quinta-feira, 13 de junho de 2013


A economia brasileira não junta 'lé' com 'cré'

por Thais Herédia |

Para entender a economia, o mais difícil é juntar “lé” com “cré” . O que uma política de crédito barato para a compra de eletrodomésticos tem a ver com a dívida pública brasileira? E como isso tudo afeta a inflação?

O governo anunciou nesta quarta-feira (12) um novo pacote de incentivo ao consumo de eletrodomésticos, com crédito mais barato para quem estiver no programa Minha Casa, Minha Vida. Muita gente se pergunta: mas ainda tem quem não tenha comprado uma geladeira nova? Há sim, o país é grande e ainda há uma boa parte da população que ascendeu socialmente nos últimos anos e não realizou seus desejos de consumo.

A dívida pública já esteve em situações muito piores do que a atual. O Brasil já deu calote nos credores nos anos 80; já precisou de muita ajuda do FMI para pagar as contas e não quebrar. Depois das crises do final dos anos 90, o governo conseguiu, aos poucos, organizar melhor as contas, até alcançar autonomia dos organismos internacionais e virar opção de investimento saudável. Hoje, a dívida líquida, ou seja, que desconta do valor total tudo que o governo tem de ativos, representa pouco mais de 35% do PIB. A dívida bruta, que conta só o que devemos, pula para mais de 60% do PIB, numa trajetória ascendente, o que não é saudável – vide países europeus.

A inflação também já teve dias incomparavelmente mais danosos do que os de hoje. Por isso mesmo que ela deve ser tratada com devida atenção. A inflação é resultado de uma instabilidade entre a oferta e a demanda. Taí, esse é um dos grandes elos de toda cadeia da economia – o balanço entre a oferta e a procura. O Brasil hoje vive um desequilíbrio nada desprezível nessa balança, resultado de alguns anos de muito estímulo ao consumo e quase nenhum investimento à produção (desde 2009, especificamente). E quando não há oferta suficiente, o preço sobe para dar conta de toda demanda.

Com mais inflação, menos crescimento, baixo investimento e alto endividamento da população (cujo consumo sustentou os PIBs recentes), o dreno para a economia passa a ser a dívida pública. Ao cortar impostos, incentivar setores, subsidiar crédito mais barato, o governo desequilibra as contas públicas. O buraco é coberto por mais dívida emitida pelo Tesouro Nacional. Além disso, o gasto do governo também é gerador de inflação, porque a infraestrutura para atender a essa demanda não avançou.

Há também o papel do Banco Central, responsável pela estabilidade da moeda. Ele demorou, mas admitiu que não há mais tempo para experimentar estratégias contra inflação. O Copom começou a subir os juros, envia recados duros sobre seu compromisso e assiste de camarote a debandada de dólares e investidores do Brasil. Calma lá, nem tudo é culpa nossa. Com a promessa de recuperação da economia americana, a revoada de dinheiro para os Estados Unidos está pairando sobre muitos países emergentes como o Brasil.

É nesse processo que nasce o desconforto, que vira desconfiança, que se transforma em receio. O Brasil está hoje na etapa do “pessimismo com o presente e a incerteza com o futuro”, como disse ao blog o economista Marcelo Fonseca. Claro que há muitos outros componentes na “gramática” econômica, muitas variáveis que afetam o comportamento das pessoas e dos indicadores. Mesmo assim, hoje está mais difícil juntar o “lé” com o “cré” nacional com a expectativa de um bom resultado.

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