quarta-feira, 8 de maio de 2013

Diplomata Brasileiro ganha OMC.

PAÍSES EMERGENTES PÕEM BRASILEIRO NA DIREÇÃO DA OMC

SEM OS VOTOS DE EUA E EUROPA, AZEVÊDO VAI COMANDAR A OMC

A vitória de Roberto Azevêdo para a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o mais importante cargo internacional já ocupado por um brasileiro, abre espaço para uma nova relação entre países emergentes e desenvolvidos nas negociações mundiais. O candidato do Brasil será o primeiro de um país dos Brics a dirigir uma organização multilateral-chave, que tem na liberalização comercial seu principal objetivo. Os emergentes brigaram pelo cargo para tentar equilibrar o comando da governança global, já que a Europa dirige o FMI e os EUA, o Banco Mundial.
 
A vitória do brasileiro Roberto Azevêdo para a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), sobre o mexicano Hermínio Blanco, estimula esperanças de começo de uma nova relação entre países emergentes e desenvolvidos nas negociações internacionais. O candidato do Brasil será o primeiro de um país dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) a dirigir uma organização multilateral chave, que tem na liberalização comercial e na disciplina das regras do jogo no mercado os pilares essenciais para a economia mundial.
Azevêdo ganhou do candidato do México, Herminio Blanco, apesar dos votos dados a ele pelos Estados Unidos e pela União Europeia (UE). No entanto, americanos e europeus "qualificaram" seus votos, na linguagem da OMC, deixando claro que ficariam satisfeitos também com a vitória brasileira.
Nunca se saberá exatamente o número de votos, pelo fato de a escolha ser altamente secreta, mas as estimativas são de que, além dos 28 votos da UE, Blanco não teria obtido mais de 30 outros votos, significando frágil apoio nos países em desenvolvimento - o contrário do representante brasileiro, com apoio espalhado nas regiões e tipos de países. Na verdade, teria sido difícil a comissão de seleção explicar aos 159 países da OMC uma eventual vitória do candidato mexicano, e a entidade teria entrado num novo clima de acrimônia.
 
Desde o ano passado, ficou claro que os países emergentes queriam brigar pela direção da OMC para tentar equilibrar o comando da governança global, já que o Fundo Monetário Internacional (FMI) é dirigido por uma europeia e os americanos mantêm o controle do Banco Mundial (Bird).
A expectativa, agora, é que, com a eleição de um diretor-geral com amplo apoio, forte credibilidade entre os três grupos de países - desenvolvidos, emergentes e os mais pobres -, seja bem menos difícil criar um ambiente de confiança para retomar as negociações de liberalização global. Além disso, o que for bem sucedido na OMC em termos de entendimento tende a ter efeito em várias outras negociações internacionais onde emergentes e desenvolvidos continuam a se afrontar, como na área climática. Não é que Azevêdo tenha a varinha mágica. Mas, como notam observadores, ele pode ser capaz de mediar entendimentos.
Os países industrializados podem, por outro lado, argumentar agora também que os
emergentes precisam de fato assumir mais responsabilidades na governança global. Além disso, com um brasileiro no comando da OMC, a política comercial do país poderá ser gradualmente "estimulada" a seguir com mais cuidado as regras globais.
O dia ontem foi de tensão em Genebra. Apesar da tensão provocada pelos votos da UE ao mexicano, a própria Comissão Europeia, braço executivo dos 27 países membros, mantinha a fé na vitória de Azevedo. Num clima de enorme expectativa e tensão, a UE e os EUA foram os últimos a votar, por volta do meio-dia. Os dois gigantes comerciais deram voto a Blanco, mas ressalvando que estariam cômodos com uma vitória de Azevêdo.
Logo cedo, novos detalhes da escolha feita pela UE foram conhecidos. A grande surpresa na Comissão Europeia continuava sendo o militantismo do Reino Unido contra Azevêdo. Na votação decisiva na segunda-feira no bloco comunitário, o governo de David Cameron de novo ameaçou vetar um consenso em torno do candidato brasileiro. Para Londres, Blanco era o símbolo da abertura comercial e precisava ser apoiado.
No bloco europeu, as línguas começavam a se soltar e ajudavam a explicar votos contra o Brasil. No caso da França, foi atribuído a uma forma de "dar o troco" a uma polêmica declaração da presidente Dilma Rousseff sobre suposto neocolonialismo pela intervenção do exército francês no Mali, que irritou profundamente o governo de François Hollande.
A vitória de Roberto Azevêdo será confirmada oficialmente hoje pela OMC no começo da tarde.
Valor Econômico - 08/05/2013 – www.valoronline.com.br

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