terça-feira, 20 de março de 2012

Mínimo puxa aumento real de 3,65% dos salários

GANHO DEVE REAL PERDER FORÇA AO LONGO DO ANO

O aumento real de 7,5% do salário mínimo em janeiro indexou informalmente o reajuste negociado nas convenções coletivas de trabalho de categorias com data-base no início do ano. O aumento médio real negociado em janeiro foi de 3,65% - o dobro do registrado em dezembro, de 1,82%, segundo levantamento realizado pelo Valor em cem acordos registrados no Ministério do Trabalho.

O aumento real foi puxado pela negociação de categorias menos qualificadas e cujos pisos salariais estão muito próximos do salário mínimo e, por isso, precisam ser reajustados por taxas semelhantes. Além disso, predominaram, entres os reajustes mais expressivos, aqueles concedidos nas regiões Nordeste e Norte do país.

Entre as cem convenções coletivas analisadas, 20% apresentaram reajuste salarial de pelo menos 14% - o mínimo aumentou 14,13% em termos nominais em janeiro, chegando a R$ 622. "A influência do reajuste do mínimo nas negociações coletivas é muito forte até maio, período em que se concentram os dissídios, mas vai perdendo força ao longo do ano", explica Fábio Romão, economista da LCA Consultores.

As regiões Norte e Nordeste, onde a média salarial é menor que no Centro-Sul, representam 48% do total de convenções analisadas. E foi o Nordeste que puxou para cima o índice nacional, com 4,72% de aumento real médio em janeiro. O reajuste real negociado em 11 Estados e no Distrito Federal ficou acima da média nacional de 3,65% em janeiro. Desse grupo, sete são nordestinos (Sergipe, Rio Grando do Norte, Alagoas, Piauí, Pernambuco, Maranhão e Bahia) e um é do Norte (Pará). Também aparecem na lista Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso. A Região Sul, que paga tradicionalmente reajustes altos, aparece em último lugar, com aumento real médio de 2,96%.

No Rio Grande do Norte, o Sindicato dos Empregados no Comércio Hoteleiro conseguiu, para o piso salarial, reajuste de 14,8%, o que representou um aumento real de 8,68%. O Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Refeições Coletivas, Refeições Rápidas e Afins tem acompanhado o índice de reajuste do piso estadual desde 2010. Na negociação deste ano, o reajuste conquistado foi de 15,08% - um aumento real de 8,95%.

O alto índice de aumento real conquistado em janeiro pelos trabalhadores deve perder força ao longo de 2012, segundo especialistas em mercado de trabalho consultados pelo Valor. Em janeiro, a média de ganho real em cem convenções coletivas registradas no Ministério do Trabalho foi de 3,65%, mas é a influência do reajuste do salário mínimo que explica esse aumento. "Quando o mínimo sobe fortemente, as negociações ganham impulso. Neste ano, a influência do piso nacional veio com peso ainda maior, mas esse efeito deve durar, no máximo, até abril", diz José Silvestre, coordenador de relações sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Para o economista da LCA Consultores, Fabio Romão, os dissídios nesta época do ano têm uma particularidade. "A influência do reajuste do salário mínimo nas negociações coletivas é muito forte até maio, mês em que se concentram os dissídios, mas vai perdendo força ao longo do ano, trazendo os índices para baixo", explica.
Para Romão, a tendência é que o índice médio nacional caia gradualmente, pois os trabalhadores cujo piso salarial e salário médio são superiores ao mínimo devem encontrar mais dificuldades em conquistar ganhos reais expressivos, já que a atividade foi fraca nos últimos trimestres de 2011 e deve permanecer assim no começo deste ano. "Os trabalhadores que recebem o mínimo não representam nem 25% do total da população ocupada. Os outros 75% terão dificuldades para negociar salários. Em contrapartida, a taxa de desemprego continua baixa, o que pode ajudá-los a barganhar", diz.
Há uma concentração de categorias menos expressivas, com bases e poder de negociação menores no início do ano, segundo Silvestre. "A influência do mínimo nas negociações não acontece em categorias como a dos metalúrgicos e a dos bancários, cujos pisos salariais são maiores." Segundo ele, os índices conquistados no primeiro quadrimestre não são uma boa medida para prever a taxa média do ano. "Nesse período, as projeções para o desempenho da economia ainda são prematuras. Pode haver grandes mudanças."
Segundo o Dieese, que divulgará o balanço dos reajustes salariais negociados em 2011 nesta quarta-feira, o mesmo setor apresenta índices muito diferentes dependendo da região onde foi realizada a negociação. A região Sul, por exemplo, aparece em último lugar entre as macrorregiões, com ganho real médio de 2,96%. "Os pisos do Nordeste estão bem próximos ao piso nacional. Quando o mínimo sobe, eles sobem a taxas semelhantes, porque não podem ficar menores que o salário mínimo. Isso normalmente não acontece onde já se paga valores maiores", diz Silvestre.
O Nordeste puxou para cima o índice nacional, com 4,72% de aumento real médio em janeiro. "Esse índice reforça a influência do mínimo. Há uma porção maior de ocupados com salário indexado ao salário mínimo na região Nordeste", diz Fabio Romão, da LCA.
"Nós sempre usamos o mínimo como parâmetro. Nosso piso é muito baixo, por isso nos espelhamos no que acontece no país", afirma Paulo Nicácio, diretor-financeiro do Sindicato dos Trabalhadores em Asseio, Conservação e Limpeza Urbana em Alagoas. Para não ficar abaixo do piso nacional, o reajuste conseguido pelo sindicato em Alagoas foi de 14%.
Autor(es): Por Carlos Giffoni | De São Paulo
Valor Econômico - 20/03/2012

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