terça-feira, 27 de agosto de 2013

Dólar retoma a alta. Juro pode ir a 10%

Era uma vez o juro baixo...



Analistas preveem que a taxa Selic pode chegar a 10% em janeiro. Depois da queda de sexta-feira, dólar sobe para R$ 2,384

Mercado encara o BC e faz a moeda norte-americana aumentar 1,3%, para R$ 2,384. Amanhã, Selic deve passar para 9%, mas instituições que mais acertam projeções veem a taxa básica chegando a dois dígitos em janeiro

Os investidores deram ontem uma amostra consistente de que não será fácil a vida do Banco Central para controlar os preços do dólar, que já impactam a inflação. Apesar de a autoridade monetária ter mostrado um arsenal de mais US$ 60 bilhões a ser usado até o fim do ano, a moeda norte-americana voltou a subir ontem e a romper os R$ 2,40, refletindo toda a insegurança dos investidores em relação aos rumos da economia brasileira, que combina baixo crescimento e custo de vida elevado. A divisa dos Estados Unidos encerrou a segunda-feira cotada a R$ 2,384 para venda, com alta de 1,3% no dia e de 16,6% no ano.
Diante do fracasso do BC, que cumpriu a promessa de vender dólares no mercado futuro, a onda de desconfiança se espraiou. Tanto que as cinco instituições que mais acertam as projeções colhidas semanalmente pela autoridade monetária, os Top 5, passaram a prever que a taxa básica de juros (Selic), hoje de 8,50% ao ano, voltará à casa dos dois dígitos até janeiro de 2014, puxada pelo dólar e pela constante inflação próxima do teto da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 6,5%. Para esse grupo, a Selic chegará a 10% e, na melhor das hipóteses, permanecerá nesse patamar ao longo de todo o ano em que a presidente Dilma Rousseff tentará a reeleição.
No entender dos especialistas, o novo patamar de câmbio — e a baixa garantia de eficácia do plano em vigor do BC — dificultará ainda mais a missão da instituição de controlar a escalada dos preços. O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne hoje e amanhã e a aposta quase unânime é que os dirigentes da autoridade monetária decidirão por uma alta de 0,50 ponto percentual nos juros, com a Selic passando de 8,5% para 9% ao ano. Ainda restarão dois encontros até dezembro, nos quais a taxa básica terá novos aumentos.
Reajustes
Por mais que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, diga que o governo não permitirá “o contágio do câmbio na inflação”, a desvalorização do real ante a moeda norte-americana já provocou reajustes de até 12% nas tabelas de setores como os de informática e de alimentos e bebidas. “Há uma alta probabilidade de subida mais rápida da taxa de juros”, comentou o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn. A inflação, no entender dele, está longe de dar trégua.
Não à toa, o mercado financeiro, de acordo com o Boletim Focus, voltou a elevar a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2013, algo que não ocorria há sete semanas. A estimativa do indicador oficial de inflação saiu de 5,74% para 5,80%. “O governo deixou de lado o crescimento para segurar o custo de vida, mas acabou ficando sem nada”, avaliou a professora de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Virene Macedo. A carestia continua no teto da meta e a expansão da atividade, apontando para o chão.
Com discurso semelhante ao adotado pela maior parte dos empresários, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), Fabio Arruda Mortara, criticou duramente o governo. O provável aumento dos juros é considerado “remédio amargo para segurar a inflação”. “O governo ficou refém da Selic em decorrência de erros da política econômica”, atacou ele, que prevê imediata retração da demanda, da rentabilidade das empresas e do nível de emprego no segmento.
Em entrevista ao Correio, Mortara lembrou, ainda, que o menor patamar de juros da história — de 7,25% ao ano, registrado em outubro de 2012 — não se sustentou por inoperância do governo. “Foi uma alegria que durou pouco”, disse. A equipe econômica, acrescentou o presidente da Abrigaf, deu vários “tiros no pé” ao insistir em equívocos, como não reduzir os gastos públicos e segurar indefinidamente os reajustes dos combustíveis, que agora só potencializam a “minicrise” de Mantega.
Com juros mais altos e a pressão do dólar sobre os preços, a estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2013 segue despencando. Em janeiro, o mercado previa alta de 3,26% no ano. Ontem, com o registro de mais um recuo pelo Focus, o índice esperado pelos analistas caiu para 2,20%. O cenário pode piorar depois que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar, na próxima sexta-feira, o PIB do segundo trimestre. No primeiro, o Brasil avançou pífio 0,6%.
O maior problema para o governo, disse economista e ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas Gomes, é o impacto do câmbio no custo de vida. “Inflação alta e baixo crescimento é tudo o que a presidente Dilma não queria”, sobretudo com a campanha eleitoral batendo à porta do Palácio do Planalto. “Está difícil cravar para onde vai o dólar. Ainda há muita volatilidade no mercado”, completou ele, que chefia a divisão econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Pelas suas contas, o PIB deste ano deverá fechar ao redor 1,8%. No mês passado, ele ainda acreditava em um resultado acima de 2%. Em janeiro, falava em 3%.
Mão pesada
Para o economista e ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas Gomes, a autoridade monetária terá de ir além dos arsenal de US$ 60 bilhões anunciados na semana passada para segurar a desvalorização do real e acalmar o mercado. “O desempenho do dólar neste começo de semana mostra que o BC será obrigado a agir mais. Talvez, até tenha de elevar, amanhã, os juros acima do 0,50 ponto percentual previsto inicialmente pelo mercado”, apostou.

Autor(es): DIEGO AMORIM » ROSSANA HESSEL
Correio Braziliense - 27/08/2013

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