segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Vejo inteligência no BC brasileiro"

Autor do termo Bric, que reúne Brasil, Rússia, Índia e China, o economista do Goldman Sachs defende a queda dos juros, mas alerta para o risco de desindustrialização do país
Jim O'Neill

O economista Jim O"Neill, do banco norte-americano Goldman Sachs e inventor da sigla Bric, que designa as principais economias emergentes — Brasil, Rússia, Índia e China —, reconhece os avanços brasileiros nas últimas duas décadas. Mas está convencido de que o trabalho que levou o país a se tornar a sexta maior economia do mundo ainda está pela metade. Para ele, o encontro com o futuro depende, sobretudo, da retomada das reformas estruturais, como a tributária e a da Previdência, que foram abandonadas pelo governo, da redução dos gastos públicos e do combate à valorização do real ante o dólar.

Mais otimista que a maioria de seus pares, O'Neill vê inteligência na decisão do Banco Central de reduzir os juros básicos da economia (Selic) desde agosto de 2011 e de indicar que o país caminha para taxas de um dígito. O processo, porém, deve ser feito com cautela, mantendo intacto o sistema de metas de inflação, adotado em 1999. "A definição de uma meta de inflação (hoje de 4,5% ao ano) foi essencial para as transformações vividas pelo Brasil nos últimos anos", afirma.

Quase 11 anos depois de usar o termo Bric pela primeira vez, o economista discorda da inclusão da África do Sul nesse grupo. "Não acredito que a África do Sul possa fazer parte do Bric. O Produto Interno Bruto (PIB) sul-africano corresponde a apenas um quinto do da Rússia. O país não é grande o suficiente para estar no mesmo grupo", diz.

O"Neill revela surpresa com o desempenho desse conjunto de economias, que cresceu mais do que ele esperava. "A minha projeção mais otimista era de que, juntas, avançariam 14% até 2010, mas cresceram 18%", ressalta. Na sua visão, o ano começou com pragmatismo, mas com boas perspectivas. Ele critica os mais pessimistas e menospreza os que acreditam que a crise europeia contagiará todo o mundo. Para o economista, a economia global avançará, em média, 4,3% por ano até 2019, ritmo mais forte do que o dos últimos 30 anos, graças aos países do Bric. "A Europa entrará em recessão em 2012, processo que será superado no ano que vem". A seguir, os principais pontos desta entrevista de O"Neill.

Os avanços do Brasil nos últimos 20 anos são nítidos. O país é hoje a sexta potência mundial. Quais foram os principais ganhos dos brasileiros, além do aumento da renda e do ingresso de milhões de pessoas na classe média?

A adoção do regime de metas de inflação é o coração da política macroeconômica que está transformando o Brasil e garantindo tantas conquistas para a população do país. Mas ainda há muito a ser feito, principalmente as reformas estruturais, que foram abandonadas nos últimos anos — entre elas, a tributária e a da Previdência.

Quais são as prioridades que o atual e os próximos governos devem seguir, nas próximas duas décadas, para que o Brasil chegue ao seleto clube das cinco potências econômicas?

É importante reduzir o risco da doença holandesa (desindustrialização). Por isso, o país precisa reduzir a dependência da forte alta dos preços das commodities (itens básicos com cotação internacional, como produtos agrícolas e minérios), que dominam as exportações brasileiras e vêm garantindo elevados saldos comerciais. É necessário, também, diminuir o peso dos gastos públicos no PIB, ter taxa de juros mais baixas e um real menos valorizado. Ao mesmo tempo, é imprescindível manter a inflação sob controle. Ou seja, são muitas e árduas tarefas.

A inflação voltou a subir e encerrou 2011 em 6,5%, no teto da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional. O Banco Central está no caminho certo na condução da política monetária, ao anunciar que o país está caminhando para uma taxa de juros de um dígito?

Por enquanto, o BC tomou as medidas corretas, sobretudo quando se antecipou ao risco de contágio global da crise europeia aumentou e quando identificou que o crescimento da economia brasileira havia enfraquecido. Pode ter sido sorte em suas ações, mas, provavelmente, foi inteligência. Obviamente, a médio prazo, manter-se perseguindo a meta de inflação é vital para garantir todas as conquistas, que, por sinal, são muitas.

Em 2001, o senhor cunhou o termo Bric para definir as economias emergentes que cresciam de forma mais acelerada: Brasil, Rússia, Índia e China. No ano passado, a África do Sul foi incorporada ao foro criado pelos líderes do Bric. Ao olhar para trás e ver hoje o desempenho dessas economias e a importância que elas conquistaram, qual a sua avaliação?

Todas essas economias tiveram crescimento muito mais forte do que havia previsto, incluindo a Rússia. Em 2001, esbocei uma série de cenários. A minha projeção mais otimista era de que, juntas, elas avançariam 14% ao ano até 2010. Mas cresceram 18% anuais. Quanto à África do Sul, nunca acreditei que pudesse fazer parte do Bric. Para mim, o que existe ainda é o Bric, não o Brics. O PIB sul-africano corresponde a apenas um quinto do da Rússia. O país não é grande o suficiente para estar no mesmo grupo.

O senhor acredita que a atual crise econômica possa durar uma década, como alguns economistas preveem?

Não. Essa estimativa é muito pessimista. A Europa vai lutar em 2012 para sair da crise. Provavelmente, entrará em recessão, que será superada no ano seguinte. Todas as crises parecem ruins, principalmente quando se está dentro dela. Mas, depois da superação, algo bom sempre acontece.
Christine Lagarde

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, tem afirmado que as perspectivas econômicas são "nebulosas" e nenhum país está imune ao cenário da crise. O senhor concorda?

Considero essa visão muito deprimente. O mundo é impulsionado pelos Brics e pelos Estados Unidos e não pela Europa. Mesmo a Alemanha, que é o coração da Europa, não está totalmente enfraquecida. Os europeus se beneficiam das exportações para os países do Bric.
Como o senhor vê os demais membros do Bric no contexto global de turbulência financeira?

Eu poderia passar horas respondendo essa pergunta. A crise proporciona benefícios para todos os países do bloco porque o futuro depende unicamente deles mesmos e de ninguém mais. A China é especialmente importante e tem os seus dias de exportador de produtos muito baratos contados. Seu futuro depende do consumo interno e não das exportações e dos investimentos. O país atravessa uma fase de transição, o que ficará mais claro em 2012. A Índia nunca dependeu das exportações e precisará se fortalecer, ter uma liderança mais clara, como a da China. A Índia tem o melhor potencial a longo prazo entre todos os Brics, mas é o mais fraco em tomada de decisões. A Rússia é muito dependente de petróleo e gás. Qualquer coisa que deixe os líderes preocupados sobre os preços do petróleo é, em última análise, bom para ela.

Autor(es): » ROSANA HESSEL
Correio Braziliense - 06/02/2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário