quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Banco Central lança 'Calculadora do Cidadão'
 Aplicativo permite calcular investimentos e financiamentos



 
O Banco Central (BC) lançou ontem um aplicativo para iPhone e Android da "Calculadora do Cidadão" que já está disponível na App Store e na Google Play. Agora, pelo celular, é possível calcular quanto um investimento renderá ou quantas parcelas serão necessárias para se quitar uma dívida, descobrir o valor gasto com juros num crediário ou prever o rendimento da caderneta de poupança.

A ferramenta, a mais popular do Banco Central, está no site da instituição desde 2006. ( http://www.bcb.gov.br/?CALCULOSINDCOT ). O lançamento para celular foi feito ontem no IV Fórum Banco Central de Inclusão Financeira, em Porto Alegre.

No aplicativo, na opção de correção monetária, mais de dez índices podem ser escolhidos pelo usuário, entre eles, IGP-DI, IGP-M, IPCA e o IPC-SP da Fipe. Há ainda dados de taxas de juros e da poupança - no caso da caderneta, diferenciando o comportamento dos depósitos antigos, antes das mudanças da regra de remuneração em maio deste ano, dos depósitos feitos após essa data.

O usuário pode copiar os dados ou ainda enviar por e-mail os resultados dos cálculos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Banco Central e a Inflação


Previsibilidade é a palavra-chave para previnir turbulências no mercado financeiro. Se os agentes do mercado ganham dinheiro com o sobe e desce das cotações de ativos, cabe ao Banco Central (BC) levar a este cenário - onde o dinheiro corre frouxo e exageros são bem-vindos - previsíveis certezas que neutralizem a ação desses agentes. Por isso desde o final dos anos 90 foram criados instrumentos de proteção contra especuladores, e entre eles despontam o Comitê de Política Monetária e o sistema de metas de inflação. Esperadas com avidez pelo mercado, as atas das reuniões do comitê costumam ir além dos fundamentos que justificam a decisão sobre juros, indicando intenções futuras do BC. Como quando, há dias, o BC preveniu que cessaram os cortes da taxa Selic. Se o governo escorrega, vacila e transmite dúvidas sobre suas intenções em política macroeconômica, abre a porteira para a especulação e o desequilíbrio do mercado financeiro e fecha para quem tem intenção de investir. Além de dificultar cálculos que definirão o futuro de seu negócio, o investidor privado passa a temer que a dúvida se traduza em mudança de rumos no futuro e acaba adiando ou desistindo do investimento. É o que de pior pode acontecer agora, quando o País busca sair de taxas medíocres de crescimento econômico e o investimento produtivo e em infraestrutura é fundamental para isso. Foi preocupado com a porteira que, num de seus mais longos discursos para uma plateia lotada de potenciais investidores, o presidente do BC, Alexandre Tombini, reafirmou a eficácia econômica do sistema de metas de inflação, que economistas e consultores vinham avaliando como superado, enfraquecido e substituído pela meta dos juros. "Após 13 anos de adoção e 8 anos consecutivos em que as metas foram cumpridas, o regime de metas se consolidou e comprovou ser o que melhor se adapta à realidade brasileira e a um ambiente global em que os choques têm sido cada vez mais frequentes e mais intensos. Nos próximos anos a política monetária continuará sendo conduzida tendo como foco, exclusivamente, o compromisso com a estabilidade de preços, seguindo a abordagem das metas para a inflação", afirmou Tombini. Na ênfase nessa "exclusividade" de compromisso está implícito que, se a inflação fugir do intervalo da meta, o BC vai elevar os juros, sim. Mas ele não garantiu ter por objetivo perseguir os 4,5% do centro da meta, deixando no ar a tolerância em aceitar um índice mais alto, mas que não ultrapasse o teto de 6,5% - como aconteceu em 2011, este ano e pode se estender até 2014, na projeção de bancos e consultorias. Ao perceber que a análise da prioridade do juro sobre a inflação vinha ganhando espaço e gerando um ambiente confuso de incertezas, desfavorável ao investimento, Tombini veio a público esclarecer que o BC não abandonou o sistema de metas de inflação - uma das pernas do tripé que tem sustentado o sucesso da política macroeconômica. Previsibilidade, transparência e estabilidade de preços são condições indispensáveis, mas não suficientes, para estimular o investimento. Decisões de ampliar a produção industrial dependem ainda da taxa de crescimento econômico, que depende de infraestrutura fluente, bem suprida e eficaz. Aqui está o problema. Embora o governo se aproprie de 36% de toda a riqueza produzida pelo País, investe só 2%. Ou seja, precisa do investidor privado. Mas a falta de um programa bem planejado, as frequentes intervenções do Estado na economia, agências reguladoras mal aparelhadas, incertezas regulatórias e longas indecisões do governo têm atrapalhado e desencorajado o investidor privado. O caso dos aeroportos é um exemplo. Por ter criado regras erradas, o governo colheu um resultado ruim na primeira licitação. Agora tenta consertar o erro, mas quer impor o Estado como sócio majoritário. Primeiro, com a Infraero no comando; depois, agregando os fundos de pensão de estatais. Após ouvir um sonoro não das grandes operadoras, tudo indica que a solução será seguir o modelo de privatização de FHC. Perdeu tempo e está atrasado para a Copa.

Suely Caldas
O Estado de S. Paulo - 28/10/2012
Suely Caldas JORNALISTA, É PROFESSORA DA PUC-RIO

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A aposentadoria dos professores



Prof. Fábio Giambiagi
Nesta série de artigos que tenho escrito no GLOBO acerca da Previdência, abordei em ocasiões anteriores a questão do salário mínimo; a necessidade de adotar novas regras de aposentadoria para os jovens que ingressarem no mercado no futuro; a importância de transição para aqueles que já estão trabalhando; o aumento da idade de aposentadoria; as diferenças de gênero; a extensão do período contributivo de quem se aposenta por idade; o tema das pensões; e a aposentadoria rural. Hoje tratarei de um assunto delicado: a aposentadoria dos professores.

Esclareço, inicialmente, que penso que poucas profissões são tão importantes quanto a do professor para a formação do ser humano. Em minhas palestras, gosto muitas vezes de citar a frase de um ilustre argentino do século XIX que, depois de ter sido presidente da República, foi nomeado reitor da universidade e começou o discurso de posse nos seguintes termos: "Fui promovido."

Dei aulas durante 15 anos e me sinto um professor. O ponto que está em discussão é se há ou não razões para que as regras de aposentadoria desse profissional sejam diferentes em relação às que regem as demais profissões, como ocorre atualmente.

Ortega y Gasset dizia que "na política há apenas circunstâncias históricas. São elas que definem o que deve ser feito". Na Grécia, as circunstâncias definiram a necessidade de adotar medidas dramáticas, em função da impossibilidade de honrar o contrato social prévio. As ideias que defendo visam a uma mudança suave das regras adotadas no país, para evitar um dia correr o risco de chegar a uma situação como a dos gregos ou a dos italianos, quando até as aposentadorias tiveram que ser cortadas no ajuste fiscal aplicado.
Nossa Constituição permite reduzir em 5 anos a contagem para a aposentadoria por tempo de contribuição no caso dos professores. Isso significa que, em vez de a exigência ser de 35 anos para os homens e de 30 para as mulheres, o requisito é de 30 anos para os primeiros e de 25 para as segundas. Como a situação mais frequente é que os docentes sejam do sexo feminino, na maioria dos casos a aposentadoria no ensino fundamental pode ser conseguida com apenas 25 anos de trabalho. É pouco.

Alguém poderia argumentar que é "justo". Por outro lado, o que dizer a profissionais que convivem diariamente com a morte ou com alto grau de estresse e se aposentam com as mesmas exigências que as de qualquer outra profissão? Será que isso é justo?

Na Argentina, por exemplo, as condições de ensino são parecidas com as do Brasil e nem por isso os professores gozam de regras especiais de aposentadoria. Por que as regras para os professores aqui são diferentes?

A regra facilita a mentalidade de que "uma mão lava a outra". Como, de um modo geral, as condições de trabalho e os salários pagos deixam muito a desejar, é como se o Estado propusesse um pacto: "Você vai trabalhar em prédios ruins, com escassez de material e ganhando pouco, mas em compensação deixo você se aposentar cedo." O problema é que esse arranjo peculiar gera uma vítima inocente - o aluno. Como frequentemente o professor tem que lecionar em mais de uma escola para ter uma melhor remuneração, ele muitas vezes não consegue estar em seu melhor estado físico e emocional para ter condições de ministrar uma boa aula, como a que poderia dar se trabalhasse em melhores condições.

Assim, por um lado, o Estado deixa de fazer o que se espera que faça em uma sociedade que funcione adequadamente e por outro o professor, mal pago, se aposenta precocemente por qualquer parâmetro de comparação internacional, podendo garantir um fluxo assegurado de rendimentos, no limite, aos 45 anos, tendo ainda mais 35 ou 40 anos de vida pela frente. Enquanto isso, quem enfrentará o ônus de ter professores desmotivados durante 12 anos é o aluno - que pagará as consequências pela vida toda.

A solução para as mazelas da educação passa, entre outras coisas, por romper esse círculo vicioso. O professor precisa ter melhores condições de trabalho - e para isso é importante que os salários melhorem -, mas, em contrapartida, ele deveria ter as mesmas regras de aposentadoria que as demais profissões. Permitir aposentadorias com 48 ou 50 anos de idade simplesmente não faz sentido.

Autor(es): Fabio Giambiagi
O Globo - 26/10/2012 www.oglobo.com.br

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Alta do gás de cozinha consome orçamento



Há dois meses consecutivos, os preços do combustível estão subindo. Empresas dizem que, mesmo assim, há reajuste represado de quase 12%

Os trabalhadores que têm levado consecutivos sustos nos supermercados, diante da disparada dos preços dos alimentos, devem preparar o bolso. Importante item no orçamento doméstico, o Gás Liquefeito de Petroléo (GLP), o gás de cozinha, está sendo remarcado desde o mês passado. Só em outubro, o item registrou aumento de 1,08%, quase o dobro da inflação do período, de 0,65%, medida pela prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA-15. Os reajustes devem continuar nos próximos meses, pois os revendedores já avisaram que terão de repassar à clientela os 12% de alta que tiveram de absorver nas últimas semanas. “Há um aumento represado”, assegurou Alexandre Borjaili , presidente da Associação Brasileira dos Revendedores de GLP (Asmirg-BR). Em Brasília, o botijão está sendo negociado, em média, por R$ 50, sem incluir a taxa de entrega em casa.

Segundo Borjaili, não está havendo saída para os revendedores a não ser repassar os aumentos impostos pelas distribuidoras. “Somente em outubro, foram R$ 2 a mais por botijão”, assinalou. Representante da Liquigás em Brasília, Arnaldo Almeida explicou que segurou o preço em R$ 50 para não perder os clientes. “Deixamos de cobrar o frete para manter o valor. Mas se o aumento continuar como nos últimos meses, não dará mais para garantir a manutenção do preço”, afirmou. 

De acordo com o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás), “as pressões por aumento de preços podem ser decorrentes da alta de custos, como frete e pessoal, mas o mercado reage de forma independente”. Em nota, a entidade explicou ainda que as distribuidoras associadas não reportam ao sindicato qualquer aumento ou baixa de preço. “Como o mercado tem autonomia para fixar seus preços, cabe ao consumidor pesquisar aquele revendedor que tem condições comerciais mais vantajosas.” 

Preocupação

Os analistas informam que, a despeito de o reajuste do gás de cozinha ainda não estar sendo tão pesado, o problema é a alta se alastrar por outros preços da economia. Essa contaminação, por sinal, já está acontecendo. Como gasta dois botijões por dia, o padeiro Harryson Ferreira de Souza, 26 anos, aumentou o quilo do pão em R$ 0,51. “Meu orçamento mensal com os botijões de gás, de R$ 2,1 mil, passou para R$ 2,7 mil”, contou. O valor do gás para o padeiro, abaixo da média do mercado, subiu R$ 10, para R$ 45. No geral, segundo o IPCA-15, o pão francês ficou 2,43% mais caro em outubro. “Tentei negociar com a empresa que me fornece o gás, mas não teve jeito. As queixas têm sido grandes. Tomara que não perca meus clientes se os reajustes continuarem”, assinalou.

O governo já acendeu o sinal de alerta, pois sabe que o preço do gás afeta, principalmente, os mais pobres. A perspectiva é de que técnicos da equipe econômica façam um acompanhamento mais próximo do mercado para corrigir possíveis distorções.

» Braços cruzados

Os trabalhadores das distribuidoras de gás ameaçam cruzar os braços no Distrito Federal caso não sejam atendidas as reivindicação por melhores salários. Em Minas Gerais, os funcionários chegaram a paralisar as atividades na última semana. As companhias, segundo a Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás), já ofereceram reajuste salarial acima da inflação e o pagamento de Participação de Lucros e Resultados (PLR), mas não houve avanços. Ainda segundo a entidade, “as paralisações podem trazer dificuldades operacionais, mas, por enquanto, não há risco de desabastecimento.


Autor(es): ANA CAROLINA DINARDO
Correio Braziliense - 24/10/2012 www.correioweb.com.br 



terça-feira, 23 de outubro de 2012

O COPOM e os juros



Antonio Delfin Netto
É pouco provável que alguém ainda duvide do fato que o Banco Central do Brasil, sob o comando de Alexandre Tombini e apoiado por uma competente equipe técnica, mostrou estar mais antenado com a realidade brasileira e ter melhor incorporado a difícil situação mundial, do que a maioria de nossos acadêmicos ou analistas do sistema financeiro.

A introdução das medidas "macroprudenciais" (que afinal não eram novidade nos anos 70 do século passado!) foi inicialmente recebida com grande ceticismo. O desenvolvimento posterior da conjuntura econômica mostrou que elas não só foram altamente efetivas, como talvez tenham sido subavaliadas.

Abriu-se, assim, um espaço para a redução consistente da taxa de juro real reclamada há décadas pela economia brasileira. A maior taxa de juro real, do universo conhecido, promoveu um movimento de capitais especulativos que ajudou a supervalorizar a taxa de câmbio real, acentuando os inconvenientes da redução da atividade global produzida pelo controle monetário.

O futuro continua mais opaco do que sempre foi

Em um ano, o BC trouxe a Selic a 7,25%, o que, com uma expectativa de inflação para os próximos 12 meses da ordem de 5,5%, nos deixa com uma taxa de juro real em torno de 2%. Longe, ainda, da taxa de juro real do mercado internacional, que anda à volta de - 2%. O atual diferencial de juro interno e externo é parecido com 4%.

Num ambiente de política cambial defensiva, deixa ainda margem para exploração (sem opinião moralista, mas em um dos sentidos do verbete no nosso "Aurélio": "pesquisa, sondagem") de oportunidades lucrativas para o capital estrangeiro de curto prazo, principalmente diante da contínua enxurrada de liquidez produzida externamente.

Na ata da última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) encontram-se os argumentos utilizados por parte dos seus membros (cinco entre oito) para a redução adicional de 0,25% da taxa e a informação que se trata de um "último ajuste nas condições monetárias", acompanhada da convicção de que sua estabilidade promoverá um ambiente propício que, com movimentos não lineares, ajudará a economia a acomodar-se, num prazo não especificado, à taxa de inflação de 4,5% ao ano.

É claro que com o nível de atividade atual (PIB menos de 2%), a preocupação com o crescimento assumiu um peso importante na decisão, mesmo porque nossa política econômica é de legítima defesa contra as políticas monetárias externas que procuram desvalorizar suas moedas. É preciso ser muito desinformado para não saber que os EUA tentam abertamente reduzir seu déficit em conta corrente não apenas aumentando a sua oferta interna de energia, mas estimulando um dólar "fraco" para ampliar suas exportações.
Quais foram os argumentos vencedores na reunião do Copom? Primeiro, que as incertezas e as fragilidades da situação mundial serão mais prolongadas do que se supunha que fossem e, assim, deverão nos ajudar com alguma redução da pressão inflacionária externa. Segundo, que boa parte dos recentes movimentos da taxa de inflação são produzidos por "choques de oferta", cuja característica é a sua reabsorção no prazo médio, o que justificaria um último ajuste nas condições monetárias de 0,25%.

E os argumentos dos votos vencidos? Eles sugeriram que a recuperação econômica em marcha, produzida pelos estímulos monetários, fiscais e cambiais já concedidos, ainda não se completou e que, portanto, não seria necessário um corte marginal na taxa de juros Selic.
Vemos que o dissenso foi mais questão subjetiva: como cada um vê a velocidade e a eficiência com que o mundo poderá livrar-se das incertezas criadas pela crise financeira de 2007. É difícil decidir quem, afinal, estará certo, porque o futuro continua mais opaco do que sempre foi e inexiste, de fato, uma liderança política mundial forte e bem informada. O "crash" atual entre a cabeça dura de Merkel e a vazia de Holland, somado às confusões que poderão advir do processo eleitoral americano, são as únicas coisas claras do cenário mundial!

Note-se que não se tratou de um problema técnico. É um problema de escolha na incerteza com probabilidades desconhecidas. O nosso "palpite" (e talvez, desejo), por que não é mais do que isso que se trata, é que o cenário incorporado pelos votos vencedores tem maior probabilidade de realizar-se.

É preciso uma certa humildade e desconfiar das afirmações apodícticas de alguns analistas, que se supõem portadores da verdadeira ciência econômica. Infelizmente não somos.

Não obstante, os conhecimentos que acumulamos são importantes para a construção de políticas públicas numa sociedade que se pretende, como a nossa, ser republicana, onde todos, inclusive o governo, obedecem à mesma lei, sob controle de um Supremo Tribunal Federal independente; ser democrática, onde o poder incumbente obedece regras claras de periodicidade e o sufrágio universal é praticado livremente e sem fraudes e, não menos importante, ser razoavelmente justa, onde se procura, com afinco, uma relativa "igualdade de oportunidades" para todo cidadão, independentemente de onde e como nasceu, de sua cor ou de sua etnia.

Antonio Delfim Netto
Valor Econômico - 23/10/2012

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.