quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

 Carga tributária bate recorde e chega a 37,65% do PIB

Graças a receitas extraordinárias, que turbinaram tanto a arrecadação federal quanto a dos estados, a carga tributária brasileira bateu novo recorde em 2013 e fechou o ano em 37,65% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país), com alta de 0,53 ponto percentual em relação ao ano anterior, que foi de 37,13%. A projeção está em estudo do economista José Roberto Afonso feito com base nos principais impostos, contribuições e taxas pagos no país.
Os cálculos preliminares do economista indicavam que a carga tributária do ano passado chegaria a 37,5% do PIB, mas o índice cresceu com o impacto da arrecadação extra que ingressou nos cofres públicos nos últimos meses de 2013.
O cálculo de Afonso — considerado um termômetro da carga tributária por antecipar o comportamento dos impostos no país — aponta que os programas de parcelamento de dívidas tributárias (como o Refis da Crise), feitos tanto pelo governo federal quanto por estados com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em 2013, foram os maiores responsáveis pelo desempenho das receitas.
ICMS ganha participação
O documento destaca que a receita administrada pelo governo central (formado por Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) aumentou sua participação no PIB em 0,37% no ano passado, enquanto a arrecadação do ICMS subiu 0,28% do PIB.
Segundo o estudo, o bom desempenho do ICMS no ano passado pode ser atribuído “a uma melhora na atividade econômica, a uma aceleração no fluxo de importações, e ao resultado de parcelamentos de dívidas tributárias promovidos por alguns estados, especialmente São Paulo”. Já a Previdência Social perdeu 0,12% do PIB, refletindo a expansão da desoneração tributária sobre a folha de pagamentos.
No entanto, Afonso alerta que o número não foi suficiente para que o governo conseguisse fazer um superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) suficiente para mostrar ao mercado um compromisso com a austeridade fiscal. “Mesmo com a carga tributária recorde, não se conseguiu gerar um superávit primário satisfatório na opinião do mercado”, afirma o economista no estudo.
Superávit abaixo da meta
Os dados oficiais ainda não foram divulgados, mas os analistas estimam que o superávit primário de 2013 ficou abaixo da meta de R$ 110,9 bilhões, ou 2,3% do PIB, fixada para o setor público. Embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já tenha adiantado que a União cumpriu sua parte da meta, que era de R$ 73 bilhões, e economizou R$ 75 bilhões, ainda não se sabe o tamanho da contribuição de estados e municípios para o superávit. Eles deveriam poupar R$ 37,9 bilhões, mas até novembro só haviam conseguido registrar R$ 20,2 bilhões.
Por isso, Afonso alerta que, em 2014, o governo terá problemas na área fiscal. Isso porque terá dificuldade para “promover o ajuste fiscal tão ansiado em cima de novo aumento de carga, pois ela já se encontra acima do melhor patamar anterior”.
Autor(es): Martha Beck

O Globo - 29/01/2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

 Com alta de juros, fundo imobiliário frustra investidor

Os fundos imobiliários, que atraíram milhares de investidores nos últimos dois anos como uma opção de rendimento mais generoso diante de um cenário de juro baixo e Bolsa em queda no Brasil, tomaram um tombo no ano passado. O índice da BM&FBovespa que acompanha o desempenho dessas aplicações, chamado de Ifix, teve uma desvalorização de 12% em 2013. O segmento subiu, em média, 27% ao ano entre 2005 e 2012. Para 2014, o risco de um desempenho ruim dos fundos imobiliários está novamente no radar, alertam os especialistas. Mesmo assim, eles avaliam que, para quem está pensando em investimento a longo prazo, esses fundos ainda são uma boa alternativa para os que gostam de aplicar em produtos com lastro em ativos reais, como imóveis.
— Os fundos imobiliários são indicados para aquele investidor que já constituiu uma reserva de emergência e não vai precisar do dinheiro de uma hora para outra. Esses produtos mesclam características de renda fixa, oferecendo rentabilidade constante, vinda do aluguel dos imóveis, com renda variável, já que as cotas negociadas na Bovespa variam. Num momento de desvalorização dessas cotas, o aplicador pode vendê-las com prejuízo — diz Luiz Krempel, planejador financeiro do site GuiaBolso.
Foi o que aconteceu no ano passado. As cotas dos dez fundos mais negociados na BM&FBovespa desvalorizam em média 15%, segundo a consultoria especializada Uqbar. Parece uma contradição, já que os imóveis só se valorizam nos últimos anos. Especialistas explicaram que a alta de juros prejudicou o desempenho dos fundos.
— Em 2013, a taxa de juros Selic subiu de 7,25%, o menor nível da história, para 10% no fim do ano. Com isso, aplicações em renda fixa que seguem a Selic tornaram-se mais atraentes, mas os fundos continuaram com a mesma rentabilidade. É o que se chama custo de oportunidade. Isso fez as cotas valerem menos — explica Amerson Magalhães, diretor do Easynvest/Título Corretora.
Aumenta oferta de imóveis
Como a perspectiva é que os juros continuem subindo este ano — já passaram para 10,5% em janeiro e podem ficar acima de 11% até o fim do ano — os fundos imobiliários podem repetir, na média, o desempenho menos generoso de 2013.
Arthur Vieira de Moraes, consultor especializado nesses fundos, diz que, no ano passado, houve a entrega de muitos imóveis comerciais no Rio de Janeiro e em São Paulo. Com oferta em alta, muitos estabelecimentos não foram alugados, aumentando a vacância e prejudicando a rentabilidade de fundos lastreados em escritórios e galpões. A oferta maior também fez o aluguel recuar entre 3% e 5%:
— Cerca de 50% do patrimônio dos fundos imobiliários estão lastreados em escritórios. A vacância é um dos riscos que se corre ao aplicar nesses produtos.
Os fundos investem em fatias de shopping centers, hotéis, hospitais, lajes corporativas, galpões de logística, escritórios. Os recursos também podem ser destinados a fundos imobiliários que investem em títulos de renda fixa ligados ao setor. O rendimento vem do aluguel pago pelos inquilinos. Há chance de ganho também com a valorização do imóvel, que se reflete nas cotas negociadas na BM&FBovespa.
São 115 fundos na Bolsa
Esse mercado vem crescendo, o que dá mais liquidez e facilita a vida de quem decide vender suas cotas. Hoje, há 115 fundos negociados na Bolsa. Eram 25 em 2008. O número de investidores saltou de 15 mil em março de 2011 para 101 mil em dezembro.
— Esses fundos permitem que pequenos investidores tenham acesso a aluguéis de grandes empreendimentos, com valor de aplicação a partir de R$ 100. Outra vantagem é a isenção de Imposto de Renda. Os ganhos com aluguel são taxados com IR entre 7,5% e 27,5% — explica Pedro Junqueira, sócio da consultoria Uqbar, especializada nesses produtos.
Luiz Krempel, do GuiaBolso, afirma que a administração desses fundos é feita por gestor profissional, que vai procurar as melhores oportunidades no mercado imobiliário. O próprio Krempel investe nesses fundos:
— Ao investir num imóvel diretamente, o aplicador fica sujeito a depredação, arca com as reformas, impostos, e pode demorar para vender ou alugar. Nos fundos, esse risco não existe.


O Globo - 27/01/2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Inadimplência acumulada no ano tem 1ª queda desde 2000, diz Serasa

Recuo foi de 2% em 2013; no ano anterior, índice havia subido 15%.
Maior rigor na concessão de crédito pesou sobre resultado.

A inadimplência do consumidor fechou 2013 com queda de 2%, na comparação com o ano anterior, segundo pesquisa da Serasa Experian, divulgada nesta terça-feira 21/01. No ano anterior, o indicador havia avançado 15%.

De acordo com a pesquisa, esse é o primeiro recuo nesse tipo de comparação desde o início da sua série histórica, em 2000. Pesaram sobre o desempenho da inadimplência em 2013 os recuos de 9,4% no volume de cheques sem fundo e de 4,8% na falta de pagamentos das dívidas não bancárias (como cartões de crédito, financeiras e lojas em geral).

De acordo com os economistas da Serasa Experian, mais empregos e uma série de mudanças de comportamentos pesaram para que ocorresse a queda de inadimplentes no país. "A manutenção de baixas taxas de desemprego ao longo de 2013, o maior rigor na concessão de crédito por parte das instituições financeiras e a maior preocupação dos consumidores em quitar suas dívidas, em vez de assumirem novos financiamentos, impulsionaram o recuo da inadimplência durante o ano passado", afirmou a Serasa, em nota.

Já na análise de dezembro de 2013 com o mesmo mês do ano anterior, a baixa foi ainda maior, de 6,5% - a sétima queda mensal. Quando comparado a novembro de 2013, a inadimplência do consumidor cresceu 2,7%.
Comparando ainda dezembro com o mês anterior, as dívidas não bancárias e os cheques sem fundo tiveram aumento de 6,9% e 4,0%, respectivamente. A inadimplência com os bancos recuou 1,2% e com os títulos protestados, 6,1%.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

PROVE QUE ESTÁ VIVO

Idosos devem provar ao INSS que estão vivos

Mais de 4,7 milhões de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) têm pouco mais de um mês para provarem que estão vivos e continuarem recebendo o benefício. O prazo do recadastramento de senha, imprescindível para a continuidade dos depósitos, termina em 28 de fevereiro próximo, e não deve mais ser prorrogado, como ocorreu em agosto do ano passado. Os brasileiros que estão com o processo pendente correspondem a 15% do total dos segurados.
Governo e instituições financeiras insistem no modelo antigo da chamada "prova de vida", mesmo com recorrentes problemas envolvendo idosos impossibilitados — por doença ou dificuldade de locomoção — de comparecerem às agências bancárias para realizar o processo. Existe a opção de o beneficiário contratar um procurador e cadastrá-lo no INSS, mas essa alternativa também exige que a pessoa tenha de sair de casa.
A pitoresca "prova de vida" foi desenterrada em maio de 2012, após a atual gestão reunir indícios de que pagamentos estavam sendo feitos a pessoas mortas, além da constatação de benefícios distribuídos duas vezes para o mesmo contribuinte. "Ninguém questiona a necessidade do recadastramento, mas esse processo precisa ser feito de forma mais humana", comenta o professor da Universidade de Brasília (UnB) José Matias-Pereira, especialista em administração e finanças públicas.
No primeiro governo Lula, 10 anos atrás, o recadastramento obrigatório provocou tumulto nas agências do INSS em todo o país, o que obrigou o ministro da Previdência Social à época, Ricardo Berzoini, a pedir desculpas à população (veja memória). Agora, com o mínimo de divulgação, o governo volta a exigir que aqueles que recebem a verba por meio de conta-corrente, conta poupança ou cartão magnético deem sinal de vida. Caso contrário, perderão o benefício.
Às vésperas do fim do prazo, o número considerável de aposentados e pensionistas que ainda não se manifestaram chama a atenção. O INSS afirma não ter o controle de quantos desses têm ou não procuradores à disposição nem responde sobre o risco de haver o cancelamento do benefício de pessoas vivas. "Com a tecnologia, é claro que dá para melhorar esse processo. Falta somente o Estado ter vontade de fazer isso", diz Matias Pereira.
Burocracia
O especialista defende ser claramente possível ter a informação de quem, de fato, não pode ir a uma agência bancária para garantir o benefício. "Essas pessoas merecem um tratamento digno e a compreensão do Estado. Nada impede que elas recebam a visita de algum agente do banco ou do INSS em casa para o recadastramento", sugere. "O que não dá é para continuar criando dificuldades e sustentando uma burocracia ineficiente", completa o professor.
As estratégias de atendimento, alega o INSS, são de responsabilidade da rede bancária. A Federação Brasileira de Bancos (Frebraban) informa que as instituições financeiras "investiram e empenharam todos os esforços para que o processo transcorra de forma organizada, sem causar transtornos à população", e que a divulgação só não começou antes por entraves no próprio instituto.
Os bancos estão alertando — ou ao menos deveriam estar — os beneficiários sobre a proximidade do fim do período da "prova de vida". Quando for até a agência bancária, é preciso levar documento de identificação com foto. Segurados que moram no exterior também podem realizar a atualização do cadastro por meio de procurador ou do consulado.
Em outubro do ano passado, quando o prazo foi prorrogado em seis meses, 9,4 milhões de aposentados e pensionistas ainda tinham atendido a convocação dos bancos, o que representava 30% do total. Esse índice caiu pela metade neste início de 2014, mas continua sendo considerado alto.
Memória
Desmaios e revolta
Em 2003, o ex-ministro Ricardo Berzoini, decidiu suspender o pagamento de todos os benefícios dos segurados com 90 anos ou que recebiam pensões e aposentadorias por mais de 30 anos. O benefício só seria restabelecido com a presença do aposentado e pensionista na agência previdenciária para fazer a chamada "prova de vida". Na época, houve tumulto em postos do INSS e idosos chegaram a desmaiar nas longas filas. O ministro se viu obrigado a suspender o recadastramento e a pedir desculpas publicamente aos segurados.
Serviço

O que é preciso saber
para atualizar o cadastro:

» Levar um documento com foto ao banco responsável pelo pagamento do benefício. Documentos válidos: carteiras de Identidade, de Trabalho ou de habilitação
» Em alguns casos, é possível realizar o cadastro por meio de biometria
» Impossibilitados de se locomover podem recorrer a um procurador, que deve comparecer a uma Agência da Previdência Social (APS) munido de procuração registrada em cartório. Se for o caso, também é necessário apresentar atestado médico
» Beneficiários que moram no exterior podem acionar o consulado para emitir o comprovante de vida.


Correio Braziliense - 20/01/2014

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

62,5% das famílias estão endividadas

No maior patamar em quatro anos, o índice de famílias endividadas atingiu, em 2013, média de 62,5%. São 9,1 milhões de lares endividados, um crescimento de 7,5% em relação ao ano anterior, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). A alta acompanhou o aumento do custo do crédito, explicou Marianne Hanson, economista da CNC. De abril a novembro, o Banco Central subiu a taxa básica de juros (Selic) de 7,25% para 10%. "Hoje, os bancos estão mais criteriosos nas concessões de crédito às pessoas físicas. Esse fator deixou o consumidor em condições menos favoráveis para arcar com os compromissos", afirmou.

Apesar dos números não serem favoráveis, a CNC avalia como positiva a redução do percentual de famílias sem condições de pagar as dívidas em atraso. Em 2013, o índice de inadimplentes foi de 6,9%, contra 8,8% registrado no início da série dos  indicadores, em 2010. Os dados acompanham a elevação do prazo médio de comprometimento com a dívida, que subiu de 6,53 meses para 6,74 meses.

Dessa forma, a parcela média da renda comprometida com dívidas caiu de 30% para 29,4%. "Os prazos mais longos de crédito permitiram ao consumidor acomodar os débitos no orçamento, sem necessariamente sacrificar ainda mais a renda", explicou Marianne. No entanto, ela fez um alerta: "Mesmo as famílias que não se sentem muito endividadas devem manter a cautela".

Acima da meta

Na avaliação do diretor executivo de Estudos Financeiros da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, o cenário vai piorar em 2014. Na próxima semana, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, deve anunciar mais uma alta da Selic. "Mesmo com os juros elevados, fechamos 2013 com a inflação bem acima da meta, de 4,5%. Não há dúvida de que os bancos vão repassar esse aumento", analisou.

A instabilidade do câmbio deve pesar no crescimento da inflação, afirmou Oliveira. "Os produtos importados ficarão mais caros", disse. "São fatores que apontam para uma alta da inadimplência no primeiro trimestre", acrescentou Marianne Hanson. "Os reajustes que a economia deve sofrer nos próximos meses vão ter impacto. Além disso, esse é um período do ano em que as famílias têm gastos com IPVA, IPTU e matrículas escolares dos filhos", lembrou.

Correio Braziliense - 10/01/2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Argentina vai importar tomate do Brasil

Objetivo é garantir abastecimento e evitar o aumento de preços no país.

Em meados de 2013, alimento foi considerado o 'vilão da inflação' no Brasil.

Para evitar o aumento de preços do tomate no seu país, o governo da Argentina decidiu importar o alimento do Brasil, conforme aponta nota divulgada pela Casa Rosada nesta quarta-feira (8).

O país recorrerá à importação para garantir o abastecimento e os preços do tomate, que, "por circunstâncias de estação", terá sua oferta reduzida nos próximos dias.

"A presidente Cristina Fernández de Kirchner orientou o ministro da Economía, Axel Kicillof, que, por meio do Mercado Central, libere a importacão de tomates do Brasil para garantir o abastecimiento e o preço e, se possível, a um valor menor", disse, em nota, o chefe de gabinete do governo, Jorge Capitanich.

Em meados de 2013, o tomate foi considerado o "vilão da inflação" no Brasil. Em julho, por exemplo, o alimento registrou um aumento médio de 94% no Rio de Janeiro.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Fuja do Cheque Especial

Juro do cheque especial chega a 146% ao ano
R$ 21,2 bi em dívida e juros anuais de 146%
No início do ano, depois dos gastos extras com as festas e as férias e das despesas com impostos, os brasileiros costumam mergulhar no cheque especial, cujas taxas estão nos maiores níveis em 18 meses. Saldo devedor aumenta 16% em 2013

O cheque especial deveria, em tese, ser usado somente em casos de extrema necessidade. Mas, de tão acessível e estimulado pelos bancos, o dinheiro extra acaba se incorporando ao salário de milhares de brasileiros. Em 2013, ainda sem contabilizar as compras de Natal, o saldo devedor dessa modalidade cresceu 16,3%, mais que o dobro do salto registrado nas dívidas com cartão de crédito. O montante atingiu R$ 21,2 bilhões em novembro, indicam os dados mais atualizados do Banco Central.

Animados com os valores a mais disponíveis na conta, os brasileiros costumam se enrolar com o cheque especial com a mesma facilidade que usufruem dele. Não raras vezes, os juros altíssimos tumultuam a vida de quem abusa desse tipo de empréstimo: a taxa média cobrada pelo sistema financeiro vem subindo há seis meses consecutivos, tendo alcançado, no último levantamento do BC, o patamar de 146,4% ao ano — o maior desde junho de 2012.

Quem gastou muito na virada do ano e não poupou ao menos parte do 13ª salário pensando nos meses seguintes terá de se esforçar para vencer a tentação e fugir do cheque especial neste início de 2014, orientam especialistas. Se for preciso recorrer a algum tipo financiamento para pagar os impostos tradicionais de começo de ano (IPVA e IPTU), a matrícula escolar dos filhos ou outras despesas urgentes, a sugestão é recorrer a modalidades com juros menores, como o crédito  pessoal (86,4% ao ano) ou o empréstimo consignado (24,5% anuais, na média).

A taxa de inadimplência de quem se pendurou no cheque especial apresentou uma queda no fim de 2013, após três meses seguidos de alta. Ainda assim, os 8,1% computados pela autoridade monetária é bem maior que o índice total para pessoas físicas: de 6,7%. Em uma lógica bem semelhante à daqueles que optam por pagar apenas o mínimo da fatura do cartão de crédito, quem adia a quitação dos débitos com o cheque especial entra em uma “bola de neve” da qual dificilmente se sai livre de estragos financeiros.

Experiência desastrosa

O acúmulo de dívidas por causa da despesa extra de juros nas alturas fez a terapeuta Jeanine Duarte, 46 anos, tomar uma decisão radical há dois anos. Assumindo ser quase impossível não se apropriar dos valores do cheque especial — sempre em evidência no saldo bancário —, ela pediu ao banco que bloqueasse o acesso ao empréstimo. “Não quero nem ouvir falar em limite do especial. Agora, está tudo sob controle e conto somente com o meu salário”, comenta.

As experiências desastrosas com uma verba fácil de ser utilizada empurraram Jeanine — e tantos outros brasileiros — para outras dívidas, na tentativa de se livrar de um quadro mais complicado. “Como os juros altos vão sendo debitados automaticamente, a gente não tem a noção exata do tanto que está gastando”, diz. “A verdade é que, com o crédito ali disponível, eu não conseguia ficar sem contar com ele”, reconhece.

O cheque especial reforça o educador financeiro Reinaldo Domingos, é uma das modalidades de crédito mais fáceis de ser usada, uma vez que quase não há burocracia para aprovação. Em muitos casos, o limite é aumentado sem mesmo o cliente pedir ou ser avisado. “Por ser um tipo de financiamento já aprovado, é também um dos mais arriscados e traiçoeiros. A pessoa cai numa areia movediça e, quando percebe, está engolida pelas dívidas”, alerta o autor do livro Terapia Financeira.

Geralmente, as dívidas com o cheque especial começam pequenas e devagar. Depois, viram rotina, ganham proporções maiores e fogem do controle. É a porta de entrada, completa Domingos, para uma situação de inadimplência. “Usar essa modalidade como parte do salário é praticamente um suicídio do ponto de vista financeiro”, define o especialista, que insiste na recomendação de, em caso de emergência, apelar para os créditos pessoal ou consignado. “Se for para tomar empréstimo, que seja o de menor juros.”

Válvula de escape

mbora na maioria das vezes seja usado de maneira displicente, o cheque especial pode ajudar bastante quem precisa cobrir alguma despesa inesperada e por um curto espaço de tempo, pondera o economista e professor do Ibmec em Brasília José Ricardo da Costa e Silva. Alguns bancos, inclusive, permitem a utilização do crédito sem a cobrança de juros por alguns dias. “O problema é que as pessoas se acostumaram a usar o cheque especial como válvula de escape”, afirma.

Por trás dos números de saldo devedor e de inadimplência divulgados pelo Banco Central, é possível perceber, na avaliação de Silva, como os conceitos de educação financeira ainda precisam ser aprimorados no país. “O brasileiro tem de aprender, de uma vez por todas, a conviver com o salário que tem”, insiste o economista, classificando como abominável o uso do cheque especial como algo integrado à renda. “Arcar com uma taxa de juros na casa dos três dígitos ao ano não faz o menor sentido.”

Todo cuidado é pouco
Veja algumas dicas para manter as finanças em dia

» Se já estiver endividado com o cheque especial, procure o gerente e negocie a quitação do débito. Há a possibilidade de parcelamento, a juros menores. Mas faça o possível para pagar o máximo que puder do valor à vista;

» Para fugir da “bola de neve” dos juros, corte despesas — mesmo que momentaneamente — corte despesas a fim de pagar a dívida do especial o mais rapidamente possível. Não descarte nem mesmo vender algum bem;

» Se sobrou algo do 13º salário, é hora de utilizá-lo para quitar ou diminuir eventuais dívidas com cheque especial e o rotativos do cartão de crédito. São os débitos mais caros do mercado;

» Substitua a dívida por outra que apresente taxas de juros mais baixas, ou seja, todas as outras. O empréstimo consignado, em que as parcelas são descontadas diretamente do salário, pode ser uma opção mais em conta;

» O cheque especial deve ser usado somente em casos de extrema necessidade e por um período curto. Consulte o seu banco sobre o prazo de utilização desse crédito sem a cobrança de juros;

» Em casos de bancos que não cobram juros por alguns dias quando se entra no limite do cheque especial fique atento: passado o prazo (10 ou 12 dias) de isenção de encargos, a cobrança é retroativa. Ou seja, os juros são cobrados por todos os dias de uso da linha;

» Caso você não consiga ficar sem usar o cheque especial, já que o limite de crédito foi incorporado ao salário, não descarte a possibilidade de tomar uma medida radical: pedir ao banco que cancele a linha de empréstimo. No início, o baque será grande, mas, com o tempo, a sensação de que se livrou de uma praga será maravilhosa.

Fonte: educadores financeiros
Correio Braziliense - 06/01/2014 www.correioweb.com.br

sábado, 4 de janeiro de 2014

Resultado fiscal é ‘notícia boa’ para quem, cara pálida?

O clima no Ministério da Fazenda em Brasília hoje dia 03/01/14 era ou é de comemoração. O ministro Guido Mantega estava todo faceiro para apresentar o resultado do superávit primário do chamado governo central – que exclui estados, municípios e estatais da conta de poupança para o pagamento dos juros da dívida pública.
“Queria começar o ano dando boas notícias do ponto de vista central. O governo central cumpriu o compromisso fiscal acima de R$ 73 bilhões”, anunciou Mantega, ressaltando que esse resultado ainda pode sofrer alteração, já que o fechamento dessa conta só acontecerá em fevereiro.
Notícia boa para quem, “cara pálida”? Porque para os investidores, analistas de mercado e agências de classificação de risco não foi. Talvez pudesse ser um anúncio com algum propósito eleitoral, já que nos aproximamos do pleito nacional. Mas superávit primário não tira nem dá voto, ainda!
Os analistas que avaliam a trajetória da dívida pública de um país consideram o resultado geral, com todo mundo dentro – não só o governo central. Certamente, quando este número chegar, daqui a um mês, o governo deverá evitar anúncios pomposos. Afinal, já se sabe que a outra parte da conta, os estados, municípios e estatais, não conseguiram chegar perto da meta estipulada para eles.
Com essa turma “de mercado”, a conversa tem que ser séria. Eles fazem as mesmas contas que o governo e sabem o quê e onde falta posicionamento e transparência das autoridades. São eles que orientam os investidores sobre aplicar ou não no Brasil. Se somos ou não um país seguro no longo prazo.
Dito isto, acrescento que o anúncio do ministro Mantega conseguiu surpreender apenas pelo que ele não disse. Ao ser questionado sobre o compromisso fiscal para este ano que começa, Mantega disse e repetiu que ainda não há nada acertado.
Há quem diga que, no Brasil, até o passado é incerto. Então, toda cautela é pouca na hora de apreciar os dados já conhecidos. Mesmo assim, para decidir se vêm ou não para cá, os investidores querem saber do futuro – e já passou da hora de alguém em Brasília dizer para onde vamos.