segunda-feira, 3 de junho de 2013

Decisão do Copom cria oportunidades na renda fixa

A decisão do Banco Central de subir o juro básico em 0,5 ponto percentual na semana passada, para 8% ao ano, agitou o mercado de renda fixa. Para o investidor pessoa física, que tentava se adaptar a um mundo de ganhos magros, a alta parece ter ampliado as oportunidades, pelo menos de imediato. No Tesouro Direto, que permite o investimento em títulos do governo por meio da internet, especialistas em renda fixa enxergam um bom momento para ir às compras, ainda que com parcimônia. Para se ter uma ideia, a taxa prefixada da NTN-B com vencimento em 2050, que também paga a variação da inflação, chegou na última sexta-feira a 5,15% ao ano, a maior desde junho do ano passado.
Taxas prefixadas de 5% nas NTN-Bs mais longas são vistas pelo mercado como um gatilho para compra. "Em um momento como esse em que o mercado está pedindo prêmios, essa é uma taxa excelente", diz Paulo Bittencourt, diretor técnico da Apogeo Investimentos. "Os papéis atrelados à inflação mais longos (NTN-Bs) já estão sendo negociados a taxas atrativas", concorda Marcelo Mello, vice-presidente de investimentos da SulAmérica. Para os investidores que têm um perfil de maior propensão a risco e não necessitam de recursos no curto prazo, diz o gestor, a alocação em títulos com vencimento a partir de 2022 é uma opção interessante. Desde a reunião do Copom, os juros pagos por papéis indexados à inflação com prazos a partir de 2024 ultrapassam os 4,5%.

Há, entretanto, uma ressalva importante: parcimônia. Ainda não está claro para o mercado até onde vai o ciclo de aumento dos juros. O recrudescimento recente do discurso do governo contra a inflação faz pensar que haverá novos ajustes para cima na Selic. Isso significa que a taxa paga pelos títulos pode ir mais longe. "Sugerimos que o investidor faça aos poucos esta posição", diz Mello. Para ele, as perspectivas para esses papéis são positivas, ainda que eles possam perder valor no curto prazo ao sabor dos ajustes na política monetária.
Para Bittencourt, da Apogeo, é mais provável que a expectativa de alta dos juros tenha sido exagerada e que passe a recuar a partir de agora. Por segurança, entretanto, ele sugere que o investidor não aposte todas as fichas nessa opção. "Se eu tivesse R$ 20 mil disponíveis, por exemplo, investiria a metade nesses títulos e deixaria a outra metade esperando para ver o que vai acontecer", afirma. Além disso, pondera, melhor que a pessoa física compre o papel para carregar até o vencimento. Caso queira aproveitar oportunidades no meio do caminho, melhor confiar essa missão ao gestor. Nesse caso, opções seriam fundos de inflação com papéis curtos ou multimercados do tipo juros e moedas.

Também na visão de Otávio Viera, sócio-gestor da Fides Asset management, o aumento no ritmo do aperto monetário abre uma oportunidade para o investidor pessoa física capturar juros reais maiores nas NTN-Bs, especialmente nos vencimentos mais longos. Uma taxa acima de 5%, segundo ele, já deve ser considerada como um bom ponto de entrada, uma vez que nesse nível já tem comprador, o que deve limitar novos aumentos. "Com 5% as fundações já batem suas metas atuariais", diz.
Mas para Vieira, as compras também devem ser feitas gradualmente, uma vez que não está descartada a hipótese de as taxas aumentarem mais. Um indicativo desse risco é que, mesmo com a alta maior da Selic na última reunião do Copom, a fim de trazer a inflação para a meta e reconquistar a confiança, os prêmios dos papéis mais longos continuaram subindo. Entre os fatores que explicam esse movimento, Vieira destaca o aumento da percepção de risco do país, o que se traduz na demanda por mais prêmio. "A leniência com a inflação no últimos anos sem que a atividade se recuperasse e estímulos ao investimento com desonerações para setores específicos tiraram a previsibilidade macroeconômica", argumenta.

Ele destaca, ainda, que os títulos públicos podem sofrer com a saída de investidores estrangeiros do Brasil para ativos de maior risco como a bolsa americana - como já começa a acontecer - e também com uma pressão de venda de carteiras locais. "Entrou muito dinheiro em fundos de NTN-Bs de pessoa física que não estava preparada para perda e que pode resolver sacar", alerta. Por tudo isso, diz, é recomendável comprar um pouco a cada semana.

Os especialistas acreditam ainda que podem surgir oportunidades nos títulos prefixados. Os papéis com vencimento em 2017, que pagavam 9,6% ao ano na sexta-feira, podem estar entre elas, afirma Gilberto Poso, superintendente executivo de gestão de patrimônio do HSBC. "Mas seria precipitado fazer uma movimentação agora", diz. Poso recomenda ao investidor aguardar ao menos a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a ser divulgada nesta quinta-feira. Até porque o governo mudou muito rapidamente o discurso de "cautela" para "tempestividade" no combate à inflação, explica. "Dada essa inconsistência na própria política monetária, fica complicado já falar em oportunidades."
Esse também é o momento para rever a escolha entre fundo DI e poupança para aplicações de curto prazo. Com o juro de 7,5%, que vigorava até a semana passada, apenas fundos DI com taxa de administração inferior a 0,9% ganhavam da nova poupança para prazos entre 6 meses e 1 ano. Agora basta que a taxa seja menor do que 1%. Para volumes altos de recursos, diz Poso, a poupança dificilmente valia a pena. "Já para aplicações de valores mais baixos, havia uma zona cinzenta em que a poupança em algumas circunstâncias passava a ter vantagem. À medida que os juros sobem, os fundos DI são favorecidos também nesse caso", diz.

Autor(es): Por Luciana Seabra e Alessandra Bellotto
Valor Econômico - 03/06/2013
 

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