terça-feira, 5 de junho de 2012

Intervenção no Cruzeiro do Sul


BC intervém no Banco Cruzeiro do Sul


Após identificar rombo de R$1,3 bilhão no banco, BC afasta administradores.Polícia Federal investiga crime de gestão fraudulenta

O Banco Central decretou ontem intervenção no Banco Cruzeiro do Sul e afastou os administradores da instituição, suspeitos de esconder um rombo de caixa estimado em R$ 1,3 bilhão. Os executivos terão ainda que responder a inquérito da Polícia Federal, que vai investigar se eles cometeram crime de gestão fraudulenta.

Para evitar que as irregularidades contaminem o restante do mercado, o BC nomeou como gestor do banco o Fundo Garantidor de Crédito (FGC)—criado pelo próprio setor privado para garantir depósitos de clientes até R$ 70 mil. Enquadrada no Regime de Administração Especial Temporária (Raet), a instituição terá 180 dias para se reorganizar financeiramente, período em que poderá continuar funcionando.

A solução para o problema pode ser um aporte de recursos dos donos para cobrir o prejuízo, a venda ou, em último caso, a liquidação extrajudicial.

Além do banco, a intervenção atinge a corretora de valores, a distribuidora de títulos e valores mobiliário, a empresa securitizadora de créditos e a holding financeira do grupo. Segundo a autoridade monetária, a medida foi tomada por terem sido verificados descumprimento de normas do sistema financeiro e "insubsistência em itens de ativos". Os donos do Cruzeiro do Sul, Luís Octávio Índio da Costa, o pai dele, Luís Felippe, e mais 13 administradores, tiveram os bens bloqueados para garantir os direitos de credores e clientes.O patrimônio pessoal dos envolvidos ficará indisponível até que o BC determine quem são os responsáveis pelo rombo.

Salvação

Em reunião com o Banco Central na noite do último domingo, a família Índio da Costa admitiu que a intervenção era inevitável.

Luiz Octávio Índio da Costa
Luís Octávio Índio da Costa, entretanto, ainda conseguiu convencer a autoridade monetária de que o Cruzeiro do Sul tem salvação e pode ser vendido. Os diretores e o presidente o BC, Alexandre Tombini, optaram, então, por uma intervenção branda e decidiram usar o Raet, programa que tem por objetivo resolver os problemas de gestão e trocar os administradores, mas mantém o banco de portas abertas para que os clientes não sejam prejudicados. "O Cruzeiro do Sul tem salvação", garantiu um técnico do governo que acompanhou as negociações.

Embora tente passar a imagem de que a fiscalização está mais rigorosa, o BC tem sido supreendido por episódios como o do Banco Morada, com sede no Rio de Janeiro, liquidado em outubro do ano passado, e o Banco PanAmericano, que quase levou o empresário Sílvio Santos à falência. Em 2009, o apresentador se valeu de um empréstimo do FGC para sanar fraudes contábeis na instituição, mas, um ano depois, já na gestão Tombini, descobriu-se que o rombo era muito maior. O banco acabou vendido para o BTG Pactual, controlado por André Esteves— que estudava também a compra do Cruzeiro do Sul, mas desistiu por desconfiar dos números do balanço.

Segundo fontes do mercado, haveria cerca de 300 mil operações fictícias de crédito na contabilidade, com o propósito de encobrir prejuízos. Antônio Carlos Bueno, diretor-executivo do FGC, disse que os problemas que provocaram a intervenção estão localizado em uma carteira de crédito antiga, mas evitou entrar em detalhes. Segundo ele, o valor de R$ 1,3 bilhão ainda é uma estimativa para a deficiência de caixa do banco, cujas contas serão auditadas pela Price Waterhouse- Coopers. "Tudo indica que esse é o número, masnão sabemos com exatidão", afirmou Bueno dando a entender de que o rombo poder ser ainda maior.

Os fundos de recebíveis, que destinam a maior parte do patrimônio para a compra de direitos creditórios, como duplicatas, cheques pré-datados e contratos, serão os primeiros a ser esquadrinhados. Um deles, de R$ 4,2 bilhões, é administrado pelo Bradesco. Se fosse decretada a liquidação do Cruzeiro do Sul, o FGC teria de bancar R$ 2,2 bilhões. Além disso, o banco ainda tem uma dívida de R$ 2,8 bilhões no exterior.

Técnicos do governo e do mercado garantem que, apesar da semelhança com o caso PanAmericano, o problema é pontual e que não envolve créditos podres. Segundo integrantes da equipe econômica, apesar das queixas de algumas instituições pequenas, não há problema de liquidez em nenhum segmento do mercado bancário. As medidas de incentivo à compra de carteiras, adotadas pelo BC no ano passado, teriam suprido a carência de recursos, tanto que, em 21 de maio, a autoridade monetária suspendeu parcialmente os benefícios.

Autor(es): VICTOR MARTINS » VÂNIA CRISTINO
Correio Braziliense - 05/06/2012

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