quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mudanças a vista no Índice da Inflação



Carros, celulares e educação mudam a cara do indicador 

O desejo de ter o veículo próprio movimenta a indústria automobilística nacional, com previsão que o setor tenha vendido 3,42 milhões de carros no ano passado. Além de mais automóveis circulando pelas cidades brasileiras, a crescente demanda por veículos alterou a composição dos gastos do brasileiro, como mostrou a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada entre 2008 e 2009.

A partir do resultado de janeiro, a medida oficial de inflação brasileira, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), terá sua estrutura de ponderação atualizada de modo a refletir esse novo padrão de consumo das famílias. Entre as principais mudanças está o peso que ganhou transporte no índice e no bolso dos consumidores: entre dezembro e janeiro, o peso do item irá saltar de 18,69% para 20,54%, principalmente por causa da crescente importância do veículo próprio.

Despesas com a compra do automóvel novo ou usado, licenciamento e manutenção representam o segundo maior peso entre todos os que compõem o IPCA, com 10,32%, perdendo apenas para alimentação dentro do domicílio, com 15,15%.

Fátima Cavalcante, vendedora de uma loja de calçados na zona sul de São Paulo, há dois anos decidiu realizar o que era um sonho e comprou seu primeiro carro, um Celta modelo 2003. Para poder arcar com as parcelas, financiadas ao longo de quatro anos, e com as despesas decorrentes, Fátima preferiu sacrificar gastos com lazer, como o churrasco que costumava dar em sua casa nos fins de semana e as idas a bares com amigos.

Leslie Tesóri, analista de desenvolvimento e gestão de pessoas, também chamou de "sonho" a compra de um carro com cheiro de novo. Primeiro ela teve um veículo usado, comprado em 2007. Dois anos depois, "após muita pesquisa, adquiri meu primeiro carro zero quilômetro".
Durante boa parte dos últimos dois anos, Leslie conseguiu equilibrar as parcelas do automóvel com o financiamento do seu apartamento. "Só pude conciliar, porque ainda moro com meus pais e, por enquanto, tenho poucas despesas com habitação. Mas deixei de gastar com vestuário e diminui consideravelmente minhas despesas com lazer", afirmou. De fato, para acomodar gastos maiores com habitação e transportes, a nova ponderação do IPCA mostrou que dispêndios com vestuário e despesas pessoais perderam participação na composição do índice.

Com a necessidade de fazer um aporte maior para receber as chaves do imóvel, Leslie preferiu vender o automóvel. "Ter um carro novo era um sonho, mas veículo não é investimento. Hoje estou comprometida em quitar e montar meu apartamento", afirmou. Grávida, Leslie irá se casar em maio deste ano e está, com a ajuda do noivo, equipando sua nova casa.

Também com a ajuda do marido, que é motorista, Valéria dos Santos equilibra no orçamento familiar a educação das três filhas, alimentação, transporte, habitação e lazer. Ela conta que a família sempre teve automóvel, usado principalmente nos fins de semana. "Com filhos, é difícil ficar sem carro", afirmou. Em 2010, Valéria vendeu o carro antigo e, com o dinheiro, comprou um veículo novo. Agora, após uma batida, estudam trocar novamente de automóvel.

Para Valéria, que trabalha como cabeleireira em um salão de beleza no Morumbi, também é no lazer que a família aperta o cinto quando tem que arcar com as parcelas do veículo. "A gente acaba gastando menos em restaurante. Corta algumas saídas, deixa de pedir a pizza no fim de semana", explicou. Ainda assim, segundo Valéria, é com alimentação que a família gasta mais, tanto dentro quanto fora de casa. As despesas com habitação, que ficam majoritariamente a cargo de seu marido, são importantes, pois a família paga aluguel.

Sempre que pode, Valéria renova os eletrodomésticos da casa. Recentemente, aproveitou os descontos oferecidos na internet e a desoneração de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a linha branca para atualizar a cozinha. Em dezembro, trocou fogão, geladeira e forno de micro-ondas. Como reflexo da nova POF, o peso dos eletrodomésticos passou de 0,94% para 1,09% no IPCA entre dezembro e janeiro.

A educação, por outro lado, perdeu peso no orçamento doméstico. Para Valéria, a fatia gasta com ensino está concentrada em instrução superior e em cursos extracurriculares. A filha mais velha cursa administração de empresas em uma faculdade privada e Valéria a ajudou a pagar as mensalidades durante o primeiro ano do curso. Ela terá que dar a mesma contribuição às filhas mais novas, que estão na escola pública. As meninas ainda frequentam cursos de inglês e informática, pagos pela mãe.

Para Simão Carvalho, o aluguel, principalmente, pesa no orçamento desde que saiu de Londrina, no Paraná, para trabalhar em uma empresa que presta serviços de tecnologia da informação em São Paulo. Mas ele ressalta a despesa mensal que tem com a conta do celular. Embora tenha linha fixa no apartamento que divide com três amigos, Simão afirma que praticamente não a usa. Para otimizar seu tempo, optou por um plano pós-pago com acesso à internet.

"Em São Paulo, não tenho muito tempo livre no horário comercial. E, mesmo quando tenho, tudo aqui é mais longe. Então tento realizar todas as tarefas que posso, como pagamento de contas e compra de passagens, pelo celular. Por isso, tenho um plano de dados que me permite navegar na internet e o uso para qualquer coisa que preciso", afirmou Carvalho.

Autor(es): Por Tainara Machado | De São Paulo
Valor Econômico - 12/01/2012

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