segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Banco Central e a Inflação


Previsibilidade é a palavra-chave para previnir turbulências no mercado financeiro. Se os agentes do mercado ganham dinheiro com o sobe e desce das cotações de ativos, cabe ao Banco Central (BC) levar a este cenário - onde o dinheiro corre frouxo e exageros são bem-vindos - previsíveis certezas que neutralizem a ação desses agentes. Por isso desde o final dos anos 90 foram criados instrumentos de proteção contra especuladores, e entre eles despontam o Comitê de Política Monetária e o sistema de metas de inflação. Esperadas com avidez pelo mercado, as atas das reuniões do comitê costumam ir além dos fundamentos que justificam a decisão sobre juros, indicando intenções futuras do BC. Como quando, há dias, o BC preveniu que cessaram os cortes da taxa Selic. Se o governo escorrega, vacila e transmite dúvidas sobre suas intenções em política macroeconômica, abre a porteira para a especulação e o desequilíbrio do mercado financeiro e fecha para quem tem intenção de investir. Além de dificultar cálculos que definirão o futuro de seu negócio, o investidor privado passa a temer que a dúvida se traduza em mudança de rumos no futuro e acaba adiando ou desistindo do investimento. É o que de pior pode acontecer agora, quando o País busca sair de taxas medíocres de crescimento econômico e o investimento produtivo e em infraestrutura é fundamental para isso. Foi preocupado com a porteira que, num de seus mais longos discursos para uma plateia lotada de potenciais investidores, o presidente do BC, Alexandre Tombini, reafirmou a eficácia econômica do sistema de metas de inflação, que economistas e consultores vinham avaliando como superado, enfraquecido e substituído pela meta dos juros. "Após 13 anos de adoção e 8 anos consecutivos em que as metas foram cumpridas, o regime de metas se consolidou e comprovou ser o que melhor se adapta à realidade brasileira e a um ambiente global em que os choques têm sido cada vez mais frequentes e mais intensos. Nos próximos anos a política monetária continuará sendo conduzida tendo como foco, exclusivamente, o compromisso com a estabilidade de preços, seguindo a abordagem das metas para a inflação", afirmou Tombini. Na ênfase nessa "exclusividade" de compromisso está implícito que, se a inflação fugir do intervalo da meta, o BC vai elevar os juros, sim. Mas ele não garantiu ter por objetivo perseguir os 4,5% do centro da meta, deixando no ar a tolerância em aceitar um índice mais alto, mas que não ultrapasse o teto de 6,5% - como aconteceu em 2011, este ano e pode se estender até 2014, na projeção de bancos e consultorias. Ao perceber que a análise da prioridade do juro sobre a inflação vinha ganhando espaço e gerando um ambiente confuso de incertezas, desfavorável ao investimento, Tombini veio a público esclarecer que o BC não abandonou o sistema de metas de inflação - uma das pernas do tripé que tem sustentado o sucesso da política macroeconômica. Previsibilidade, transparência e estabilidade de preços são condições indispensáveis, mas não suficientes, para estimular o investimento. Decisões de ampliar a produção industrial dependem ainda da taxa de crescimento econômico, que depende de infraestrutura fluente, bem suprida e eficaz. Aqui está o problema. Embora o governo se aproprie de 36% de toda a riqueza produzida pelo País, investe só 2%. Ou seja, precisa do investidor privado. Mas a falta de um programa bem planejado, as frequentes intervenções do Estado na economia, agências reguladoras mal aparelhadas, incertezas regulatórias e longas indecisões do governo têm atrapalhado e desencorajado o investidor privado. O caso dos aeroportos é um exemplo. Por ter criado regras erradas, o governo colheu um resultado ruim na primeira licitação. Agora tenta consertar o erro, mas quer impor o Estado como sócio majoritário. Primeiro, com a Infraero no comando; depois, agregando os fundos de pensão de estatais. Após ouvir um sonoro não das grandes operadoras, tudo indica que a solução será seguir o modelo de privatização de FHC. Perdeu tempo e está atrasado para a Copa.

Suely Caldas
O Estado de S. Paulo - 28/10/2012
Suely Caldas JORNALISTA, É PROFESSORA DA PUC-RIO

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