segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Inflação: entre o possível e o provável

Não está fácil criar cenários e fazer previsões no Brasil. Não há modelo econômico que consiga medir o tamanho do risco que a governabilidade (ou a sua implosão) impõe ao país. Ainda assim os economistas tentam e conseguem preencher suas planilhas. Não estou desmerecendo o trabalho deles, ao contrário. Até porque, com estas estimativas calibramos a expectativa individual, num movimento que acaba confirmando, ou não, a trajetória da economia.  

Quer ver como funciona? Na pesquisa Focus da semana passada os analistas esperavam que o IPCA fechasse o ano em 6,52%. Apenas uma semana depois este número caiu para 6,49% - o que significa que o índice de preços voltará para dentro do sistema de metas de inflação que, por sua vez, é balizador essencial da formação das expectativas. Quando olhamos para o dado da semana anterior, passamos a acreditar que seria bem provável que o IPCA voltasse para limites do sistema. Agora, acreditamos que é bem possível que isto realmente aconteça.

A meta de inflação virou um símbolo importante para nos mostrar em que pé caminha a economia brasileira. O sistema tem, entre outras funções, a de promover a previsibilidade, mesmo quando ela aponta tempos ruins. A adesão à meta é um sinal bastante positivo de como o brasileiro não aceita mais correr riscos com a estabilidade da moeda. O modelo adotado aqui permite que o IPCA flutue numa banda de até dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Mas a meta a ser cumprida é a central, que desde 2005 é de 4,5%. 

A última vez em que o BC cumpriu seu mandato foi em 2009, quando a inflação fechou em 4,31%. De lá para cá, o IPCA ficou perigosamente perto do teto de 6,5%, até estourar o limite e fechar em 10,67% em 2015. Olhando mais para trás, a inflação oficial não refletiu com precisão o que acontecia no mercado porque o governo de Dilma Rousseff controlou preços importantes como energia, combustível e dólar. Sem as distorções geradas pela petista, o estouro do IPCA teria acontecido já em 2014 e evitaria que os choques da liberação dos preços em 2015 fossem tão altos.  

O IPCA que tivermos em 2016 será, tampouco, fruto de um ambiente mais organizado. A queda da casa dos 10% para a casa dos 6% em um ano é um movimento muito brusco e só foi possível pelo aprofundamento da recessão e do desemprego. O processo de desinflação nos custou caríssimo – ainda custa. A taxa de juros nas alturas por tanto tempo serviu para evitar uma alta ainda maior da inflação e, tão grave quanto isto, impediu que as expectativas sobre o futuro se perdessem no oceano das incertezas – pelo menos no que diz respeito à estabilidade da moeda. 

Voltando ao “como funciona” a formação das expectativas, a partir dos números revelados pelo boletim Focus constatamos que o BC não tem mais porque soltar a taxa de juros a conta gotas. A previsibilidade de um ano menos pior do que 2016 precisa atuar fortemente se quiser ajudar na recuperação da economia. Até porque, para 2017 os economistas preveem um IPCA de 4,90% - ainda mais perto da meta. É muito provável que este número se confirme. Mas é também possível que ele melhore, dependendo da atuação do BC com a taxa de juros.  

Do Blog da Thaís Herédia

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