quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

BC quer taxa de juros em nível neutro

Objetivo é que Selic permita crescimento econômico e não pressione a inflação
O Banco Central (BC) aproveitará o bom momento do país para testar os limites da economia.
Cortará a taxa básica de juros (Selic) além do que espera o mercado financeiro e tentará alcançar o chamado “juro neutro” — taxa que propicia o crescimento e não cria pressões inflacionárias.
Essa é a interpretação de alguns analistas.
Uma das apostas é que esse número estaria em torno de 5% ao ano.
— Há poucas pessoas falando nisso em público, mas o assunto está em todas as conversas bilaterais com o BC — confirma uma alta fonte da autoridade monetária.
Um corte maior do que se estimava foi uma dedução dos especialistas ao receberem, na última segunda-feira, um questionário do BC com perguntas que levam à mesma conclusão economistas que cultivam opiniões divergentes: há espaço para derrubar os juros no Brasil.
Foram feitas perguntas simples e diretas.
A primeira delas, e mais importante, era qual seria essa taxa neutra.
É um número difícil de se conseguir, porque depende de várias outras estimativas que diferem entre as instituições.
As outras perguntas são sobre o comportamento dessa taxa nos últimos dois anos e qual será nos próximos dois anos.
— Por mais divergentes que sejam os economistas, todos vão concordar que a taxa está mais baixa e há espaço para mais queda de juros.
O que o Banco Central quer é preparar o terreno para as próximas decisões do Copom e o questionário serve menos para mostrar o que a gente acha, mas o que ele quer — disse André Perfeito, economista da corretora Gradual.
Segundo ele, o BC quer mais: mostrar que não faz sentido os juros cobrados dos consumidores e empresas serem tão altos no Brasil, que tem fundamentos melhores que vários países com taxas mais baixas para a população.
Perfeito contou que a autoridade monetária sabe que será traumático o processo de redução dos juros ao consumidor e que isso tem de ser feito de forma lenta.
Esse questionário teria sido um grande passo.
O economista ressaltou que o levantamento faz perguntas sobre a taxa natural de desemprego — mais um item de difícil cálculo — e que tem papel determinante na política de juros, por ser uma das engrenagens do sistema de metas da inflação.
— É outro recado: o BC está falando que está comprometido com o sistema de metas para a inflação — completou .
Para economista, âncora fiscal é fundamental
Para Bráulio Borges, da corretora LCA, essa ação do Banco Central mostra um comprometimento em atingir juros reais (taxa básica descontada a inflação) de 2% a 3%, como deseja a presidente Dilma Rousseff.
Só que, para isso, seria fundamental — na opinião do economista — a “âncora fiscal”, ou seja, cortes de gastos do governo para contrabalançar uma queda dos juros e abrir espaço para o BC testar juros mais baixos.
— O setor público representa muito, é um terço de toda a economia do Brasil.
Isso significa que os gastos do governo estão para o país como os Estados Unidos estão para o mundo — disse uma fonte do Banco Central.
A perspectiva de Borges é que essa taxa será de 5%, por causa dos depósitos compulsórios recordes que tiram dinheiro da economia.
No entanto, ele pretende ver qual será o comportamento da política fiscal neste ano para ter certeza.
No ano passado, o corte prometido no orçamento de R$ 50 bilhões foi cumprido.
Os economistas têm até o dia 17 para devolverem o questionário com as respostas.
Depois do carnaval, os técnicos do BC começarão a analisar os dados.
Os resultados serão divulgados apenas no fim do mês.

Autor(es): Gabriela Valente
O Globo - 08/02/2012

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