terça-feira, 11 de junho de 2013

Problemas da política monetária

Prof. Yoshiaki Nakano - EESP/FGV
Claramente o Banco Central mudou de postura na sua última reunião, elevando a taxa de juros em 0,5 ponto percentual, depois de ter elevado apenas 0,25 na reunião anterior. Uma leitura direta levaria à conclusão de que o problema da inflação tornou-se mais grave e de que a taxa de juros subirá muito mais do que projetado anteriormente. No entanto, os dados mais recentes da economia brasileira não permitem tal leitura. Nem há indicações de que as expectativas inflacionárias tenham se deteriorado no período mais recente, justificando uma aceleração da taxa de juros. Mais do que isso, o conhecimento convencional nos diria que o Banco Central deve elevar a taxa de juros quando a inflação estimada ou prevista para os próximos meses está em aceleração, pois existe um "lag" de meses para que a elevação da taxa de juros hoje tenha efeito sobre os preços. Creio que o problema da inflação enfrentado pelo Banco Central está mal focado, é um pouco mais complexo e requer outras ações do governo.

De fato, o PIB cresceu a uma taxa anualizada de 2,5% no primeiro trimestre de 2013, em relação ao trimestre anterior, e a indústria de transformação expandiu a taxa anualizada de apenas 1,2% no mesmo período. Os investimentos tiveram recuperação, mas em grande medida puxados pela retomada na produção e venda de caminhões e automóveis. Não há ainda evidências claras de que a economia vai sofrer forte recuperação. Assim, todos os analistas projetam o atual ritmo anualizado para 2013, tendo portanto 2,5% como referência. Assim, à primeira vista não haveria razão para desaquecer ainda mais a economia com medo de aceleração da inflação!
Para confirmar essa previsão de baixo crescimento, o consumo das famílias, componente mais significativo da demanda agregada, que vinha mantendo forte dinamismo e era a locomotiva que puxava o resto da economia, já sofreu também desaceleração e cresceu apenas 0,1% no primeiro trimestre deste ano em relação ao trimestre anterior. E tudo indica que esse componente entrou em nova trajetória de crescimento bastante moderado, refletindo a desaceleração tanto na geração de emprego como no aumento no rendimento real dos trabalhadores. Dado o elevado nível de inadimplência, os bancos privados também já frearam a expansão do crédito há alguns meses. Assim, aqui também não há indícios de focos inflacionários do lado da expansão da demanda agregada, onde a taxa de juros pode ter efeito.
Depois de um período de nervosismo com a generalização dos aumentos de preços frente a estes dados de fraco desempenho da economia, as expectativas de inflação também vinham se acalmando, particularmente com a elevação da taxa de juros em 0,25% pelo Banco Central.
Na verdade, o problema central da atual conjuntura, que realmente incomoda, e que a política
O medo do Dragão da Inflação
econômica devia focar como prioridade, é o patamar de taxa de inflação elevada, desde 2011, em torno de 6,5%, com o medíocre desempenho da economia, muito abaixo da tendência prevalecente nos anos precedentes, o que caracteriza uma semi-estagflação. A situação é bastante preocupante, pois claramente ela gera inquietações entre os trabalhadores e pode ter consequências sociais e políticas imprevisíveis.
Evidentemente, esta inflação não é tipicamente de excesso de demanda. A produção industrial vem crescendo abaixo da demanda há alguns anos e a entrada de importados exerce uma pressão desinflacionária. Neste segmento industrial a pressão inflacionária vem do lado dos custos: com a estagnação ou mesmo queda na produtividade, o aumento da taxa de salário implica num aumento do custo unitário. Então de onde vem os aumentos de salários se a indústria contraiu o seu nível de atividade desde 2010?
No mercado de trabalho há um fato novo: a oferta de trabalho vem crescendo abaixo demanda, particularmente por que a população de jovens trabalhadores vem sofrendo redução. Assim, as condições do mercado de trabalho na economia brasileira sofreram mudanças estruturais e definitivas e a oferta de trabalho passa, depois de séculos, a ser um fator restritivo e inflacionário.
A este fato se soma uma decorrência da apreciação da taxa de câmbio, que vinha sendo utilizada sistematicamente, desde o Plano Real, como o principal instrumento de controle de inflação. No período mais recente a apreciação cambial passou a ter efeitos perversos ao privilegiar o setor de serviços. Com a indústria estagnada é o setor de serviços pessoais, sabidamente gerador de empregos de baixa qualificação, que se expande e é por isso que esse foi o segmento de trabalhadores que tiveram maior ganho salarial.
Está certo o Banco Central em elevar a taxa de juros para esfriar o mercado de trabalho, mas isto deveria ter sido feito no início deste ano, a partir de um diagnóstico claro. Mas a ação do Banco Central tinha que ser acompanhada de outras ações do governo para fazer a oferta agregada responder à demanda, a indústria voltar a crescer, a produtividade se acelerar. Ainda deveria acabar com as indexações tanto no mercado de bens de serviços como no setor financeiro, para eliminar os fatores que respondem pela persistência da inflação. Aliás, sem essas desindexações a política monetária tem sua eficácia reduzida e precisaremos, num quadro de semi-estagnação, elevar a taxa de juros para um nível de dois dígitos para reduzir o patamar inflacionário!
Valor Econômico - 11/06/2013

Autor(es): Yoshiaki Nakano
Yoshiaki Nakano, mestre e doutor em economia pela Cornell University. Professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP/FGV). Ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP). Escreve mensalmente às terças-feiras.

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