sexta-feira, 6 de abril de 2012

INFLAÇÃO DESABA E JURO DEVE CAIR MAIS



AUMENTA PRESSÃO PARA BANCOS BAIXAREM JURO



Diminuição nos calotes, inflação em queda, novo corte na taxa Selic e medidas que a Caixa anuncia na segunda-feira integram o arsenal do governo para forçar instituições financeiras privadas a oferecer crédito mais barato e impulsionar a economia

IPCA registra alta de 0,21% em março. No trimestre, a taxa fica em 1,22%, a menor para o período em 12 anos. A presidente Dilma Rousseff acredita que está esvaziando o discurso do sistema bancário por crédito tão caro

A presidente Dilma Rousseff ganhou ontem uma arma poderosa para manter firme a pressão contra os juros extorsivos cobrados pelos bancos. A inflação, que todos os analistas olhavam com ressalva, despencou no mês passado, aliviando o orçamento das famílias e reduzindo os riscos de disparada da inadimplência. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de apenas 0,21%, o segundo menor resultado para meses de março desde 1994, quando foi editado o Plano Real. No acumulado do primeiro trimestre, a taxa cravou elevação de 1,22%, o patamar mais baixo em 12 anos.

"Só temos a comemorar", disse um dos assessores mais próximos da presidente Dilma. "Esses números confirmam que estamos no caminho certo. Tanto o Banco Central deve continuar cortando a taxa básica de juros (Selic) quanto os bancos precisam reduzir os custos dos empréstimos e dos financiamentos a empresas e aos consumidores", acrescentou. Na avaliação do Palácio do Planalto, com os preços subindo a um ritmo mais fraco, o poder de compra dos lares vai melhorar. E é para isso que os bancos devem olhar. "É inacreditável o fato de as instituições financeiras sequer estarem repassando à clientela os cortes da taxa Selic, iniciado em agosto do ano passado. É ganância demais", frisou.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a desaceleração do IPCA foi geral. Em 12 meses, a inflação recuou para 5,24%, ficando, pelas contas do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, abaixo dos 5,5% esperados pelo BC. Ele ressaltou que o índice já está rodando em torno de 4,15% ao ano, ou seja, abaixo do centro da meta de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). "Não há dúvidas: a surpresa foi geral. O resultado do IPCA de março foi muito bom. Tão bom que ficou 0,16 ponto percentual abaixo do 0,37% estimado pelo mercado", disse. Em fevereiro, o indicador havia cravado elevação de 0,45%.

Educação

Além do grupo educação — a maior parte do aumento havia sido captada em fevereiro —, os itens de vestuário, com deflação de 0,61%, e os artigos de residência, que baixaram 0,40%, contribuíram para o IPCA tão baixo. Também ajudaram na descompressão do indicador as commodities (produtos básicos com cotação internacional). "Com certeza, o nível de inflação deste ano está menor do que no começo de 2011, quando vimos alta de 2,44% (54% da meta central perseguida pelo BC) entre janeiro e março. O perfil de reajustes deste ano está bem mais suave", assinalou Eulina Nunes dos Santos, coordenadora dos índices de preços do IBGE.

Para o aposentado Honório Benat, 80 anos, ainda não há muito o que comemorar. Como ele acompanha o sobe e desce dos preços com uma calculadora e uma tabela nas mãos, prefere esperar para conferir se o que o IBGE está dizendo é uma tendência ou apenas um alívio temporário. No supermecado, ao lado da filha, Maria Luzia Neri, 40, ele pesquisa muito antes de encher os dois carrinhos com as compras mensais. "Para as classes média e baixa, os alimentos ainda estão bem caros", reclamou Benat. A seu ver, os maiores tormentos das famílias atualmente são a carne e o leite "muito instáveis". "Os preços do café também estão exorbitantes", completou.

A secretária Simone Viana, 41 anos, não esconde a felicidade com os preços mais acessíveis dos artigos de vestuário. "As lojas estão liquidando as peças de verão para colocar nas vitrines as roupas de frio", disse. Ela contou que percebeu a redução, principalmente, no preço da calça comprida. "Achei jeans por R$ 39. Há alguns meses, a mesma calça custava R$ 80", afirmou. Segundo o IBGE, além das liquidações, o comércio está segurando os preços das roupas por causa da competição com produtos importados.
"É um resultado excepcional"

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, classificou como "excepcional" o resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em março, com alta de apenas 0,21%. Na sua avaliação, o número mostra que o custo de vida está sob controle e abre espaço para o crescimento maior da economia neste ano. A expectativa do ministro é de que o Banco Central corte pelo menos mais 0,75 ponto percentual da taxa básica de juros (Selic) neste mês, de 9,75% para 9% ao ano, e os bancos barateiem o crédito para sustentar o consumo e os investimentos produtivos. Apesar do ceticismo do mercado, que aposta em um avanço de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2012, Mantega acredita em um salto de 4,5%.

Autor(es): » VICENTE NUNES
Correio Braziliense - 06/04/2012

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