sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Petróleo em baixa deve afetar investimentos da Petrobras

Alto endividamento e Operação Lava Jato dificultam captação de recursos no exterior

O barril do petróleo atingiu seu menor preço em quatro anos em meados de novembro e continua abaixo de 80 dólares. Com a commodity mais barata e a expectativa da manutenção do valor nos próximos meses, a Petrobras e outras petrolíferas aguardam com ansiedade a reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), marcada para esta quinta-feira 27, em Viena, na Áustria.

A longo prazo, o baixo valor no mercado internacional pode colocar em risco o plano de investimentos da Petrobras e demais petrolíferas, que realizaram planejamentos ambiciosos apostando num barril mais caro. Em seu Plano de Negócios e Gestão (PNG) 2014-2018, a estatal brasileira previa o barril a 105 dólares em 2014; 100 dólares até 2017; e 95 dólares em 2018. A meta era investir 220,6 bilhões de dólares no período.
Números atuais mostram um cenário diferente, e se a baixa no preço do barril se mantiver, o investimento no desenvolvimento dos campos do pré-sal deve se tornar uma incógnita, avalia Gilberto Braga, professor de finanças do Ibmec/RJ. Quando as descobertas do pré-sal foram anunciadas, os preços internacionais do barril estavam acima de 120 dólares, e valia a pena o investimento pesado nestes campos.
"Mas com o valor a 80 dólares/barril, em função da vazão de produção e dos pesados investimentos exigidos, há dúvidas se alguns poços se manterão economicamente viáveis para a empresa", diz Braga. "Não se tem muita transparência sobre os reais custos de exploração, mas é fato que alguns poços não serão mais rentáveis, e isso certamente afetará o plano de investimentos da estatal."
Numa perspectiva de curto prazo, o preço mais baixo do petróleo e derivados alivia as contas da Petrobras e a balança comercial do país, já que a empresa comprava o produto por um valor no exterior e o vendia mais barato no Brasil, explica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
Segundo o especialista, no nível de preço atual, a defasagem do valor dos combustíveis está próxima de zero. Mas numa perspectiva de médio prazo, as consequências podem ser negativas para a empresa.
"Um preço menor do barril de petróleo vai significar mais um desafio para a Petrobras, uma vez que a empresa já tem um elevado comprometimento de despesas com o investimento para explorar as reservas adquiridas", opina Pires. "Este desafio se torna ainda mais grave se considerarmos o elevado endividamento da companhia, que já atingiu 241 bilhões de reais."
Por meio de nota, a Petrobras informou que o Plano de Negócios e Gestão (PNG) da empresa está em revisão e ainda não há previsão de divulgação. Segundo a estatal, para cada processo de planejamento é realizada uma atualização das premissas com as melhores informações disponíveis no momento.
"Na época da divulgação do PNG 2014-2018, as projeções da Petrobras se encontravam no viés mais conservador das previsões", diz a nota.
Mesmo com o petróleo em queda, a estatal aumentou os combustíveis nas refinarias desde 7 de novembro: a gasolina teve alta de 3%, e o diesel, de 5%. Apesar de estar na contramão do mercado internacional, de acordo com analistas, a medida foi correta para recompor as perdas acumuladas e reforçar o caixa da empresa, a fim de colocar em prática seus investimentos. Durante o ano eleitoral, os preços dos combustíveis ditados pela estatal se mantiveram congelados.
A decisão de aumentar os preços este mês não foi meramente econômica. Por conta da Operação Lava Jato, a empresa adiou, no dia 13 de novembro, a divulgação do balanço do terceiro trimestre e, como resultado, vai ter mais dificuldades para captar recursos no exterior e financiar os investimentos, opina o economista Maurício Canêdo Pinheiro, do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE)/Fundação Getúlio Vargas (FGV).
"Todo aumento de receita é muito bem-vindo, já que o custo de captação de recursos ficou maior e, com esses escândalos, não é uma boa ideia captar recursos de terceiros e fazer dívidas. A estatal vai ter que contar com receita própria e com o BNDES", afirma Pinheiro.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

OMC diz que acordo comercial global pode ser fechado em duas semanas

Chance é alta de acordo para simplificar as regras aduaneiras globais.
Informações são do diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) disse hoje sexta-feira 14/11 que existe uma "probabilidade alta" de que um acordo para simplificar as regras aduaneiras globais seja implementado dentro de duas semanas, depois de um acordo fechado entre Índia e Estados Unidos para resolver um impasse.

"Eu diria que nós temos uma probabilidade alta de que o pacote de Bale seja implementando muito em breve", disse o diretor-geral da OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo, referindo-se ao Acordo de Facilitação do Comércio negociado na ilha indonésia.

"Tenho esperança de que podemos fazer isso em um período de tempo bastante curto, dentro

Emb. Roberto Azevêdo - Diretor Geral da OMC
das próximas duas semanas", acrescentou Azevêdo, falando antes de uma cúpula do G20, grupo das principais economias do mundo, em Brisbane, na Austrália.

Na quinta-feira, Índia e Estados Unidos resolveram uma disputa que vinha travando o acordo na OMC e ameaçava impedir as reformas, que devem acrescentar cerca de 1 trilhão de dólares ao comércio global.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dólar opera em queda após seis dias seguidos de alta

Movimento vem em linha com os mercados internacionais.
Na sexta-feira, dólar fechou na maior cotação desde abril de 2005.

O dólar opera em queda hoje segunda-feira 10/11, após seis dias consecutivos de ganhos sobre o real. A variação no cenário interno segue linha dos mercados internacionais, após números mais fracos que o esperado sobre o emprego nos Estados Unidos reforçarem na sexta-feira 7/11 a percepção de que os juros norte-americanos só começarão a subir no segundo semestre de 2015.

Por volta das 15h20, a moeda norte-americana era vendida a R$ 2,5438, em baixa de 0,76%.

No cenário doméstico, investidores continuam no aguardo do anúncio do próximo ministro da Fazenda e de mais sinais sobre como será a política econômica no segundo mandato de Dilma Rousseff.

Reginaldo Siaca
"O dólar tem sido muito pressionado nas últimas semanas e hoje, com a agenda fraca, está dando um respiro e seguindo lá fora", disse à Reuters o superintendente de câmbio da corretora TOV Reginaldo Siaca.

Na sexta-feira, o dólar fechou em alta de 0,11%, a R$ 2,5634, no maior valor desde abril de 2005. Na semana, a moeda subiu 3,42%. No mês, há valorização acumulada de 3,42% e no ano, de 8,73%. Segundo a agência Reuters, o dólar subiu durante oito das últimas nove semanas, período em que acumulou avanço de quase 15%.

Nesta manhã, o Banco Central vendeu a oferta total de até 4 mil swaps, que equivalem a venda futura de dólares, pelas atuações diárias. Foram vendidos 2,2 mil contratos para 1º de junho e 1,8 mil para 1º de setembro de 2015, com volume correspondente a US$ 197,4 milhões.

O BC também vendeu nesta sessão a oferta total de até 9 mil swaps para rolagem dos contratos que vencem em 1º de dezembro. Ao todo, a autoridade monetária já rolou cerca de 22% do lote total, equivalente a US$ 9,831 bilhões.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Desemprego ficou em 6,8% no 2º trimestre

No primeiro trimestre, taxa havia ficado em 7,1%.
População desocupada somou 6,8 milhões no período.

No segundo trimestre, a taxa de desemprego ficou em 6,8%, segundo dados divulgados hoje quinta-feira 6/11/2014 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que substituirá a tradicional Pnad anual e a Pesquisa Mensal de Emprego (PME). No primeiro trimestre, taxa havia ficado em 7,1% e no segundo de 2013, em 7,4%.

O novo indicador mostra um desemprego maior que o calculado pela PME, que fechou o segundo trimestre em 4,87%.

A cada trimestre, a Pnad Continua investiga 211.334 domicílios em aproximadamente 16 mil setores censitários, distribuídos em cerca de 3.500 municípios. Esta é a quarta divulgação do índice. “É uma mostra bastante espalhada, tem avanço metodológico bastante robusto, é um aprimoramento em relação à PME. 

A pesquisa, no entanto, só terá dados completos divulgados – como dados de renda, além da desocupação – a partir de seis de janeiro de 2015. Azevedo ressaltou que “do momento que a pesquisa começar a divulgar dados mensais, a PME será desativada”.

“A Pnad Contínua mostra igualdade em relação a 2013 [no nível de ocupação] e avanço em relação ao primeiro trimestre. Esse avanço é sazonal, teve dispensa no mercado de trabalho no começo do ano e agora ele volta.”

A população desocupada somou 6,8 milhões no segundo trimestre deste ano, depois de atingir 7,3 milhões no mesmo período de 2013.

No 2º trimestre de 2014, as regiões que apresentaram os maiores percentuais de pessoas trabalhando entre aquelas com idade de trabalhar foram as  Centro-Oeste (61,5%) e a Sul (61,1%).

Segundo o IBGE, 78,1% dos empregados do setor privado tinham carteira de trabalho assinada, resultado acima do verificado no segundo trimestre de 2013. Os menores percentuais foram vistos nas regiões Norte (65,6%) e Nordeste (63,7%).

Entre os trabalhadores domésticos, 31,7% tinham carteira de trabalho assinada, contra 30,8% no ano passado. Os militares e servidores estatutários correspondiam a 69% dos empregados do setor público.

Na análise da taxa de desocupação por idade, o IBGE aponta que o índice entre jovens de 18 a 24 anos de idade ficou em 15,3% - resultado visto nas cinco grandes regiões analisadas pela pesquisa.

Nordeste

No 2º trimestre de 2014, 38,9% das pessoas em idade de trabalhar foram classificadas pelo IBGE como "fora da força de trabalho", ou seja, aquelas que não estavam trabalhando nem procurando emprego.

Entre as regiões pesquisadas, o Nordeste registrou o maior percentual, 43,1%, e as regiões Centro-Oeste (34,8%) e Sul (36,2%), os menores. Na análise de gênero, as mulheres representavam 66,5% desse grupo de pessoas. Do total de pessoas que não estavam ocupadas nem desocupadas, 34% era idosa; 29,2% eram jovens com menos de 25 anos e 36,8% eram adultos, com idades de 25 a 59 anos.

Nível de ocupação

As regiões Sul e Centro-Oeste registraram os maiores níveis de ocupação no segundo trimestre, com índices de 61,1% e 61,5%, respectivamente. Na outra ponta está a região Nordeste, cujo nível de ocupação ficou em 51,9%. No 2º trimestre, o nível da ocupação foi estimado em 68,4% para os homens e 46,4%, para as mulheres. A maior diferença foi vista no Norte e menor, no Sul.

A pesquisa mostrou que apenas duas regiões que ultrapassam 50% são a Sul e o Centro Oeste no nível de ocupação por sexo. Esse desnivelamento entre homens e mulheres não é novidade. “São aquelas mazelas da dificuldade da mulher se inserir no mercado de trabalho, ela tem jornada em casa muitas vezes, a gente sabe que existe [diferença] na hora da inserção como existe na hora de valor e rendimento.”

Entre os jovens de 25 a 39 anos, o nível de ocupação foi estimado em 75,8% e entre o grupo de 40 a 59 anos, em 69,4%. Entre os jovens de 18 a 24 anos, ficou em 57,5% e entre os menores de idade (de 14 a 17 anos), em 16,3%. Já entre os idosos ficou em 21,9%.

PME  X  PNAD

Segundo o IBGE, a diferença dos resultados da Pnad  e da PME, que mostrou uma taxa menor de desemprego, os indicadores não são comparáveis. "E não são comparáveis não só por questão de abrangência, mas por processo, de metodologia de amostra, de definição de indicadores. A Pnad continua está melhor ajustada às recomendações internacionais do que a PME e a Pnad”, daí se percebe que existe a diferença do que é população ocupada a e desocupada entre essas pesquisas e, por isso que não se pode comparar os resultados.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Nobel de Economia de 2014 – Jean Tirole

Prof. Jean Tirole
O prêmio nobel de Economia concedido a Jean Tirole pela Academia Real das Ciências da Suécia é um reconhecimento às importantes contribuições teóricas do economista francês em várias áreas, mas “acima de tudo ao seu esforço para a compreensão e a regulação de setores dominados por poucas empresas muito poderosas ou por um monopólio”, segundo a instituição. O professor da Universidade de Toulouse receberá um prêmio de 8 milhões de coroas suecas, equivalentes a pouco mais de 1 milhão de dólares.

Livres de regulação, os setores monopolizados produzem resultados com frequência “socialmente indesejáveis”, entre eles preços exageradamente elevados em relação aos custos ou empresas improdutivas que só sobrevivem por meio do bloqueio do ingresso de concorrentes novos e mais produtivos. A análise do economista sobre as empresas com grande poder de mercado propõe caminhos para o governo lidar com fusões e cartéis e regular os monopólios. Sugere a adaptação meticulosa da regulação às condições específicas de atuação de cada setor, do financeiro ao de telecomunicações.

O espaço para a valorização de trabalhos como o de Tirole ampliou-se após a crise de 2008 tornar evidentes as lacunas regulatórias no sistema financeiro. Outro estímulo foi a resistência crescente ao poder de mercado de empresas como o Google e a Apple, especialmente na Europa, palco também de um longo litígio com a Microsoft em anos anteriores.

Pelo segundo ano consecutivo, a academia sueca premiou economistas críticos ao pressuposto dos mercados eficientes defendido por pesquisadores da Universidade de Chicago, tradicionalmente acolhidos nas premiações da instituição.

O domínio do mercado por monopólios ou oligopólios é uma característica central da economia contemporânea. A autorregulação pretendida pelo neoliberalismo é irrealizável, na definição do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, e a única alternativa é a regulação promovida pelo Estado.

Michel Aglietta, autor de Regulação e Crises do Capitalismo, é o pioneiro da chamada escola regulacionista francesa, representada também por Robert Boyer e Alain Lipietz, entre outros. Os regulacionistas tornaram-se mais conhecidos no mundo acadêmico e entre o público leigo a partir da sua interpretação da dinâmica do capitalismo no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Aglietta destacou-se por seus estudos originais sobre a moeda e as instabilidades financeiras. Segundo alguns economistas, sua obra tem envergadura superior à de Tirole e o tornaria merecedor do Nobel.

*Reportagem publicada originalmente na edição 822 de CartaCapital, com o título "Antimonopólio"