesses contratos em janeiro. No Rio, 15,7% dos entrevistados da classe C disseram ter alguma prestação atrasada (contra 12,1% um ano antes) e 21,6% afirmaram que o orçamento familiar será deficitário após o pagamento das despesas, de acordo com Perfil Econômico do Consumidor Brasileiro (PEC) da Fecomércio-RJ:

- Nesses casos, a gordurinha do orçamento não foi suficiente para lidar com a alta da inflação e um forte acúmulo de consumo nos últimos anos - diz Christian Travassos, economista da instituição.

Para Roque Pellizzaro Júnior, presidente da CNDL, os novos dados de inadimplência "acenderam a luz amarela" entre os lojistas.

- Isso indica que a população que está ascendendo, que foi às compras porque o crédito era farto, assumiu compromissos além de sua capacidade de pagamento. Não é que ele seja mau pagador.

Vendas paradas em comércio popular

Com as prestações em atraso, o consumo fica para depois. Pesquisa nacional realizada pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), também de maio, mostra que o índice de confiança da classe C caiu 6,5% e chegou aos 144 pontos, próximo da média do país, de 143 pontos. Foi a segunda vez este ano que o indicador dessa classe de renda se aproxima da média nacional, fenômeno que não ocorreu em todo o ano passado.

- A classe C foi a mais afetada pelas medidas do Banco Central para encarecer o crédito, justamente porque depende mais dos parcelamentos para poder comprar - afirma Emílio Alfieri, economista da ACSP.

No Rio, o mesmo movimento. Em abril, houve queda na intenção de compra da classe C, de acordo com a pesquisa da Fecomércio-RJ. Apenas 11,6% dos entrevistados pretendem comprar algum bem durável nos próximos três meses. Em abril de 2010, o percentual era de 15,2%.

- Isso não é um mau sinal para o comércio porque mostra que o consumidor da classe C está organizando melhor seu orçamento, para honrar os compromisso e voltar a comprar - diz Travassos.

Instalados numa área comercial voltada principalmente às classes mais populares, os lojistas do Brás, bairro da região central de São Paulo, dizem que o faturamento neste ano estagnou.

- Vendemos no primeiro trimestre o mesmo que no ano passado. Se levarmos em conta a inflação no período, houve perda real de vendas - disse o diretor da Associação de Lojistas do Brás, Jean Makdissi Júnior.

O motoboy Marco Wilson Simões conta que está fazendo de tudo para cortar os gastos. Com o "nome sujo na praça" desde o ano passado, Simões deixou de comprar roupas e presentes para fazer frente à alta no preço dos alimentos e pagar ainda as contas de um dos dois cartões de crédito que possui. E tem também as parcelas da moto nova e os gastos com o filho, que nasceu há um mês. Tudo isso com uma renda familiar que varia de R$1,7 mil a R$2,2 mil. Por isso, a dívida de R$2,2 mil do outro cartão, diz, vai ter de esperar para ser paga.

- Já não gastei nada no Natal do ano passado nem no Dia das Mães. Este ano, vamos passar só com o amor mesmo - diz Simões.

Atenta a todos esses sinais, a Federação do Comércio de São Paulo (Fecomércio-SP) já trabalha com a perspectiva de uma estagnação nas vendas no primeiro semestre em relação à primeira metade de 2010. Os dados da pesquisa conjuntural do comércio varejista na Região Metropolitana de São Paulo mostram um crescimento de apenas 0,1% do faturamento do varejo de janeiro a abril, comparado a igual período do ano passado. A Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE, divulgada na última sexta-feira, registrou a primeira queda nas vendas em 11 meses.

- A redução do consumo ocorreu mais no que a gente chama de supérfluo, em produtos como os eletroeletrônicos e os eletrodomésticos - diz Fábio Pina, assessor econômico da Fecomercio-SP.

Carmen Calixto da Silva, encarregada de limpeza, termina de pagar em julho as parcelas de R$300 da TV que comprou no ano passado, em dez vezes, e agora quer economizar para adquirir a casa própria. Por isso, desde o começo do ano, não comprou nada que considera supérfluo, como roupas e eletrodomésticos. Outro fator que pesou nas contas foi o encarecimento dos alimentos, que consomem boa parte dos R$1,3 mil que ganha.

Um levantamento da consultoria Kantar Worldpanel em 8,2 mil domicílios mostrou desaceleração no consumo de todas as classes no primeiro trimestre, frente ao mesmo período do ano passado. Na classe C, o consumo por unidade continua subindo, mas em ritmo menor: 3% de janeiro a março, ante taxa de 16% nos primeiros três meses de 2010.

Autor(es): Ronaldo D"Ercole, Paulo Justus e Mariana Durão
O Globo - 14/06/2011 www.oglobo.com

quinta-feira, 9 de junho de 2011

BC eleva juro e fala em ajuste prolongado

Decisão do Copom de elevar a taxa em0,25 ponto porcentual, para 12,25%, manteve tendência e não surpreendeu o mercado financeiro

O Comitê de Política Monetária (Copom) seguiu exatamente o roteiro previsto pelo mercado financeiro e decidiu ontem elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto porcentual, para 12,25% ao ano. Com o movimento - a quarta alta no ano e a segunda dessa magnitude -, o colegiado dá sequência ao esforço de levar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de volta à meta de 4,5% em 2012.

Ao anunciar a decisão, o BC pouco alterou o teor do comunicado de abril, apenas introduzindo as expressões "gradual" e "continua sendo" e retirando a expressão "neste momento". A leitura de parte do mercado é que o texto garante mais uma elevação da Selic em julho e deixa em aberto a possibilidade de novas altas nas reuniões seguintes, embora uma ideia mais clara só será possível após a ata da reunião, que será divulgada na semana que vem. Diferentemente de abril, em que parte do Comitê votou a favor de uma alta de 0,50 ponto porcentual na Selic, a decisão de ontem foi unânime.

"Dando seguimento ao processo de ajuste gradual das condições monetárias, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 12,25%, sem viés. Considerando o balanço de riscos para a inflação, o ritmo ainda incerto de moderação da atividade doméstica, bem como a complexidade que envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que a implementação de ajustes das condições monetárias por um período suficientemente prolongado continua sendo a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta em 2012", informou o Banco Central.

Demanda. A elevação da taxa Selic busca conter o ímpeto da demanda de bens e serviços na economia, apontada como importante fator por trás da escalada dos preços no País. Com juros mais altos, não só o crédito fica mais caro para os consumidores (especialmente em ambiente no qual medidas adotadas pelo governo restringem o alongamento de prazos), mas também se cria um incentivo para as pessoas guardarem dinheiro em vez de gastarem mais.

Para o economista-chefe do banco cooperativo Sicredi, Alexandre Barbosa, a situação da economia brasileira exige juros maiores, pois a inflação não decorre só de choques de oferta (como a alta de preços de alimentos), mas também de excesso de demanda por bens e serviços.

Com base no comunicado do BC, ele espera pelo menos mais uma alta de 0,25 ponto porcentual na Selic. E avalia que a economia precisa crescer menos de 4% por algum tempo para que o IPCA retorne à meta.

A economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Zara, também acredita em pelo menos mais uma alta da Selic e avalia que novos movimentos para cima poderão ocorrer. Segundo ela, apesar da queda recente da inflação, a atividade econômica ainda é muito elevada e, por isso, o BC precisou elevar juros para conter a inflação.

Coerência. O ex-diretor do BC e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, disse que, diante da sinalização dada em abril, o Copom não tinha alternativa a não ser elevar o juro ontem. Segundo ele, as condições da economia, com desaceleração do crescimento e redução nos índices de preços, até permitiriam manter a Selic em 12%. Mas, diante da mensagem anterior e das expectativas para 2012 ainda estarem acima do centro da meta, a alta da Selic era questão de coerência.

Segundo Freitas, o atual aperto monetário de 0,25 ponto porcentual tem maior potência do que antes. Isso porque a taxa de juros real, que desconta a inflação, a partir de agora deve ser maior, já que o País entrou numa fase de "surpresas deflacionárias", depois de um início de ano em que a inflação ficou acima do que todo mundo esperava.

"O juro real maior pode levar o BC a repensar novos aumentos da Selic", disse o economista. "Se as expectativas de inflação continuarem caindo, não há motivo para o juro subir mais."

Autor(es): Fabio Graner

O Estado de S. Paulo - 09/06/2011 http://www.estadao.com.br/

terça-feira, 7 de junho de 2011

O alimento e a guerra cambial

Com a inflação em alta, não parece ser hora de deixar o voo correr solto.

Nos acostumamos por gerações com a comida mais barata. Desde o boom de commodities de 1973/74 (que ainda que frequentemente esquecido incluiu tanto o petróleo como os alimentos) até anos recentes, o preço mundial de commodities alimentícias em dólares apresentou uma forte tendência declinante - tanto se deflacionado pelo preço unitário global de manufaturas, como pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA (que inclui o custo de bens de serviço), como mostra o gráfico abaixo. Deflacionado por este último, o preço relativo da alimentação caiu cerca de 80%.

Relativamente a outras commodities, o preço das commodities alimentícias é hoje dez vezes menor do que o petróleo em 1960, cerca da metade do preço de metais (como o ferro e o cobre), e também inferior a commodities agrícolas não alimentícias como o algodão e outros. Face a um século atrás, também pagamos relativamente menos pelo alimento.

Tal tendência a reversão de preços relativos começou em 2003/2004, como mostram as linhas pontilhadas no gráfico. Embora de magnitude ainda modesta comparada a episódios de reversão nos últimos cem anos, é interessante observar que a crise financeira global de 2008-09 não interrompeu tal processo.

Evidência econométrica sugere que isso deve continuar por algum tempo, já que o preço mundial de commodities alimentícias é sensível à baixa da taxa de juros de curto prazo nos países avançados (que deverá continuar por algum tempo) e à recuperação do produto mundial. Com estoques mundiais hoje abaixo de sua média histórica, essa sensibilidade é exacerbada.

Embora haja bastante discussão sobre o efeito inflacionário dos choques de commodities e em que medida a política monetária deva ou não acomodá-los, uma dimensão internacional do problema tem sido um tanto negligenciada - a saber, o vínculo entre a inflação mundial de comida e a "guerra cambial".

A conexão advém de duas peculiaridades da comida vis-à-vis outros bens: é muito pouco substituível, e os gastos com comida em proporção do consumo total do cidadão médio variam muito internacionalmente: nos países avançados é tipicamente entre 10% e 15%, enquanto nos países emergentes é aproximadamente o dobro, chegando algumas vezes a 40% ou 50%. Isso leva a que um aumento do preço internacional da comida aumenta automaticamente a inflação no mundo emergente mais que no mundo avançado.

Tudo o mais constante, a taxa de câmbio real do mundo emergente se valoriza.

Dada a natureza insubstituível da comida, tal inflação mais alta no mundo emergente resultará em pressões salariais mais fortes, reforçando a apreciação cambial resultante do choque inicial. Não é, portanto, surpreendente que em alguns países emergentes, os salários já cresçam a uma taxa na casa dos dois dígitos enquanto em países avançados estejam basicamente estáveis.

Na medida em que tais choques de comida são muito persistentes e a tendência à subida do preço relativo da comida continue (como historicamente observado), tal apreciação real será inexorável se nada for feito. E será tanto mais aguda quanto maior forem os mecanismos de indexação formal e/ou informal, pois esses generalizam a pressão inflacionária e aumentam a sua persistência.

Os instrumentos clássicos de política monetária não são os mais apropriados a lidar com pressões persistentes de apreciação da taxa de cambio real. Afinal de contas, a política monetária pode e deve controlar para que esse ajuste de preços relativos se faça num ambiente de baixa inflação, mas tem muito pouco ou nenhum controle da taxa de câmbio real no médio e longo prazo. No linguajar macroeconomês, trata-se da chamada neutralidade de longo prazo da política monetária.

Se, na visão dos gestores de política econômica, a apreciação real e a consequente perda de competitividade dos setores não produtores de commodities (como a manufatura e certos serviços) geram um sério problema para o respectivo país, cabe atacá-lo por meio da política fiscal e reformas estruturais que cortem radicalmente o custo naqueles setores. Isso inclui não só medidas de desoneração da folha de salários, mas também uma redução da despesa real do governo, e em particular da despesa corrente (em contraste com gastos de capital em infraestrutura) na medida em que tais despesas pressionam a demanda agregada e o preço dos bens domésticos (non tradeables). E, obviamente, mecanismos de indexação formal ou informal de salários só complicam essa batalha.

Em alguns países emergentes, o controle fiscal já é feito, seja por meio de regras que gerem um maior superávit primário em proporção à subida do preço de commodities, seja por meio da redução real de gastos correntes discricionários. Isso é ainda mais imperativo em países onde a taxa de cambio nominal apreciou-se fortemente.

A eliminação de fórmulas, implícitas ou explícitas, de reajustes salariais indexados foi um importante ganho anti-inflacionário do passado, particularmente na América Latina; revertê-lo significa retroceder na história. Num momento que a inflação mundial de comida erode a competitividade de países como o nosso, quase que por piloto automático, não parece ser hora de deixar o voo correr solto.

Luis A.V. Catão é economista do Departamento de Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Autor(es): Luis A.V. Catão

Valor Econômico - 07/06/2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

BRASILEIROS DÃO CALOTE DE R$ 59 BI EM BANCOS

CALOTE DE R$ 59 BILHÕES

Dívidas vencidas há mais de três meses assustam o BC e levam sistema financeiro a reservar R$ 98 bilhões no caixa para cobrir eventuais prejuízos. Nos cartões de crédito, atrasos no pagamento das faturas superam 25%. Bancos reduzem facilidades a clientes

As famílias já começam a colocar um freio no ritmo de consumo, conforme indicaram os últimos dados do Produto Interno Bruto (PIB) divulgado pelo IBGE na última sexta-feira. Mas só segurar o impulso de novas compras pode não ser suficiente para colocar o orçamento em dia. Com a alta da inflação, o encarecimento do crédito e o crescimento mais brando da economia, que reduz a oferta de empregos e inibe o aumento da renda, os brasileiros deverão ter dificuldades para quitar seus débitos. Resultado: os índices de inadimplência, que estão em alta neste início de ano, subirão mais. No total, consumidores e empresas já devem a bancos e financeiras R$ 59 bilhões em prestações vencidas há mais de três meses, maior valor desde fevereiro de 2010.

A diferença é que, naquele início de ano, as perspectivas eram de intenso crescimento da economia e da renda dos trabalhadores, confirmados pela expansão de 7,5% do PIB. Mas o que realmente chamou a atenção de técnicos do Banco Central foi o ritmo de aumento dos atrasos de 15 a 90 dias no pagamento de parcelas de empréstimos e financiamentos por pessoas físicas. Excluídos os financiamentos habitacionais, o calote saltou de 5,3%, em dezembro último, para 6,6% em abril.

Desde janeiro, o tamanho dessa inadimplência supera o das parcelas vencidas acima de 90 dias, que subiu para 6,1% em abril, o que não acontecia desde 2005. O problema é que o grande volume de dívidas vencidas em até 90 dias tende a se converter em atraso maior, refletindo nos índices acima de 90 dias, de maior dificuldade de recebimento.

Preocupados com o atraso constante no recebimento dos débitos, os bancos vêm aumentando, mês a mês, as provisões para cobrir eventuais perdas e vedar riscos de uma crise financeira. Pelos cálculos do BC, essa reserva atingiu R$ 98,2 bilhões, o equivalente a 6% de tudo o que está emprestado a pessoas físicas (R$ 819 bilhões) e a empresas (R$ 957 bilhões).

Pente-fino

O montante alto de crédito nas mãos de consumidores e a escalada da inadimplência em um momento de subida da inflação e dos juros colocaram em alerta vermelho a área de fiscalização do BC. Tanto que ao menos uma centena de instituições passará pelo pente-fino da autoridade monetária até o fim do ano, conforme informações obtidas pelo Correio.

Os bancos já se adiantam e fecham as torneiras que foram escancaradas desde 2007, com a disponibilização de crédito rápido em conta-corrente, acompanhado de generosos limites para todo tipo de empréstimo, incluindo cheque especial. Agora, a oferta de recursos está limitada e os juros, em alta. "Isso (volume alto do endividamento e da inadimplência) é resultado da política do governo, que mandou todo mundo gastar, incentivando o crédito. Não havia como esse quadro continuar. As próprias instituições estão dificultando o acesso ao crédito, não pela qualidade do cliente, mas por medo do aumento da inadimplência", disse José Luiz Rodrigues, presidente da Consultoria JL Rodrigues. Segundo ele, os bancos não podem mais ceder crédito tão facilmente.

Além da conjuntura atual, há um pacote de regras que os bancos têm que seguir já há algum tempo, que levam à redução da oferta e ao aumento do custo, como o aporte maior de capital para atender o índice de Basileia (regra de segurança internacional, medida pela relação entre o patrimônio líquido e o passivo, ponderados os riscos). Ou seja, se seu banco anda cortando seus limites de crédito, saiba que não é nada pessoal. É com todo mundo.

Para João Augusto Salles, analista de investimentos da Lopes Filho Associados, o aumento mais acelerado das provisões feitas pelos bancos para créditos duvidosos é um movimento preventivo, devido à possibilidade de a inadimplência aumentar mais à frente. "As taxas de juros estão ascendentes, o custo de captação aumentou e isso significa risco maior", afirmou. Ele lembrou que, em 2008 e 2009, os bancos, em especial os públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, escancaram as torneiras do crédito para evitar o aprofundamento da recessão econômica, sem muito monitoramento do risco, amenizado pelo crescimento da economia. Agora, a hora é de maior seletividade. "Isso implica monitoramento maior", ressaltou.

Eletrodomésticos

Os maiores índices de calote das famílias estão nos financiamentos de veículos e de eletrodomésticos e nos cartões de crédito. O que demonstra o excesso de sede com que os consumidores foram às compras, assumindo prestações mensais com o orçamento já apertado. O atraso de 15 a 90 dias no pagamento de carros e nos carnês das lojas chegou a 8,1% e 8,6% em abril, respectivamente, retornando aos patamares do primeiro semestre de 2009, quando o mundo e o Brasil haviam sido abatidos pela crise mundial.

Com um total de R$ 100 bilhões em compras e em faturas vencidas nos cartões de crédito, os consumidores também estão se enrolando na hora de honrar os compromissos. Em abril, 25,34% dessa bolada estavam vencidos há mais de três meses. O que torna mais dramático manter essa dívida sem quitá-la é que ela está custando em média de 10% a 11% ao mês em juros.

Autor(es): ANA D´ANGELO

Correio Braziliense - 06/06/2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Resultado do PIB deve desacelerar no segundo trimestre, diz Mantega

Dados do IBGE mostraram crescimento de 1,3% no primeiro trimestre.
No segundo semestre, no entanto, economia pode ter nova aceleração.

Guido Mantega
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta sexta-feira (3) que, apesar do crescimento de 1,3% do PIB no primeiro trimestre, na comparação com os três meses anteriores, o resultado deve começar a desacelerar a partir do segundo trimestre. Para o governo, contudo, esse resultado mostra que a economia brasileira mantém vitalidade apesar das medidas de contenção do crédito.

"Se nós olharmos um pouco mais adiante, ou seja (...), os resultados de abril e de maio, vamos perceber que a economia brasileira desacelerou um pouco mais e, portanto, o segundo trimestre deste ano vai ter um crescimento menor do que esse de 1,3% que foi observado no primeiro trimestre", afirmou.

PIB Brasil 1º trimestre 2011
O ministro explicou que o motivo do menor crescimento previsto são as medidas adotadas pelo governo de moderação ao crédito. "O crédito está crescendo menos, está se expandindo nesse primeiro quadrimestre, aí já falo incluindo abril, algo como 13%. Ele vinha crescendo mais de 20%. Portanto, há uma moderação de crescimento do crédito (...) em uma escala menor que vinha acontecendo", explicou.

Mantega reafirmou a previsão revisada de 4,5% de crescimento do PIB para 2011 pelo Ministério da Fazenda. "Ainda haverá uma desaceleração para que dê a média de 4,5% ao longo do ano. No segundo trimestre, poderá ficar abaixo de 4,5% anualizado. No segundo semestre, haverá, provavelmente, alguma aceleração de modo que a média ficará em torno de 4,5% para o crescimento de 2011”, disse Mantega.

Medidas de contenção ao crédito

Por conta da desaceleração, o ministro voltou a descartar nesta sexta-feira novas medidas macroprudenciais de contenção ao crédito no país. "Quando você fala de medidas macroprudenciais nós estamos falando as medidas de aumento de capital dos bancos, que foram tomadas no final do ano passado, e essas eu não vejo necessidade de novas medidas dessa natureza neste momento". Mantega afirmou, contudo, que em relação à medidas de moderação da entrada de capital externo, o governo olha com atenção devida.

O ministro disse, ainda, que a economia brasileira se comporta diferente da mundial. “É um crescimento menor do que o crescimento do ano passado, porém mostra que a economia brasileira mantém a vitalidade que adquiriu nos últimos anos. E ela se diferencia do comportamento da economia mundial”. De acordo com o ministro, mesmo a China já dá sinais de desaceleração.

Mantega afirmou que o resultado do primeiro trimestre foi impulsionado principalmente pelo crescimento da agricultura. "A indústria de transformação cresceu 2,8%, o que é muito positivo e desmente algumas ideias que a indústria de transformação brasileira está com problemas ou recuando". Ele acrescentou, ainda, que os serviços, apresentou crescimento menor, de 1,1%. "Esse crescimento já reflete acomodação da economia brasileira aos ajustes que nós fizemos desde o final do ano passado no sentido de moderar o crescimento".

Inflação

Para o ministro, com as medidas de contenção ao crédito adotadas pelo governo, a inflação já dá fortes sinais de queda. "Todos os indicadores de pesquisas (...) apontam que a inflação está caindo".

Comércio exterior

Em relação às exportações, o ministro afirmou que o comércio exterior está indo bem neste ano, e "até melhor do que no ano passado". De acordo com Mantega, as exportações estão crescendo e o saldo comercial a ser alcançado poderá chegar a US$ 25 bilhões. Para ele, o déficit em transações correntes deverá ficar menor que as previsões, em torno de 2,3%. "Estamos se defendendo com as exportações de commodities", afirmou.

Gabriela Gasparin Do G1, http://g1.globo.com




























quarta-feira, 1 de junho de 2011

Bolsa leva surra da inflação


Investimentos do FGTS na Petrobras e na Vale e aplicações na poupança perderam para a elevação dos preços

Os investimentos mais conhecidos pelos brasileiros, a Bolsa de Valores e a poupança, levaram uma surra da inflação nos primeiros cinco meses deste ano. Frente a essas duas modalidades, a carestia foi imbatível. Com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulando 3,7% até maio, quem colocou o dinheiro na poupança, cujo rendimento foi de 3,34% no período, ficou no prejuízo. Na bolsa, a perda foi maior ainda. O Ibovespa, principal indicador do mercado brasileiro, amargou prejuízo de 2,29% em maio e de 6,76% no ano.

Ficaram também no vermelho, neste primeiro semestre, os fundos de renda variável ligados ao Ibovespa (prejuízo de 2,88% em maio e de 5,40% no ano) e o ouro (-0,88% e -3,90%). Quem investiu o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na Petrobras e na Vale, aplicações avaliadas por especialistas como excelentes, amargou os piores prejuízos. No caso da petrolífera, a perda ficou em 5,60% no mês e 10,12% no ano. Na mineradora, a rentabilidade foi negativa em 3,28% em maio e em 8,36% no acumulado de 2011.

A culpa do desempenho ruim das duas gigantes do mercado de commodities (produtos básicos com preço internacional), explicam analistas, está na ingerência política sofrida por elas neste início de ano, o que abalou a credibilidade de ambas. Na Vale, o governo derrubou Roger Agnelli da cadeira da Presidência para colocar alguém mais alinhado com o Palácio do Planalto. Na Petrobras, por força de determinação, os preços das altas do petróleo não foram repassadas aos consumidores e a estatal amargou prejuízo bilionário.

Diferentemente da Bolsa de Valores de São Paulo, em Nova York, o índice Dow Jones caiu 1,88% no mês. Mas, no ano, ele registra alta de 8,57%. Para Márcio Cardoso, diretor da Título Corretora de Valores, a bolsa paulista está perdendo porque os investidores estão menos otimistas em relação ao Brasil. “No caso dos brasileiros, há uma certa instabilidade devido a turbulências políticas e à inflação elevada. Os estrangeiros se preocupam com a crise na Grécia e com a sua repercussão no mundo”, explicou Cardoso. Ainda assim, a seu ver, para quem deseja colocar dinheiro na Bovespa, este pode ser um bom momento, desde que o objetivo do poupador seja de longo prazo. “Aconselho que invista quem puder esperar de três a quatro anos.”

Alívio

O alento aos investidores foram as aplicações atreladas à taxa básica de juros (Selic) ou as que são influenciadas por ela. Os fundos DI, por exemplo, renderam em maio 0,87% e 4,43% no ano, ou seja, superaram a inflação e deram algum resultado. Os de renda fixa também acompanharam essa trajetória, com rentabilidade de 0,85% no mês e de 4,36% no acumulado de 2011. “Tudo o que está pagando próximo à Selic está interessante. Os campeões são os títulos pós-fixados (cujo rendimento é combinado no ato da compra)”, avaliou Alan Soares, consultor de investimentos da Trader Brasil Escola de Investidores. As Letras Financeiras do Tesouro, pós-fixadas e indexadas à Selic, pagaram 0,88% em maio e 4,45% no ano.

“Não existe receita de bolo para investir. É preciso estudar e ter o acompanhamento de um profissional”, aconselhou Soares. Ele explicou ainda que, na hora de aplicar, é preciso ficar atento às taxas de administração e também se há incidência de Imposto de Renda sobre a modalidade escolhida. Em alguns casos, ela pode corroer todos os ganhos do poupador.

Autor(es): Victor Martins

Correio Braziliense - 01/06/2011