terça-feira, 27 de setembro de 2016


As projeções para a inflação são sempre informação de destaque nos documentos oficiais produzidos pelo Banco Central. É o caso do Relatório Trimestral de Inflação, o mais importante deles, porque faz uma análise aprofundada do processo inflacionário com suas causas, efeitos e, principalmente, sua trajetória esperada. No documento divulgado nesta terça-feira (27), o BC prevê que o IPCA termine este ano em 7,3% e em 4,4% no ano que vem – mantidas as atuais condições, ou seja, juros em 14,25% sendo a principal delas. O recado está dado: em 2016, o “leite já está derramado”, mas em 2017, o IPCA projetado já está abaixo da meta de 4,5%, o que significa que

“BC sugere o início do ciclo de redução dos juros já agora em 19 de outubro (próxima reunião do Copom). A dúvida agora é se começará por 25,50 ou 75 pontos-base. Eu aposto em 50 pp, com 80% de probabilidade”, afirma Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco.

Para cumprir seu mandatado e manter a inflação na meta estipulada pelo governo (hoje em 4,5%), o BC calibra a taxa de juros ao longo do tempo, subindo ou baixando o “preço” do dinheiro – quanto mais “caro”, menos apetite ao consumo e ao crédito, o que reprime o processo inflacionário. Pelo sistema de metas inflacionárias adotado no Brasil, a autoridade monetária fica “presa” ao ano-calendário para cumprir sua obrigação. Dos mais de 40 países que adotam este regime como política econômica, somos o único a seguir este modelo que limita o cumprimento da meta para o período entre janeiro e dezembro de cada ano. A discussão entre os formuladores do sistema se dá em torno dos choques inesperados. Para aqueles países com calendário solto e um horizonte flexível, a resposta aos choques não precisa ser tão enérgica e tempestiva, ao custo de cobrar um preço alto da economia via aumento dos juros.

Veja o caso dos alimentos que sofreram uma alta forte este ano. O BC não pode controlar o clima, claro, mas precisa cuidar da estabilidade da moeda reagindo às tempestades, mesmo que elas sejam temporárias e não apresentem riscos para o futuro. Como tem que entregar a meta no no dia 31 de dezembro, não importa quão passageira seja a tempestade, o BC tem que reagir. O debate em torno desta amarra não é novo mas parece que agora vai ganhar um novo capítulo. Pela primeira vez, o BC diz oficialmente, que o tempo de combate à inflação não é “estático”. “Ele se desloca continuamente com o passar do tempo. Dentro dessa estratégia, à medida que avançam os meses, as ações de política monetária passam a dar maior importância, de maneira gradual, para períodos igualmente à frente”.

“Muito bom esse Relatório TrimestraI sob novo formato. Ilan (Goldfajn, presidente do BC) dando show de bola, com uma transparência inédita. Honestíssimo e reconhecendo as surpresas. Ele abandona com muita segurança o ano calendário. Tese que eu defendo faz tempo e que só dependia de credibilidade do BC. Agora tem”, ressalta o economista-chefe do Bradesco.

Sempre que qualquer conversa sobre alguma mudança no regime de metas vigente no Brasil surgiu nos últimos anos, aparecia uma bandeira amarela com um lembrete do ditado: não mude as regras no meio do jogo que você está perdendo. Antes da desastrosa gestão de Alexandre Tombini, a justificativa para adiar o debate era a imaturidade do sistema, que tinha “apenas” 10 anos, o que era bastante razoável. Durante a administração de Tombini, com queda continua de sua credibilidade e, consequentemente, perda de confiança também na instituição, a questão ficou proibitiva.

Mesmo quando assumiu o BC, Ilan Goldfajn evitou qualquer declaração que desse a entender que ele gostaria de mudar as regras para conseguir cumprir seu mandato. Ao contrário, ele defendeu a retomada do regime de metas em sua essência e também se recusou a qualquer argumento para mexer nos objetivos para o IPCA, ajustando a meta no curto prazo para o BC dar conta de reduzir a inflação sem precisar manter os juros altos por tanto tempo.

Com menos de 4 meses à frente do Copom, Ilan conquistou espaço e confiança suficiente para, ele mesmo, recolocar o assunto em pauta. Nesse curto espaço de tempo ele mudou completamente a forma de comunicação do BC, com linguagem mais palatável e reconhecimento dos desafios mais espinhosos com clareza e transparência. Ele não tinha outra opção se quisesse ser bem sucedido, mesmo que o seu nome, por si só, carregasse muita credibilidade. O Relatório de Inflação repete todas as condicionantes necessárias para que o BC tenha “confiança” para mexer na taxa Selic. A desinflação dos serviços – que ganhou capítulo especial no documento – e a aprovação das medidas de ajuste fiscal são as principais. Ainda assim, parece que estamos mais próximos de deixar o recorde dos juros mais altos do mundo para trás – e mais...

“Com a provável queda dos juros no próximo COPOM de 19 de outubro, estaremos completando literalmente 4 anos (desde 10/10/2012) que não havia queda da taxa de juros no Brasil. De lá para cá, só houve estabilidade e aumento de juros. Impressionante”, lembra Octavio de Barros.


É mesmo, muito impressionante. 

Blog da Thaís Herédia - G1

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