sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Eu já sabia ... e o trabalhador ó ...?

Mínimo de R$ 722,90 ...


Salário mínimo terá a menor alta em 15 anos

Para 2014, o governo federal prevê correção de 6,6% no menor salário pago no país. É o reajuste mais baixo desde 1999.

Os trabalhadores que recebem o salário mínimo serão atingidos em cheio pelo baixo crescimento da economia no governo Dilma Rousseff. Segundo a proposta de Orçamento de 2014, encaminhada ontem pelo Ministério do Planejamento ao Congresso Nacional, o reajuste do rendimento básico no país será de apenas 6,6%, o menor desde 1999. O valor a ser pago a partir de janeiro próximo foi fixado em R$ 722,90, com impacto de R$ 29,2 bilhões no caixa da Previdência Social.

Diante dessa correção, o mínimo terá, na atual administração, aumento médio anual de 9,1%, inferior aos ganhos observados nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (17,6% e 11,5%) e nos dois períodos de Lula (14,1% e 9,9%). O salário-base é corrigido pela variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes (no caso, 2012, quando houve crescimento de apenas 0,9%) e da inflação do exercício anterior (2013), projetada pelo Ministério da Fazenda em 5,72%, inferior aos 6,1% estimados pelo mercado. Ou seja, é possível que o mínimo tenha perda real em 2014, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar o índice oficial do custo de vida.

Críticas

Se o novo valor do mínimo deverá desagradar aos trabalhadores, os números totais do Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) para 2014 receberam uma saraivada de críticas dos especialistas, por conterem, segundo eles, projeções irreais para a economia, que inflam as receitas e as despesas. "Do ponto de vista fiscal, o reajuste do salário mínimo é até algo positivo. O problema está nos indicadores macroeconômicos. Não dá para acreditar em crescimento econômico de 4% no ano que vem", disse Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Fibra. "O Orçamento está irrealista e pode prejudicar a execução dos gastos públicos em 2014", acrescentou.

Nos cálculos de Alexandre Póvoa, economista-chefe da Canepa Asset, se realmente quiser dar um mínimo de credibilidade ao Orçamento do próximo ano, o governo terá de refazer as contas e mostrar números piores para a economia, mesmo 2014 sendo um ano de eleições. Ele explicou que as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB), de 4%, e para a inflação, de 5%, estão exageradamente otimistas. "Infelizmente, o que vemos é um Orçamento informal, distante da realidade. Nem mesmo a meta de superavit primário (economia para o pagamento de juros da dívida), de 2,1% do PIB, é factível. Uma pena, pois só contribui para aumentar a desconfiança no país", destacou.

Mudança nos EUA

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu que os dados são provisórios e prometeu uma revisão em janeiro, "com mais realismo". No entendimento dele, é preciso esperar o que acontecerá nos Estados Unidos, depois da mudança da política monetária de lá. O Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, já avisou que reduzirá os estímulos dados à maior economia do planeta. "Faremos os ajustes à luz da realidade que teremos no início do próximo ano", reforçou.

Para o ministro, com a recuperação das economias desenvolvidas, o Brasil tende a voltar a apresentar um bom movimento de comércio internacional, o que poderá inflar o PIB. "Se isso ocorrer, o comércio internacional estará mais intenso, vamos recuperar as exportações. Portanto, é possível chegarmos aos 4% de crescimento do PIB", assinalou Mantega. Segundo ele, mesmo que o Fed suspenda os estímulos à economia dos EUA, não deverão faltar recursos nos mercados internacionais. "Eles (o Federal Reserve) estão falando em reduzir o fluxo de liquidez, não acabar com ele. Não me parece que virá um cenário de recessão de liquidez", disse.

Na avaliação da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, o importante é que "as principais despesas do governo estão sob controle e, em alguns casos, caindo". O Orçamento total para 2014 será de R$ 2,36 trilhões. Desse montante, os investimentos, somando os realizados pelas estatais, pela área de seguridade e pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), serão de R$ 186,6 bilhões. Entre as despesas, o governo definiu quatro prioridades: saúde (com R$ 100,3 bilhões), educação (R$ 92,4 bilhões), PAC e Minha Casa, Minha Vida (R$ 63,2 bilhões) e Brasil sem Miséria (R$ 32,5 bilhões).

Correio Braziliense - 30/08/2013 www.correioweb.com.br

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

BC eleva juros em 0,5 ponto




BC eleva juro para 9% e indica nova alta

O BC elevou a Selic em 0,5 ponto porcentual, para 9% ao ano. A medida, segundo o banco, contribui para colocar a inflação em declínio. A poupança passa a render 0,5% mais TR

O Banco Central elevou ontem a taxa de juros básicos da  economia em 0,5 ponto porcentual para 9% ao ano, sacramentando o ciclo de maior  aperto monetário do governo Dilma Rousseff. Segundo comunicado do BC, a medida deve contribuir para colocar a inflação em declínio e assegurar a trajetóría de baixa em 2014. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, " foi tomada por unanimidade.

O comunicado foi idêntico aos divulgados nas reuniões anteriores de maio e julho. Para os analistas de mercado, este é um sinal que o BC prepara nova alta dos juros.

"A decisão e o comunicado indicam que o BC deverá manter a magnitude de elevação do jurobá-sico em outubro, quando deve elevar taxa para 9,50%", disse Tony Volpon, diretor de pesquisas para a America Latina, da Nomura Securities.

Segundo a pesquisa semanal Focus, feita pelo BC, com mais de 100 instituições financeiras, os analistas esperam um aumento de 0,5 ponto porcentual na reunião de outubro. 

Nos últimos dias, porém, têm crescido as apostas por uma dose maior de juros diante do impacto da alta do câmbio na inflação.

Levantamento realizado pelo serviço AE Projeções da Agencia Estado, revelou que 33 de 76 instituições financeiras consultadas já preveem taxa maior para o fim do ano - e 16 casas acreditam até em uma taxa de 10% ao ano ainda em 2013, o que  joga por terra a promessa do governo de que os juros não voltariam ao patamar de dois dígitos.

O receio de economistas com o impacto do dólar na inflação ocorre ao mesmo tempo que o índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), termômetro oficial da in-fiação no País, já se encontra em patamar alto, acima de 6%. O BC precisa perseguir uma inflação de 4,5% ao ano, com tolerância de dois pontos porcentuais para mais ou menos, para acomodar choques.

Esta é a segunda vez na gestão Dilma que o Copom adota a trajetória de alta da Selic. A primeira foi logo que a presidente tomou posse: em quatro decisões durante cinco meses, o BC aumentou em 1,25 ponto porcentual o juro básico, que passou de 11,25% para 12,50% ao ano. Agora também foi a quarta alta consecutiva em cinco meses, mas a elevação foi mais drástica, de 1,75 ponto porcentual, de 7,25% para 9% ao ano.

O novo patamar da taxa é exatamente o mesmo visto em abril do ano passado, quando a economia brasileira passava por um longo processo de corte de juro -- foram 10 seguidos durante um ano e dois meses. Os detalhes sobre o que levou o colegiado a tomar a decisão, amplamente esperada por analistas do mercado financeiro, serão explicados na quinta-feira da semana que vem, quando a ata da reunião será divulgada.

A maior curiosidade dos agentes em relação ao documento é constatar quais são os prognósticos do BC para a inflação e o dólar, que, desde o último Copom, subiu 3,3% e fechou ontem cotado em R$ 2,346. As projeções do mercado para essas duas variáveis se deterioraram. E a piora das expectativas foi um dos destaques dados pelo BC 11a ata da última reunião do Copom. A reversão do mau humor, de acordo com o documento, seria fundamental para a melhora da economia.

A decisão sobre o rumo da Selic vem uma semana depois que o BC decidiu abastecer o mercado de dólares e passou a realizar leilões diários, num total de US$ 3 bilhões por semana. A expectativa é que estejam disponíveis até o fim do ano cerca de US$ 100 bilhões para os interessados. Ontem, Dilma disse que o BC possui "bala na agulha" para lidar com a alta do dólar.

O Estado de S. Paulo - 29/08/2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A NOVA VELHA POUPANÇA

JUROS A 9% TIRA VANTAGEM DA POUPANÇA E AJUDA FUNDOS DE INVESTIMENTOS
A elevação dos juros básicos de 8,5% para 9% ao ano, se confirmada hoje pelo Banco Central, trará de volta ao mercado a velha fórmula de remuneração da poupança, de 6,17% ao ano mais Taxa Referencial (TR). Com isso, a poupança deve perder a vantagem que vinha apresentando em relação a outras modalidades conservadoras, o que obrigará o investidor a rever o destino de suas aplicações de curto prazo.
 
Fundos DI com taxa de administração igual ou inferior a 1% passam a empatar ou ser mais interessantes do que a poupança até para o curtíssimo prazo, com resgate em menos de seis meses. CDBs que rendem acima de 89% do CDI, o referencial para aplicações conservadoras, também passam a ser atraentes, seja qual for o prazo de aplicação. Para quem pode esperar mais de dois anos, o CDB bate a poupança até com taxa de 80% do CDI.
 
Se o Banco Central anunciar hoje mais uma elevação dos juros básicos, como esperado pelo mercado, a velha poupança volta à cena. Isso não significa, entretanto, que a vantagem que ela vinha apresentando em relação às demais aplicações conservadoras no cenário de queda de juro vai ser mantida. Na verdade, o investidor deve rever o destino dos investimentos de curto prazo. Com a alta do juro, o retorno da poupança perde o vínculo com a Selic e volta a ser de 0,5% ao mês, ou 6,17% ao ano, mais Taxa Referencial (TR). E a caderneta tende a perder atratividade, se a taxa de juros for ajustada para 9% ao ano, como sugere o consenso.
 
Fundos DI com taxa menor ou igual a 1% passam a empatar ou ser mais interessantes do que a poupança até mesmo para o curtíssimo prazo, com resgate em menos de seis meses. Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que rendem acima de 89% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), o referencial para aplicações conservadoras, passam a ser atraentes, seja qual for o prazo de aplicação. Para quem pode esperar mais de dois anos, o percentual deve ser no mínimo de 80%. Aqui vale uma ressalva: a taxa é negociada individualmente com os clientes e depende do apetite de captação dos bancos, hoje baixo devido a menor estimativa de crescimento das carteiras de crédito.
 
O governo alterou as regras da poupança para depósitos feitos a partir de maio de 2012, vinculando seu retorno a 70% da Selic quando esta estiver menor ou igual a 8,5% ao ano, com o intuito de evitar que ela se tornasse atraente demais no cenário de queda de juro. Na prática, entretanto, o corte no retorno não foi suficiente. Quando a Selic chegou ao mínimo de 7,25% em outubro do ano passado, patamar em que permaneceu até abril, a poupança se tornou praticamente imbatível como destino para os recursos de emergência, que podem ser sacados a qualquer momento.
 
Fundos DI com taxa maior ou igual a 1% só serviam para quem pudesse deixar o dinheiro parado por pelo menos um ano, por conta da incidência de imposto de renda. A mordida do Leão também fazia com que CDBs com ganho inferior a 90% do CDI perdessem para a poupança em aplicações de até seis meses.
 
Seja pelo retorno, seja pelo desejo de segurança, o fato é que o brasileiro reforçou o apego à poupança. A caderneta registrou em julho, dado mais recente do Banco Central, o 17º mês seguido em que aportes superaram saques. A captação líquida nos sete primeiros meses do ano foi de R$ 37,6 bilhões, recorde para o período segundo a série histórica iniciada em 1995. Em agosto, a poupança continua atraindo recursos. Até o dia 20, o saldo líquido sobe para R$ 39,5 bilhões. Já os fundos DI atraem no mesmo período R$ 15,6 bilhões, sendo R$ 15 bilhões captados apenas em julho.
 
"A poupança tem uma mística no Brasil, mas é bom destacar que, nos meses de inflação mais salgada, ela entrega retorno real negativo", diz Fausto Silva, da XP Gestão. O movimento recente de alta dos juros e o indício de que ele pode perdurar por mais alguns meses, considera, apontam para uma vantagem dos fundos DI, que carregam papéis pós-fixados. "A maioria dos investidores não faz as contas antes de alocar recursos na poupança", afirma.
 
Com o ciclo recente de alta dos juros, o custo de oportunidade desse comportamento deve ser pesado. Caso se efetive a Selic em 9% pela primeira vez desde abril do ano passado, um fundo DI com taxa de administração de 1% passa a ser destino confortável, seja qual for o prazo da aplicação, segundo cálculos do consultor Marcelo d"Agosto. Taxas de 1,5% já são atraentes para quem pode esperar mais de um ano. Para prazo superior a dois anos, 1,8% é aceitável.
 
A taxa de administração média dos fundos DI é de 0,81%, segundo os dados mais recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), referentes a junho. Para o varejo, a média é maior, de 1,24%.
 
Dos 310 fundos potencialmente acessíveis a investidores, 214 têm hoje taxa de administração menor ou igual a 1%, segundo um levantamento de d"Agosto. Ou seja, 70% dos fundos disponíveis na indústria são atraentes quando comparados à poupança. A ressalva feita pelo consultor é que dois terços dos cotistas de fundos DI ainda estão em carteiras com taxa superior a 1%.
 
O estudo de d"Agosto mostra ainda que a taxa alta prejudica o retorno. Os fundos acessíveis com taxa de até 1% tiveram retorno de 4,04% no ano até julho, descontada a taxa de administração, mas ainda antes da mordida do Leão. Os com taxa superior entregaram 3,07%. No mesmo período, a poupança rendeu 3,04% sob as novas regras, enquanto o estoque aplicado até 3 de maio ganhava 3,57%.
Eduardo Castro, superintendente-executivo da gestora do Santander, afirma que à medida que os juros caíam, os gestores reduziram aplicações mínimas para fundos com taxas menores. Dependeria, assim, dos próprios investidores se movimentar de uma carteira para outra. E, na opinião de Castro, o movimento dos juros aponta, sim, para esses fundos. "O que se discute hoje é o tamanho do ciclo. Eu não consigo, olhando as projeções do próprio Banco Central, ver um ciclo que pare antes de 9,25%", diz.
Os cálculos que comparam poupança e fundos DI são uma estimativa. Por um lado, o acréscimo da TR, considerada nula nos cálculos, traz um ganho adicional para a caderneta. Por outro lado, a seleção do fundo DI pode reduzir ou ampliar a vantagem em relação à poupança. Isso porque essas carteiras nem sempre rendem Selic como estimado. Os gestores podem investir até 50% do patrimônio em papéis privados sem ter que explicitar isso no nome do fundo, o que traz uma possibilidade de vitaminar os ganhos - ou reduzi-los se houver provisões.
 
Os fundos DI, na média, vinham como os campeões de retorno desde o início do ano, destaca Ronaldo Patah, superintendente de renda fixa da área de gestão de recursos do Itaú Unibanco. Isso porque conseguiram tirar proveito de um movimento do mercado secundário, que já na virada do ano começou a antecipar a alta de juros local - que na prática teve início na reunião do Copom de abril - e, mais recentemente, da curva americana, em função da expectativa do início da retirada dos estímulos monetários pelo Fed, o banco central dos Estados Unidos.
 
Outra fonte de retorno importante para os fundos DI, acrescenta Patah, veio do crédito privado pós-fixado, majoritariamente Letras Financeiras (LFs). Segundo ele, a queda nas taxas pagas nas novas emissões ao longo dos últimos dois anos acabou gerando ganhos significativos para esses fundos com a marcação a mercado da valorização desses papéis em carteira.
 
Para se ter ideia, considerados todos os fundos DI, o rendimento médio no ano até julho foi de 4,31%, acima do CDI de 4,16%. Já a poupança "nova", a única disponível para aplicação no período, variou 3,04%. Vale lembrar que o rendimento do fundo DI é líquido de taxa de administração, mas não de IR. Se descontada uma alíquota de 20%, para prazos entre 6 e 12 meses, o ganho médio dos fundos DI cai para 3,45%, ainda assim acima da caderneta.
 
Olhando para frente, o cenário segue positivo para os pós-fixados, segundo Patah. "O BC vai continuar subindo os juros, no mínimo para 9,5%, e o Fed deve dar início à sua política de redução de estímulos no mês que vem", explica. Além disso, acrescenta o executivo, os fundos DIs e os renda fixa com gestão ativa, que podem apostar na alta de juro, tendem a aumentar atratividade em relação à poupança - que deve continuar atraindo aqueles que não conseguirem fundos com taxas até 1%.
 
"Os fundos DI são indicados justamente para esses momentos de incerteza, em que não se sabe até onde vai a subida dos juros", diz André Abreu, gerente-executivo de fundos de renda fixa da BB DTVM. Seria uma opção interessante, afirma, para aqueles investidores que andam assustados com a volatilidade dos fundos que aplicam em papéis pré-fixados. Não é um caminho para os DI, entretanto, que Abreu tem observado no comportamento dos investidores. Os fundos DI da casa têm tido resgates líquidos. Além da poupança, afirma Abreu, essas carteiras têm sofrido a competição de títulos privados isentos, com visibilidade crescente.
 
Patah, do Itaú Unibanco, lembra ainda que, por outro lado, o movimento de alta de juros, que começou a ser antecipado pelo mercado na virada do ano, acabou prejudicando a rentabilidade das carteiras de renda fixa com gestão passiva, ou seja, com posições prefixadas e prazos médios maiores. Hoje, contudo, para aplicações novas, as taxas estão melhores do que no início do ano, o que abre espaço para compra. "Mas só dá para entrar em um fundo de renda fixa passivo se o horizonte for de no mínimo dois anos, e de preferência para aposentadoria", pondera Patah.
 
Na visão de Joaquim Levy, diretor-superintendente da Bradesco Asset Management (Bram), tudo é uma questão de horizonte. "Para o curto prazo, aplicação pós-fixada é a resposta mais flexível. Mas quem tem um horizonte maior de tempo e está confortável com os ajustes [para cima] na curva de juros, a renda fixa potencialmente tem mais retorno", afirma Levy. Ele alerta, contudo, para o risco maior da renda fixa, associado à maior volatilidade. "Porém, mais para frente, os juros devem voltar a cair", argumenta.
Valor Econômico - 28/08/2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Dólar retoma a alta. Juro pode ir a 10%

Era uma vez o juro baixo...



Analistas preveem que a taxa Selic pode chegar a 10% em janeiro. Depois da queda de sexta-feira, dólar sobe para R$ 2,384

Mercado encara o BC e faz a moeda norte-americana aumentar 1,3%, para R$ 2,384. Amanhã, Selic deve passar para 9%, mas instituições que mais acertam projeções veem a taxa básica chegando a dois dígitos em janeiro

Os investidores deram ontem uma amostra consistente de que não será fácil a vida do Banco Central para controlar os preços do dólar, que já impactam a inflação. Apesar de a autoridade monetária ter mostrado um arsenal de mais US$ 60 bilhões a ser usado até o fim do ano, a moeda norte-americana voltou a subir ontem e a romper os R$ 2,40, refletindo toda a insegurança dos investidores em relação aos rumos da economia brasileira, que combina baixo crescimento e custo de vida elevado. A divisa dos Estados Unidos encerrou a segunda-feira cotada a R$ 2,384 para venda, com alta de 1,3% no dia e de 16,6% no ano.
Diante do fracasso do BC, que cumpriu a promessa de vender dólares no mercado futuro, a onda de desconfiança se espraiou. Tanto que as cinco instituições que mais acertam as projeções colhidas semanalmente pela autoridade monetária, os Top 5, passaram a prever que a taxa básica de juros (Selic), hoje de 8,50% ao ano, voltará à casa dos dois dígitos até janeiro de 2014, puxada pelo dólar e pela constante inflação próxima do teto da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 6,5%. Para esse grupo, a Selic chegará a 10% e, na melhor das hipóteses, permanecerá nesse patamar ao longo de todo o ano em que a presidente Dilma Rousseff tentará a reeleição.
No entender dos especialistas, o novo patamar de câmbio — e a baixa garantia de eficácia do plano em vigor do BC — dificultará ainda mais a missão da instituição de controlar a escalada dos preços. O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne hoje e amanhã e a aposta quase unânime é que os dirigentes da autoridade monetária decidirão por uma alta de 0,50 ponto percentual nos juros, com a Selic passando de 8,5% para 9% ao ano. Ainda restarão dois encontros até dezembro, nos quais a taxa básica terá novos aumentos.
Reajustes
Por mais que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, diga que o governo não permitirá “o contágio do câmbio na inflação”, a desvalorização do real ante a moeda norte-americana já provocou reajustes de até 12% nas tabelas de setores como os de informática e de alimentos e bebidas. “Há uma alta probabilidade de subida mais rápida da taxa de juros”, comentou o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn. A inflação, no entender dele, está longe de dar trégua.
Não à toa, o mercado financeiro, de acordo com o Boletim Focus, voltou a elevar a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2013, algo que não ocorria há sete semanas. A estimativa do indicador oficial de inflação saiu de 5,74% para 5,80%. “O governo deixou de lado o crescimento para segurar o custo de vida, mas acabou ficando sem nada”, avaliou a professora de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Virene Macedo. A carestia continua no teto da meta e a expansão da atividade, apontando para o chão.
Com discurso semelhante ao adotado pela maior parte dos empresários, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), Fabio Arruda Mortara, criticou duramente o governo. O provável aumento dos juros é considerado “remédio amargo para segurar a inflação”. “O governo ficou refém da Selic em decorrência de erros da política econômica”, atacou ele, que prevê imediata retração da demanda, da rentabilidade das empresas e do nível de emprego no segmento.
Em entrevista ao Correio, Mortara lembrou, ainda, que o menor patamar de juros da história — de 7,25% ao ano, registrado em outubro de 2012 — não se sustentou por inoperância do governo. “Foi uma alegria que durou pouco”, disse. A equipe econômica, acrescentou o presidente da Abrigaf, deu vários “tiros no pé” ao insistir em equívocos, como não reduzir os gastos públicos e segurar indefinidamente os reajustes dos combustíveis, que agora só potencializam a “minicrise” de Mantega.
Com juros mais altos e a pressão do dólar sobre os preços, a estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2013 segue despencando. Em janeiro, o mercado previa alta de 3,26% no ano. Ontem, com o registro de mais um recuo pelo Focus, o índice esperado pelos analistas caiu para 2,20%. O cenário pode piorar depois que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar, na próxima sexta-feira, o PIB do segundo trimestre. No primeiro, o Brasil avançou pífio 0,6%.
O maior problema para o governo, disse economista e ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas Gomes, é o impacto do câmbio no custo de vida. “Inflação alta e baixo crescimento é tudo o que a presidente Dilma não queria”, sobretudo com a campanha eleitoral batendo à porta do Palácio do Planalto. “Está difícil cravar para onde vai o dólar. Ainda há muita volatilidade no mercado”, completou ele, que chefia a divisão econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Pelas suas contas, o PIB deste ano deverá fechar ao redor 1,8%. No mês passado, ele ainda acreditava em um resultado acima de 2%. Em janeiro, falava em 3%.
Mão pesada
Para o economista e ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas Gomes, a autoridade monetária terá de ir além dos arsenal de US$ 60 bilhões anunciados na semana passada para segurar a desvalorização do real e acalmar o mercado. “O desempenho do dólar neste começo de semana mostra que o BC será obrigado a agir mais. Talvez, até tenha de elevar, amanhã, os juros acima do 0,50 ponto percentual previsto inicialmente pelo mercado”, apostou.

Autor(es): DIEGO AMORIM » ROSSANA HESSEL
Correio Braziliense - 27/08/2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Comida jogada fora alimentaria o mundo

No Brasil do desperdício, comida vai parar no lixo
 
O Brasil esbanja recursos naturais. De tudo se perde. A cada ano, 26,3 milhões de toneladas de comida são jogadas fora: volume suficiente para distribuir 131,5 kg para cada brasileiro ou 3,76 kg para cada habitante do planeta. Toda essa comida alimentaria facilmente os 13 milhões de brasileiros que ainda passam fome, nas contas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Poderia ainda facilitar o trabalho do Banco Central no combate à inflação. Com uma oferta maior de produtos, os preços não subiriam tanto e o país poderia até mesmo diminuir a importação de feijão preto da China.
O desperdício de comida provoca mais do que prejuízos financeiros, gera revolta e inconformismo. Ainda assim, o Brasil pouco se mobiliza no sentido de mudar esse quadro aterrador. Desde 1998, a chamada Lei do Bom Samaritano, em alusão a uma passagem bíblica, tramita no Congresso Nacional, e não há previsão alguma para que seja votada. A intenção da proposta é isentar doadores de alimentos de responsabilidade civil e penal, se agirem de boa-fé, na distribuição de comida — semelhante ao que ocorre em países da Europa e nos Estados Unidos.
Enquanto essa lei não é aprovada, o Estado brasileiro pune severamente os doadores. A legislação atual prevê até cinco anos de prisão caso quem receba os alimentos sofra algum tipo de dano em decorrência da comida. Com isso, donos de restaurantes, por exemplo, se sentem obrigados a despejar no lixo as sobras diárias da produção. "É um crime", define o diretor executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Gustavo Timo.
O ajuste na legislação, segundo Timo, poderia ajudar — e muito — o Brasil a conter o desperdício. "A regra em vigor é completamente inapropriada. Por parte do setor, não falta boa vontade", insiste o representante da Abrasel, ressaltando que, em outros países, existem programas organizados de doações para evitar que toneladas de comida em bom estado acabem no lixo.
Entraves
Combater a assombrosa perda de alimentos, no entanto, é muito mais complexo. O pesquisador Antônio Gomes, do Centro de Agroindústria de Alimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), enumera outros entraves, como o manuseio inapropriado dos produtos no campo, as embalagens inadequadas utilizadas no transporte e o armazenamento ineficaz no atacado.
Aprimorar o escoamento da produção agrícola  sustenta Gomes, aumentaria a oferta de alimentos sem a necessidade de alterar a área plantada. Em determinados casos, como o da banana e o do morango, o desperdício no caminho entre a propriedade e a prateleira do supermercado chega a 40%. "Quem arca com esse prejuízo é o consumidor", lembra o pesquisador da Embrapa, ao explicar que, no fim das contas, o produto que se perdeu no caminho se converte em aumento de preço.
O desperdício de que fala Gomes é facilmente percebido nas centrais de abastecimento. Por dia, os irmãos Berlândio e Ernandes da Silva jogam no lixo de 50 a 60 caixas de alimentos que, na avaliação deles, não poderiam ser aproveitados. "Às vezes, a comida já chega estragada. Ou então com uma aparência que a gente sabe que a dona de casa não vai comprar", diz Ernandes.
Vida real
 
São muitos os brasileiros que, diariamente, ficam de prontidão nas Ceasas espalhadas pelo país, enquanto funcionários separam as frutas e verduras aceitáveis pelo mercado. "A gente fica sentido, porque, mesmo assim, a perda é muito grande. Tanta gente passando fome e nós aqui jogando essa comida no lixo", desabafa Berlândio.
Desde que contraiu uma trombose na perna e perdeu o emprego de auxiliar de serviços gerais, Cilene de Sousa Rodrigues, 47 anos, vai à Ceasa de Brasília duas vezes por semana garantir os alimentos de casa, onde vive com seis pessoas. "Isso aqui é ouro", afirma ela, segurando uma maçã retirada de uma caçamba de lixo. "Amanhã é dia de verdura", avisava ela.
Cilene diz que "muita coisa boa" vai para o lixo. As maçãs descartadas na Ceasa, por exemplo, ela usa para fazer doces e geleias. E ainda distribui o que sobra para vizinhos e o motorista do ônibus que a leva de volta para casa. "Teria vergonha se estivesse roubando ou fazendo coisa errada. Pegar comida do lixo é algo honesto", comenta a moradora do Recanto das Emas, na periferia da capital federal.
Todos os dias, milhares de pessoas também desperdiçam comida nos restaurantes. Além de não consumirem tudo o que foi produzido pelos estabelecimentos deixa comida no prato. No restaurante self-service João Rosa, em Belo Horizonte, onde cerca de 350 refeições são servidas por dia — uma média de 120 quilos de comida —, a perda chega a 16% do total produzido, cerca de 20 quilos por dia. Em dinheiro, o prejuízo diário varia entre R$ 600 e R$ 800. No mês, considerando 20 dias úteis, pode chegar a R$ 16 mil.
Além da comida que sobra no buffet e vai para o lixo, em função das normas da vigilância sanitária que não permitem o reaproveitamento, a sócia-proprietária Catarina das Graças Artur, conta que parte do seu faturamento vai embora com aqueles que colocam a comida no prato, mas não comem. "Cerca de 30% não consomem tudo o que retiram dos recipientes", afirma.
Correio Braziliense – 26/08/2013