quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Veja repercussão do aumento da taxa de juros a 11,75% ao ano pelo BC

Foi o 2º aumento seguido da taxa básica de juros da economia.
BC informa que juro deverá continuar subindo.


Apesar de a economia brasileira não estar a todo vapor, mas com inflação ainda resistente, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central acelerou o ritmo de alta e subiu a taxa básica de juros da economia em 0,5 pontos percentuais ontem quarta-feira (3/12), de 11,25% para 11,75% ao ano. Em outubro, os juros tinham avançado menos : 0,25 pontos percentual. Esse foi o segundo aumento seguido da taxa Selic, que está no maior patamar em três anos. A intensificação do aumento dos juros já era esperada por grande parte dos economistas do mercado financeiro.

Veja abaixo a repercussão da decisão:

Roberto Vertamatti, integrante do conselho de administração da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade
“Na verdade o Banco Central já deveria, diante da pressão inflacionária que a gente continua tendo, ter uma posição mais forte com relação à taxa de juros. Mais uma vez, fica claro que o novo ministério quer realmente combater a inflação. Você acaba aumentando o parâmetro de juros em toda a cadeia produtiva, infelizmente é uma medida amarga, mas necessária. A inflação continua pressionando, e nós temos duas alternativas para controla-la: uma são as medidas monetárias, que é essa do BC, e outra são medidas do Ministério da Fazenda, que é controlar gastos. Até então não temos conseguido fazer isso, o gasto público está muito alto. Juros muito altos significam uma sinalização recessiva, sem dúvida, mas nós precisamos controlar a inflação. Eu entendo que está correto o aumento, e é possível que na próxima reunião tenhamos um novo aumento, como o BC mesmo sinalizou.”

Roberto Luis Troster, coordenador do curso de bancos da Fipe – USP
“A decisão foi acertada. Estávamos com o mercado dividido antes do anúncio, com alguns analistas defensores do aumento de 0,25 em razão do baixo crescimento da economia, achando que um aperto monetário mais forte poderia prejudicar o crescimento. Todavia, os índices inflacionários estão fortes e, mais grave ainda, você tem tarifas que devem pressionar inflação, a taxa de câmbio que tem uma desvalorização forte e também influencia a inflação e um déficit fiscal considerável. É um momento em que se tem que realmente apertar os juros para evitar que a inflação continue subindo. A grande novidade do anúncio foi o uso da palavra ‘parcimônia’ pelo BC. Isso mostra que vai estar, como se diz, ‘com um olho no gato e outro na frigideira’.”

Rogério Amato, presidente da Associação Comercial de São Paulo
"A decisão do Copom de aumentar em 0,5 ponto percentual a Selic surpreendeu negativamente os empresários, pois todos os indicadores mostram que o nível da atividade econômica está muito fraco e, com a elevação dos juros, a economia deverá desacelerar ainda mais. A resistência da inflação não decorre de excesso de demanda, como revelou a informação sobre o consumo das famílias divulgada pelo IBGE, pelo que o aumento da Selic não é o remédio adequado no momento."

Miguel Torres, presidente da Força Sindical
"Ao subir os juros, o governo dá um presentão de Natal aos especuladores. O governo insiste em editar medidas de aperto monetário num país que está com a atividade econômica estagnada e com uma indústria que vem acumulando resultados negativos mês após mês. Estas políticas inflacionárias mal orientadas deprimem ainda mais a economia, em vez de fazê-la crescer. É bom ressaltar que o remédio do arrocho, em dose muito forte, pode intoxicar a economia e colocá-la na UTI. Estes juros proibitivos para o setor produtivo já comprometem as campanhas salariais das categorias com data-base no primeiro semestre de 2016. Não podemos permitir que a classe trabalhadora pague a conta dos desacertos e da equivocada equipe econômica. Para arrepio dos que defendem o desenvolvimento econômico sustentado com crescimento e geração de mais e melhores empregos, o governo que ainda não iniciou acaba de anunciar um ministro da Fazenda que promete reforçar o aperto monetário com austeridade fiscal, mantendo o câmbio flexível. Os ministros anunciados acreditam que a política de salário mínimo atingiu seu limite e não precisaria mais subir no mesmo ritmo. Em vez de recuperar a economia, essa guinada pode levar o país à recessão e ao desemprego."

Carlos Cordeiro, presidente da Contraf-CUT
"Mais uma vez, o Banco Central cedeu à chantagem insaciável dos rentistas e especuladores do mercado financeiro, os únicos que ganham, e muito, com esse segundo aumento consecutivo da Selic. Essa nova elevação vai travar ainda mais o ritmo de crescimento econômico, na contramão do desenvolvimento com mais empregos e distribuição de renda. Esse remédio amargo não dialoga com a sociedade, e é prejudicial para a economia brasileira, pois vai frear a expansão do crédito, o fortalecimento da produção e do consumo e a geração de empregos, no momento em que o país necessita de estímulos para crescer. Se não há excesso de demanda, aumentar os juros não resolve o problema da inflação. Pelo contrário, só vai fazer com que o Brasil siga crescendo pouco, gerando menos empregos, engordando os ganhos dos rentistas, especialmente os bancos, e aprofundando a concentração de renda no país."

José do Egito Frota Lopes Filho, Presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados
"Em seu patamar mais alto desde dezembro de 2011, a Selic de 11,25% ao ano já atuava para desestimular a poupança e esfriar investimentos importantes no setor produtivo. Mesmo a mínima histórica de 7,25%, atingida em outubro de 2012, já era alta pelos padrões internacionais. Agora, elevada mais uma vez, a taxa tem um efeito perverso sobre o conjunto da economia, que permanece estagnada. Voltamos a afirmar que, enquanto não houver um sério comprometimento do governo com o controle das contas públicas, ao lado de um programa consistente de incentivo a investimentos na economia real, a alta de juros mais penaliza a sociedade do que contribui para o controle inflacionário."

Fecomércio RJ
"A Fecomércio RJ espera que esta nova alta dos juros básicos pelo Banco Central seja o último capítulo do arrocho monetário em curso, o que não interessa apenas ao comércio, mas à economia como um todo. A parcela de brasileiros com algum tipo de parcelamento passou de 48%, em setembro de 2013, para 37%, em igual mês deste ano, segundo pesquisa nacional Fecomércio RJ/Ipsos. Indicadores de emprego, comércio, serviços e indústria sintonizam-se a este cenário de desaceleração, o que se agrava pelo encarecimento ainda maior do crédito. Após anos em que cresceu a taxas de dois dígitos, o varejo avança atualmente entre 3% e 4% anuais. Se considerado o varejo ampliado, computados resultados de veículos e construção civil, o desempenho cai para uma média de crescimento zero. Em outras palavras, o arrefecimento da demanda já aconteceu, ao mesmo tempo em que o governo sinalizou maior rigor com o controle do gasto público pelo perfil da nova equipe econômica."

Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro

"O cenário para a política econômica é desafiador. A economia brasileira deve encerrar 2014 com crescimento do PIB próximo de zero e inflação muito perto do teto da meta estabelecida. Para 2015, as expectativas apontam para um crescimento do PIB inferior a 1% e inflação ainda mais elevada, em especial por conta da necessidade de correção dos preços administrados. O Sistema FIRJAN entende que a solução definitivamente não se resume a aumentar ainda mais a taxa de juros e sim a reduzir a pressão fiscal decorrente dos exagerados gastos públicos. Nesse sentido, o anúncio da nova equipe econômica renova as perspectivas de um maior alinhamento entre as políticas monetária e fiscal, o que permitirá ao país reduzir a inflação sem impor custos elevados em termos de investimentos, produção e geração de empregos."


O Aumento da Taxa SELIC - (explicação)

Por que se aumenta a taxa Selic para combater a inflação?

Para não ocorrer remarcações de preços, sempre que os valores sobem acima do estabelecido, o Banco Central utiliza a sua principal ferramenta, a taxa de juro, para diminuir o dinheiro em circulação, conter a expansão do crédito e, assim, evitar que o crescimento inflacionário desperte. No Brasil, como o estado quase nunca cabe dentro do PIB, os gastos públicos costumam inundar a economia com mais reais do que ela é capaz de lidar. Assim, o Banco Central se vê na obrigação de acionar sua única e, às vezes, perversa arma de aumentar o custo do dinheiro para esfriar a atividade econômica – quanto maior a taxa, menor é a demanda. Com menos pessoas e empresas consumindo bens e serviços, os preços tendem a cair.

Quais podem ser os efeitos colaterais desse aumento?

Sempre que o juro sobe a dívida pública cresce. Por isso, o sistema de metas de inflação, utilizado pelo Banco Central brasileiro desde 1999, funciona melhor em países como a Nova Zelândia do que no Brasil. A razão? Por aqui, metade da dívida é atrelada ao juro. Toda vez que o Copom eleva os juros para combater a inflação, essa metade da dívida aumenta. Como países com dívida alta em relação ao PIB precisam de juros mais altos, cria-se um círculo vicioso do qual só se sai com cortes profundos de gastos.

Aumentar a taxa SELIC, por um lado é uma boa notícia para os investidores em títulos públicos, pois a rentabilidade está atrelada à SELIC, por outro lado causa um esfriamento na economia.

Por que elevar a taxa SELIC esfria a economia?

A resposta é bem simples. O aumento da taxa de juros impacta diretamente os juros dos financiamentos bancários. Como grande parte do consumo nacional é produto de financiamentos e a oferta de crédito está mais “cara” (com juros mais altos), consequentemente as pessoas passam a consumir menos.

O mesmo raciocínio se aplica às empresas, que deixam de contrair empréstimos para investimentos em novos projetos, já que os juros mais altos comprometem a taxa de retorno do investimento, aumentando o risco. Consumidores gastando menos e empresas investindo menos são igual a menos dinheiro rolando na economia.

Por que o governo aumenta a taxa SELIC?

O governo trabalha com uma meta de inflação anual em torno de 4,5% a.a. Sendo que a expectativa de inflação para o ano de 2010 já estava se aproximando dos 6% a.a. Isso significa que nós, consumidores, as empresas e o governo vinham gastando mais que a oferta de bens e/ou serviços. Isso tende a elevar o preço (pela tão falada lei da demanda e da oferta) das coisas. Portanto o aumento da SELIC desestimula o consumo, diminuindo a demanda (procura por bens e/ou serviços), impedindo que os preços continuem a subir e, quem sabe, até comecem a cair. Em poucas palavras, o objetivo do governo, ao elevar a SELIC, é controlar a inflação.