segunda-feira, 19 de agosto de 2013


Analistas já consideram dólar a R$ 2,50

O mercado de câmbio doméstico viveu um dia de intensa pressão na sexta-feira, numa sessão que coroou uma semana marcada pela alta acelerada do dólar e por uma deterioração adicional nas perspectivas para a moeda brasileira. Após cinco dias seguidos de apreciação, o dólar não só firmou-se acima dos R$ 2,30 como já ameaça bater a marca psicológica de R$ 2,40, anteriormente prevista apenas para o fim do ano. Foi um movimento que surpreendeu os agentes de mercado pela velocidade. Há quem considere, como a equipe de análise da Brasil Plural, que o câmbio seguirá pressionado e pode bater R$ 2,50 no curto prazo. Segundo profissionais do setor, a disparada da moeda americana reflete um cenário de ampla deterioração dos fundamentos da economia local, e a pressão no câmbio só será aplacada quando o governo der um "choque de confiança" nos mercados. Não se descarta uma nova rodada de valorização do dólar nesta semana. Todas as atenções estarão voltadas para a divulgação da ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve, (Fed o banco central americano), que poderá mexer com as expectativas para o rumo da política monetária dos EUA. "Geralmente, depois de uma alta tão forte, o mercado costuma se ajustar, mas a ata do Fed pode atrapalhar", afirma o economista do BES Investimentos Flavio Serrano. Na visão do J.P. Morgan, não bastasse a expectativa para a ata de quarta-feira, o mercado de câmbio deve ter pouco "alívio" nas semanas seguintes, conforme se aproxima a próxima decisão de política monetária do Fed. Justificando que o Brasil possui mais desequilíbrios internos que seus pares, análise da casa avalia que a possível redução do programa de alívio monetário do Fed recomenda a manutenção de posições "vendidas" (apostando na baixa) em real ante o dólar para pelo menos os próximos três meses. A questão fiscal e a perspectiva negativa para a balança de pagamentos são unanimidade entre as razões para a piora nas expectativas de médio e longo prazo para o real. Serrano, do BES, chama atenção principalmente para a expectativa de contínua deterioração no déficit em transações correntes, que em suas contas pode alcançar 4% até o fim do ano. Para Guilherme Loureiro e Marcelo Salomon, do Barclays Capital, a deterioração geral dos fundamentos da economia, juntamente com a expectativa de normalização da política monetária americana, vão adicionar mais pressão sobre o câmbio local, o que deve puxar o dólar para R$ 2,45 em 12 meses. Eles calculam que a moeda americana ficará em R$ 2,30 dentro de um mês, R$ 2,35 em três meses e alcance R$ 2,40 em seis meses. Os analistas consideram que o componente eleitoral pesará no sentimento em relação ao Brasil e deve manter o governo concentrado em como atender demandas locais e "não necessariamente gerar um choque de credibilidade que poderia reverter o pessimismo nos mercados financeiros". A estrategista de câmbio do RBS, Flavia Cattan-Naslausky, avalia que a tensão piorou na sexta, mas se esteve presente durante toda a semana, nas sessões que sucederam o que aparentemente marcou uma mudança pelo Banco Central em sua estratégia de intervenção cambial. Segundo Flavia, uma das hipóteses é que o BC esteja esperando o rompimento da marca de R$ 2,40, taxa considerada "mágica" no mercado de opções. Isso "limparia" o mercado. "Mas essa estratégia é muito arriscada, porque o mercado pode ficar definitivamente sem âncora e levar esse dólar para níveis ainda mais altos." O BC fará novo leilão de rolagem de swaps hoje ofertando até 20 mil contratos (US$ 1 bilhão) para o vencimento 1º de abril de 2014. Na sexta, o dólar comercial subiu 2,44%, a R$ 2,396, no maior nível de fechamento desde 3 de março de 2009, quando terminou em R$ 2,411. Muitos atribuíram o movimento à fala do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que afirmou que o real desvalorizado é benéfico para a indústria. Na semana, o dólar acumulou alta de 5,36%. No mês, avança 5% e ganha 17,16% no ano. Lá fora, as moedas emergentes tiveram fortes perdas, na esteira da forte alta dos juros dos Treasuries, em meio a um crescente temor de que o Fed comece a reduzir seus estímulos monetários no mês que vem. O peso mexicano recuou 0,73%, a 12,9170 por dólar, enquanto o rande sul-africano cedeu 0,88%, para 10,0817 por dólar. A rúpia da Índia declinou 0,3%, a 61,66 por dólar.

Valor Econômico - 19/08/2013

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