segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


Universidades privadas são reprovadas em gestão

Depois de 38 anos de dedicação a uma instituição, um professor pode até esperar ser demitido. Mas receber esta notícia na véspera do Ano Novo, por telegrama, deixou um mestre arrasado, até porque ele sabe que não está só. No fim de dezembro, estima-se que somente a Universidade Gama Filho, onde ele trabalhava, dispensou cerca de 300 funcionários, incluindo técnico-administrativos. Corte de pessoal, no entanto, é apenas um dos problemas enfrentados por universidades particulares do Rio. Afetadas pela má gestão, segundo especialistas em educação, elas também atrasam salários, não depositam o fundo de garantia dos trabalhadores e, sem alternativa, chegam a fechar as portas. A tradicional Universidade Santa Úrsula, que já teve um dos vestibulares mais concorridos entre as instituições privadas do estado, acaba de suspender as atividades. Sequer fez seleção para 2012.

- Bate uma tristeza ver o que está acontecendo. Parece que a administração quer desmantelar a universidade - diz o professor demitido pela Gama Filho, que não quer se identificar.

No ano passado, a universidade passou a ser administrada pelo grupo Galileo Educacional, que, em nota, informou que está fazendo "reestruturação administrativa e acadêmica, com o objetivo de oferecer infraestrutura adequada ao ensino de qualidade". No comunicado, diz que a mudança de natureza jurídica da mantenedora, antes filantrópica, causou um impacto de 25% nos custos da instituição relativos à tributação. Os alunos sentiram no bolso o peso desse percentual. No curso de Medicina, a mensalidade de R$ 2.700 passou para R$ 3.450.

- Pagava R$ 690, mas até dia 5 tinha 20% de desconto. Agora é R$ 815, sem desconto - diz Helena Martins, do 3 período de Enfermagem da Gama Filho.

Muita vaga para pouco candidato

A UniverCidade, outra instituição carioca administrada pelo grupo Galileo, também demitiu aproximadamente 300 profissionais no fim de 2011, segundo o Sindicato dos Professores do Município (Sinpro-Rio). Além disso, fechou uma unidade. Na Rua Dona Isabel, em Bonsucesso, o letreiro já foi arrancado da fachada do prédio 94. Do lado de fora da faculdade, através das grades do portão, é possível observar as cadeiras empilhadas no corredor.

Procurada pelo GLOBO, a instituição não respondeu às perguntas enviadas por e-mail. No entanto, funcionários contaram que os alunos estão sendo informados sobre as mudanças.

Ludmila Santos, aluna do 5período de Administração da UniverCidade, diz que não recebeu comunicado da instituição. Apenas o boleto com o valor da mensalidade de janeiro, reajustado em 18%:

- Vou pagar R$ 550, mas não sei onde vou estudar.

O futuro de Rodrigo Carvalho de Souza é ainda mais incerto. Bolsista do curso de Direito, ele teme pelo fim do benefício:

- Tenho 63 anos e passei em primeiro lugar no vestibular. Ganhei bolsa integral.

Vice-presidente do Sinpro-Rio, Antonio Rodrigues diz que a crise enfrentada por algumas faculdades particulares é reflexo do crescimento desordenado ocorrido nos últimos dez anos, sem o devido controle do estado. Amanhã, haverá uma reunião no sindicato para os professores demitidos pela Gama Filho e pela UniverCidade.

- Quem não tem competência não se estabelece. As instituições privadas detêm mais de 70% do ensino superior no país. Existe uma seleção natural, e a crise é efeito da concorrência. Algumas expandiram muito - avalia Rodrigues.

Integrante do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, Maria Helena Guimarães Castro fez parte do Ministério da Educação de 1995 a 2002. Foi presidente do Inep e secretária-executiva do MEC no período em que ocorreu a expansão do ensino superior. Hoje, ela reconhece que a demanda não cresceu na mesma intensidade da oferta no setor:

- A demanda não se confirmou. No país, há 1,8 milhão de formandos no ensino médio para 2,2 milhões de vagas. Além disso, muitos chegam à faculdade despreparados e não continuam no curso. A evasão afeta as finanças, e algumas faculdades optam pela fusão com grupos e outras instituições de ensino, pressionando faculdades menores - analisa Maria Helena, que espera mais fiscalização por parte do governo. - Falta uma política para o ensino superior. O MEC baixa normas, faz avaliações, mas não basta. Não adianta autorizar abertura de mais faculdades se não há demanda. Haverá mudança no ministério, é um bom momento para discutir o assunto.

Segundo o Sinpro-Rio, a Universidade Castelo Branco, que está com dois meses de salários atrasados, fez um empréstimo bancário recentemente. Mas, em vez de quitar a dívida com os profissionais, montou nova unidade num shopping da Zona Norte. Em nota, o Centro Educacional de Realengo, mantenedor da Castelo Branco, informou que já está tomando "providências possíveis e necessárias para acertar o pagamento".

Na Universidade Candido Mendes, o FGTS não é depositado há mais de dez anos, segundo a professora Magna Corrêa Lima Duarte. A reportagem fez contato por telefone, mas não conseguiu localizar representantes da instituição.

Problemas financeiros também afetam a Santa Úrsula, que, segundo professores, já ofereceu cadeiras para pagar uma dívida trabalhista. De acordo com o advogado Sérgio Bermudes, que representa a universidade, a instituição não esconde suas dificuldades. No ano passado, diz ele, havia 183 matriculados, a maioria bolsista:

- A Santa Úrsula não acompanhou o desenvolvimento do ensino superior no país. Decidimos suspender as atividades para buscar uma solução, quem sabe uma parceria com outra instituição. Também nos preocupamos com os alunos. Vamos tentar indicar instituições a eles.

Ediane Merola (ediane@oglobo.com.br) www.oglobo.com.br

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